Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

A viajante perpétua

Amiga de Mr. Miles decidiu viver num navio de cruzeiros

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 05h00

Ainda em Gudvangen, na Noruega, “com uma awful ressaca de aquavit” resultante da festa de casamento a que foi apadrinhar, nosso viajante nos envia, aparentemente, uma correspondência previamente respondida.

 

Mr. Miles: você conhece alguma pessoa que viaje mais que o senhor?  

Tércio Moreira Lino, por e-mail

“Well, my dear, não tenho dúvidas de que, thank God, existem inúmeros cidadãos, de diversas nacionalidades, que pratiquem, como hobby, o que chamo de vida. Modestamente, posso citar, inclusive, alguns admiradores que, inspirados pela minha escolha, decidiram abandonar seus afazeres cotidianos e partiram mundo afora, com mais ou menos regularidade. Existem, segundo me consta, algumas associações de viajantes (sou patrono de algumas delas) e, com alguns de seus membros troco eventual correspondência quando, seldom, nossas missivas se alcançam. 

Nem todos, however, são levados pelo simples desejo de visitar novos lugares e encontrar novas pessoas. Navegadores solitários ou casais embarcados – há milhares deles nos intermináveis mares de nosso planeta –, são, of course, destemidos viajantes. However, quase todos os que conheci não alimentam qualquer interesse pelo encontro. Bem ao contrário, cultivam hábitos solitários, de eremitas. Seu prazer está no encontro – e, sometimes, no confronto – com as forças da natureza – experiências que meu dear friend Amyr Klink viveu com brilho e descreveu com talent. Os portos lhes servem apenas de armazéns. Sua paz está nas longínquas baias desoladas, onde podem fundear o prazer de sua solidão.

Também não viajam da maneira que me agrada os colecionadores de destinos, aqueles estranhos tipos que sempre rumam para espaços vagos de seus mapas perpassados por marcadores e consideram a waste of time retornar a uma cidade, por mais impacto que ela tenha lhes causado. However, my friend, também eles são viajantes, também eles fazem as malas, deixam sua vida e partem pelo mundo – embora sempre retornem para exibir suas conquistas, reivindicar diplomas e publicar estatísticas.

Entre os viajantes profissionais – marujos, comandantes, certos tipos de mercadores e diplomatas –, é no meio desses últimos que costumo encontrar os que desenvolvem maior apreço pela diversidade, em minha modesta opinião, o selo de distinção de um viajante qualificado. Talvez por dever de ofício, quiçá pela extensão de sua permanência, muitos embaixadores e cônsules tornam-se verdadeiros cidadãos do mundo. 

Não conheço, yet, ninguém que viaja há mais tempo, sem parar, do que uma velha conhecida, mrs. Fremont, de Hartford, Connecticut. A simpática e riquíssima senhora embarcou em um transatlântico na primavera de 1964, meses após o passamento de seu marido e já ciente de que os dois filhos só teriam a decência de procurá-la uma vez por ano, no Thanksgiving Day. Pois, believe me, fellow: mrs. Fremont resolveu morar no navio. Há quarenta e cinco anos ela ocupa a mesma cabine da mesma embarcação e viaja ao redor do mundo, porto por porto. Quase sempre tratada como uma rainha –, embora, sometimes, o turn over da tripulação a incomode –, mrs. Fremont transformou sua vida em uma viagem.

Consta que, nas duas vezes em que o navio foi recolhido em doca seca para remodelações, a viajante perpétua aproveitou para tirar férias. Guess where? Em outros navios de cruzeiro, of course. Eis uma grande viajante. Don’t you agree?” 

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E  16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

Envie sua pergunta e-mail para miles@estadao.com

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