Acrobacias contra a correnteza

A 250 metros de altura, com vista do Pacífico e a silhueta esmaecida do continente ao longe, esqueci do mal-estar que havia acabado de experimentar. Nem uma hora antes, ao enfrentar a correnteza na travessia entre Ventura e as Channel Islands, parque nacional a quase duas horas da costa, o balanço do barco provocou um enjoo que não cedeu nem com os dois comprimidos tomados ainda na marina, antes da partida, nem com o refrigerante de gengibre que fui aconselhada pela tripulação a beber.

VENTURA, O Estado de S.Paulo

07 Agosto 2012 | 03h11

Na trilha bem marcada e cercada por vegetação rasteira, impossível se perder, dei um jeito de ficar a sós com a paisagem. Deixei o grupo se afastar até sumir e pude, então, escutar o silêncio daquela montanha encravada na ilha de Santa Cruz, a maior entre as cinco do arquipélago onde se estudam e conservam espécies animais e vegetais, da terra e do oceano. Tão dedicado à preservação que não há cesto de lixo ali. Todo resíduo deve ser levado de volta ao continente.

Performances. O trajeto até a ilha havia reservado emoções bem mais empolgantes que o mal-estar provocado pelo movimento. Os golfinhos, que surgiram minutos depois da partida da marina de Ventura, foram o aperitivo para a grande atração do dia. Depois de quase uma hora de navegação, o catamarã parou. Motor desligado, não demorou para as primeiras orcas se aproximarem e darem início ao espetáculo de acrobacias que se estendeu pela meia hora seguinte.

Durante os meses quentes, de abril a agosto, as águas da região abrigam também jubartes e baleias azuis em busca do ambiente adequado para se reproduzirem. Tais espécies não deram o ar da graça naquele dia. As orcas, por sua vez, podiam ser contadas às dezenas. E capricharam. Sozinhas, em duplas ou trios, lado a lado ou em fila indiana, chegavam tão perto do barco que permitiam fotografias nítidas (como a desta página) dos detalhes de seu corpo bicolor. Entre os turistas, entusiasmo ruidoso.

Desembarcamos no Ancoradouro Scorpion, no leste da ilha, onde as ondas quebram contra um paredão rochoso. Dali partem passeios de caiaque para descobrir cavernas, que precisam ser contratados no continente - o tour custa entre US$ 165, um dia, com a Island Kayaking (islandkayaking.com), e US$ 335, três dias, com alimentação. Há também opções de snorkeling.

O tour básico no catamarã (US$ 56; islandpackers.com) é ótimo para famílias em passeios de um dia. Mochileiros embarcam com kit de camping completo. Há um centro de visitantes com acolhimento básico e mesas. É preciso levar comida e água e se vestir em camadas: faz frio no barco, esquenta na trilha, esfria de novo no alto da montanha.

Quando reencontrei o grupo, eu havia acabado de vestir o casaco corta-vento. Veleiros que passavam adiante confirmavam que eu estava certa. Na praia, um lanche antes de embarcar de volta ao continente. Não houve mal-estar dessa vez porque, explicou o guia, agora navegávamos a favor da correnteza. Ou talvez eu não tenha sentido nada porque fiz o que achei mais seguro (e agradável): abracei a preguiça, a sensação boa do sol de fim de tarde no rosto e cochilei o trajeto quase inteiro. / MÔNICA NÓBREGA

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