A triste viagem de Anali

Nosso irredutível viajante encerrou sua temporada caribenha e voltou a Londres com o intuito de checar o andamento dos preparativos para a festa dos 60 anos de reinado de "queen Elizabeth II". Foi fazer a primeira prova de seu costume em Saville Row, telefonou para a soberana e conversou, às gargalhadas, sobre a belíssima imitação que Meryl Streep fez de Margaret Thatcher.

O Estado de S.Paulo

06 Março 2012 | 03h10

E ainda levou uma bronca de sua tia Harriet por ter se exposto demasiadamente ao sol. "Você sempre exagera, Miles!", reclamou a senhora, apreciadora de gente com a cútis imaculadamente clara. Em seguida, escreveu sua resposta à correspondência da semana.

Querido mr. Miles: sou leitora assídua de sua coluna e concordo com sua defesa irrestrita do prazer de viajar. Tive, porém, recentemente, a pior viagem de minha vida. Fui ao encontro de uma pessoa com quem me correspondia pela internet e a experiência foi desastrosa. Agora sei que viagens também podem trazer uma profunda tristeza. O que o senhor acha disso?

Anali Monticoure, por e-mail

"Well, my dear: modestamente arrisco-me a dizer que a viagem, por si, tem pouco a ver com a sua decepção. Você, probably, estaria sentindo a mesma dor se o que chama de desastrosa experiência tivesse ocorrido na sua própria cidade or even na rua em que mora. A distância, sometimes, idealiza as pessoas. Tenho um amigo que acha muito mais atraente a namorada epistolar que julga ter em Praga do que a própria companheira, que vive em um bairro operário de Belfast. Amazing, isn't it?

Meu velho amigo James Augustine Aloysius Joyce (N. da R.: James Joyce, famoso escritor irlandês) costumava alertar sobre a força inigualável dos amores epistolares, sobretudo quando conduzidos por alguém capaz de escrever as palavras certas no tom adequado. 'Por carta', dizia-me ele, 'conquisto a mulher que eu desejar.'

In fact, o advento da correspondência instantânea através dos e-mails aprofundou esse risco. Por trás de um missivista sedutor pode ocultar-se uma pessoa inescrupulosa. Ou não, of course. Mas não há como saber sem correr o risco de um contato pessoal.

De minha parte, dear Anali, tenho certeza de que, apesar do anticlímax final, você fez o que um bom viajante faria. Arriscou-se. É possível perder quando se arrisca. Mas quem não o faz, com certeza, já perdeu. Do you know what I mean?

O mesmo, darling, ocorre com os viajantes. Há destinos que são charadas. Pouco se sabe sobre eles, não há literatura disponível para avalizá-los e, mesmo assim, é preciso descobri-los para formar sua opinião. Pode ser ruim ou pode ser uma grata surpresa. O fato é que não há como se arrepender do que você não fez. Mas é muito pior arrepender-se de não tê-lo feito. Don't you agree?

A sua carta não menciona qual foi seu destino, mas isso não importa nem um pouco porque, nesse caso específico, não era nele que você estava interessada. E, olhando por essa ótica, ouso dizer que a sua decisão foi absolutamente correta. Se seu correspondente não correspondia ao que você esperava, a única maneira de tirar isso a limpo era mesmo indo até ele (ou, even better, se ele, como um gentleman, viesse até você).

Pondo fim à sua questão, concordo com a conclusão de que 'viagens também podem trazer uma profunda tristeza'. Por uma simples razão, my dear: viver traz, sometimes, profundas tristezas. E viajar é parte da vida. A melhor delas, mas, ainda assim, não mais do que uma parte."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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