Arte/Estadão
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A tragédia de Palmira e a miséria humana

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 00h00

A chegada de setembro devolve a alegria ao nosso solerte viajante, embora o outono prenuncie o inverno. Para quem vive de um lado para o outro no curioso mundo das estações do ano, setembro é, também, o vaticínio do inverno. A seguir, a carta da semana, uma indignação de leitores e do próprio viajante britânico.

Querido Mr. Miles: nunca escrevi sequer uma carta para jornais ou revistas. Mas a destruição dos templos de Palmira me deixou atônita. O que leva alguém a cometer esse tipo de brutalidade? Evelyn Auad, por e-mail

Well, my dear: estive pela primeira vez em Palmira, na região de Homs, na Síria, durante o final da Segunda Guerra, quando os franceses e nós, britânicos (shame on us!) ainda almejávamos algum grau de poder no Oriente Médio – e criamos a balbúrdia geopolítica que até hoje não foi resolvida. Foi lá que conheci o sábio Suleiman Safadi, o mais delicado e solerte fabricante de embornais que conheci em toda a minha vida. Comprei muitos deles nas diversas visitas que fiz ao local, um oásis de história quase infinita.

Lembro-me que, certa feita, levei para Suleiman um autêntico queijo Palmyra, de Minas Gerais, que me foi apresentado por Rosa (N. da R.: Guimarães Rosa, grande escritor brasileiro) em um de nossos encontros literários. Aliás, humbly, recordo-me de ter sugerido o nome Diadorim para um de seus personagens – mas suponho que a verdadeira inspiração tenha vindo de uma antiga aguardente de Salinas.

A tragédia de Palmira, com a destruição do inigualável templo de Baal Shamin mostra, unfortunately, que nós, humanos, temos a insolência e a sandice de colocarmo-nos no centro da história e do universo, tentando mesmo sobrepujar a força infinitamente maior da natureza e a dos deuses – sejam elas quais forem, existam ou não.

Beware, darling: quase não temos registro de nossa ‘onipotente’ passagem pelo mundo. Os ventos, as inundações, os cataclismas e as guerras destruíram quase todo nosso legado – essa palavra muito em moda, mas sem nenhum sentido enquanto existirem radicais como os do Estado Islâmico, do Boko Haram, da Al Qaeda e de toda ortodoxia religiosa e política que nos assola desde o princípio dos tempos.

No começo, dizem os especialistas, produzíamos construções e objetos menos duráveis. Oh: give me a break! Quem pode asseverar uma heresia dessa monta? Quantos de nossos antepassados em nome de um poder que, in fact, nunca tiveram, destruíram outros Baal Shamins e nem deixaram descendentes ou escritos que nos façam ter ideia do que ocorreu? 

Em uma de minhas últimas crônicas, chamada Pirâmides de nosso tempo, mencionei que todas as civilizações que enriqueceram quiseram deixar, para o tempo e para a história, monumentos em louvor à sua própria prosperidade. Das pirâmides do Egito às loucuras arquitetônicas de Las Vegas, tudo vem dessa mesma ambição.

Mas os povos empobrecem, são superados por outros ou, mesmo quando isso não ocorre, têm o mais desprezível dos prazeres humanos: destruir o que eles próprios não foram capazes de erguer.

I’m very sorry, dear Evelyn, mas isso ocorre todos os dias em todas as pequenas dimensões. Já contei aqui, certa vez, que em primeira visita à pirâmide de Queóps fui abordado por um rapaz árabe-egípcio que me ofereceu, sem qualquer constrangimento, um pequeno pedaço do colossal monumento. Poderia, of course, ser falso (o que é um pedaço de rocha além de ser um pedaço de rocha?), mas olhei adiante e vi outro rapaz, com um uma faca rudimentar, escalavrando a mais famosa das construções mortuárias. Assim somos nós, baby, assim somos nós..”.

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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