A viajante sem noção

Nosso viajante britânico informa, emocionado, que participou da festa em homenagem à sua amiga e soberana, Elizabeth II. Como de hábito, Mr. Miles mandou que rosas colombianas fossem enviadas para a rainha e exaltou sua juventude. “Nove décadas já representam alguma coisa, dear Majesty. Mas faço votos que a senhora chegue à minha idade com a mesma disposição e saúde!”

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2016 | 02h30

 A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: o que o senhor acha de viajantes sem noção? Patricia Fortelli, por e-mail

“Well, my dear, não sei bem ao que você está se referindo, mas, de alguma maneira, sua pergunta me remeteu a uma espantosa viajante que conheci anos atrás. A moça, chamada Susan e proveniente de Idaho, em nossa antiga colônia, flanava pela Piazza San Marco, em Veneza quando disse, com o olhar inteligente de um ruminante mascando capim: ‘Adoro viajar! Estou tão feliz de voltar a Veneza, depois de quinze anos. Mudou tanto!’. Oh, my God!

Veneza mudou? Todos sabem que a cidade permanece a mesma desde os tempos de Marco Polo. É, of course, um exemplo de preservação – que não seria nada se tivesse uma cara nova para cada longo século de sua existência.

Como cavalheiro que sou, however, decidi não admoestá-la, mas achei interessante me apresentar para conhecer melhor aquela alma pura e desinformada. Susan era um fenômeno digno de estudo científico. Em poucos minutos, ela me informou, sorridente, que estava achando a França o máximo.

‘França?’, perguntei.

‘É, Mr. Miles, a comida é tão boa. Adoro pizza. Foi inventada aqui na França, não foi?’

Estupefato, decidi convidá-la para almoçar. Em segundos, ela me pediu que traduzisse o cardápio. “Well, Susan, há um texto em inglês embaixo do nome dos pratos. Can you see?”.

Pois ela me pediu que traduzisse mesmo assim, porque, a seu ver, um mushroom em inglês era diferente de um funghi em francês (que era italiano, of course).

Durante o almoço, pude me divertir com suas histórias. Herdeira de um rico vendedor de pneus em Boise, ela já havia estado em diversos lugares. Não soube me dizer quais eram eles. Mas falou em elefantes, torres, muralhas e pontes.

Questionei Susan se não era interessante lembrar-se dos lugares que conheceu, mesmo que fosse para não voltar, casualmente, aos mesmos. Foi então que ela me ensinou:

‘Ora, Mr. Miles: todos os lugares mudam como Veneza. Então tanto faz. Cada viagem é diferente!’

Fui obrigado a concordar – sobretudo porque creio mesmo que os lugares mudam permanentemente, exceto Veneza.

 Perguntei a ela se, dado o seu desconhecimento sobre os idiomas e os lugares, preferia viajar em excursões organizadas.

‘De jeito nenhum’, respondeu-me. ‘Uma vez viajei com um guia e, Deus me livre: ele falava sem parar!’

Susan era mesmo uma pessoa sem noção. Digo mais, my friends, abusando da redundância: ele não tinha nem mesmo senso de noção. Do you what I mean?

Disse-lhe que era inglês e brinquei com o fato de que nós, britânicos, havíamos colonizado os Estados Unidos.

‘O quê? Eu não tinha a menor ideia de que os ingleses tinham alguma relação com a gente. Pensei que tínhamos sido descobertos pelos nativos!’

Diante de mais essa demonstração de leviandade, perguntei-lhe, enfim, por que motivo viajava.

‘Adoro fazer compras e adoro contar tudo quando volto. Minhas amigas vão amar quando eu disser que estive aqui na França.’

Can you believe me?”

Mais conteúdo sobre:
Mr. Miles

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.