Farrell/AE
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A viagem e a vida

O homem mais viajado do mundo reflete sobre as viagens durante a vida

Mr. Miles, miles@estadao.com.br, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2010 | 01h59

A surpreendente onda de frio que assola o Hemisfério Norte do planeta está fazendo nosso bravo viajante reconsiderar suas avaliações sobre o aquecimento global e a ideia de investir em praias da Groenlândia para criar futuros novos balneários. Mr. Miles conta-nos que não se lembra de ter visto tanta neve no Reino Unido desde os tempos em que as escolas do Condado de Essex ainda tinham, pendurada em suas paredes, a foto do rei George VI.

Ainda indignado com as novas tendências da segurança aeronáutica, "que breve obrigarão o surgimento de aviões naturistas", nosso correspondente observa que o choque térmico decorrente do encontro entre passageiros nus e invernos gélidos será potencialmente mais letal do que os atentados terroristas. A seguir, a mórbida correspondência da semana:

Mr. Miles: um amigo me contou que muitos navios de cruzeiro são equipados para receber os corpos de passageiros muito idosos que morrem durante a viagem. A história me pareceu tétrica. Isso de fato existe?

Sólon Soure Ramos, por e-mail

"Well, my friend, não espere esta resposta de uma companhia de cruzeiros, mas, de fato, a situação que você descreve é real. Meu bom e velho amigo Ruud Kolningen, um comandante norueguês de larga experiência, falou-me sobre o assunto certa vez, entre doses de acquavit. Lembro-me de ter ficado astounded as you are now. Logo em seguida, however, o velho marujo levou-me a compreender a poesia que existe na decisão que alguns tomam de partir bravamente para novos horizontes, ainda que cientes da possibilidade de que aquela seja sua última viagem.

"É uma homenagem à vida!", bradou Kolningen, naquele bar, com os olhos firmes de quem passou a vida levando pessoas de porto em porto.

He was right, my friend. Hoje, quando vejo um passageiro de idade provecta ou de aparência doentia em um navio de turismo ou em um hotel de lazer, sinto-me inclinado a reverenciá-lo com admiração. Porque, de várias e curiosas maneiras, o ato de viajar costuma ter fortes ligações com a vontade que as pessoas têm de fortalecer suas relações com a vida. Seja como uma forma de melhor entendê-la e justificá-la, seja, simplesmente, para preenchê-la com novos ares, outros sabores e diferentes entendimentos. Você se espantaria, my dear Sólon, ao ver quantos homens e mulheres abatidos, frequentemente atormentados por doenças crônicas, recuperam o viço e afastam-se de seus males quando decidem partir em novas jornadas. Unfortunately, isso não é uma regra, porque a única regra, in fact, é a finitude da vida.

E, by the way, se ela tem mesmo de acabar, melhor que seja longe. Don"t you agree? Longe do presente, porque, exceto os que perderam a esperança, todos nós ainda temos projetos e expectativas. Longe, sobretudo, dos hospitais, onde sempre dá-se um jeito de transformar nossas lembranças em tubos, cabos, seringas de uma assepsia que, oh my God, nem de longe pertence à vida real.

Não faço projeções a esse respeito, mas, por mera probabilidade estatística, suponho que eu também vá morrer viajando. Pois que seja assim: apenas um novo e fascinante destino na minha jornada."

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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