Samrang Pring/Reuters
Samrang Pring/Reuters

Afinal, o que querem as famílias viajantes?

Flexibilidade e empatia podem até substituir espaços 'kids'

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2018 | 03h02

Metade do material de divulgação que recebo como jornalista especializada em turismo é de produtos e serviços que se dizem amigáveis para famílias. É um convite: mãe e pai turista, venham, seus filhos serão bem recebidos.

Daí a gente acredita. Vai. E o que acontece? Degraus na entrada nem deixam passar o carrinho de bebê. O kids club toca “joga lá no meio, mete em cima, mete embaixo” enquanto hóspedes de 3 e 4 anos brincam de massinha (vi isso, juro). Só tem trocador no banheiro feminino. A criança teria de estar eternamente de nariz entupido para suportar a falta de sabor de tanto filezinho de frango. 

O setor do turismo ainda acredita que bastam brinquedões de plástico, nuggets no cardápio ou um cubículo com micro-ondas e geladeira para que um restaurante, hotel, aeroporto, passeio sejam amigáveis a famílias. 

Definitivamente, não. Passou da hora de receber crianças com seriedade. De entender que infraestrutura é importante, mas a adequação do serviço e a coerência é que fazem a diferença. Se não por disposição genuína, por interesse econômico. 

O relatório 2016 da Organização Mundial do Turismo das Nações Unidas (UNWTO) informou que estar com a família aumenta a satisfação na viagem de 30% dos turistas. O mesmo relatório anota que, em pesquisa da agência de relações públicas Ogilvy sobre “novos consumidores” após as crises econômicas dos anos 2000, 76% dos pesquisados preferem mais tempo com a família a mais dinheiro. 

E o que é que nós, famílias viajantes, queremos?

Nós queremos jogo de cintura. Chegamos a um hotel-fazenda em Brumadinho, a cidade do Inhotim, depois de três horas perdidos com o carro alugado. A criança de 3 anos, faminta. O almoço já tinha acabado, o jantar estava longe. Mais fazenda que hotel, a hospedagem não tinha restaurante, apenas a cozinha para preparo das refeições do pacote meia pensão. Mas a funcionária logo achou o jeito de nos poupar de voltar quilômetros por estrada de terra até a cidade: fez um carinhoso prato com arroz, feijão, legumes e salada para o pequeno, que comeu numa mesa no jardim. O hotel nem nos cobrou pelo prato, mas este foi só um (gentil) detalhe.

Queremos respeito. Duas mulheres casadas reservaram para si e o filho de 6 anos um quarto de casal com cama extra em um hotel de Santa Mônica. Na chegada, a família foi levada a uma acomodação com três camas de solteiro. Ao reclamarem na recepção, ainda ouviram que o hotel achou que tinha havido engano na reserva, por serem duas mulheres. Em pleno 2018. Na Califórnia.

Queremos bom senso. Meu filho não come carnes. O prato que interessou a ele num certo restaurante de uma cidade turística no interior paulista foi o macarrão ao sugo, que acompanhava polpettas. O restaurante ofereceu servir o macarrão sem os bolinhos de carne. Custou o mesmo preço do prato completo, mas não aumentaram a quantidade de macarrão. Tivemos de pedir repeteco. Cobraram duas vezes. 

Outra mãe teve de pagar o suplemento para “criança de até 12 anos no mesmo quarto dos pais” para se hospedar com o filho de 9 anos numa pousada em uma cidade serrana no interior do Rio de Janeiro. Detalhe: o pai do filho não estava com eles. E não foi pedida cama adicional. 

Queremos segurança. O Inmetro normatiza e certifica o turismo de aventura; a Associação Brasileira de Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta) dá orientações sobre como se adequar. 

Queremos gentileza. Meu filho garantiu ao nosso guia no rafting em Brotas que queria, sim, remar. O paciente Gabriel arrumou-lhe um remo leve, mas percebeu na primeira corredeira que o pequeno estava um pouco assustado. Colocou-o mais perto de si. A partir de então, se esmerou em brincadeiras para deixar o menino mais confortável. E conseguiu. 

Dá para resumir tudo isso em: queremos flexibilidade e empatia. É o que faz a gente, mãe e pai, gostar e voltar. Ah, também cai bem uma playlist inteligente e adequada (não significa moralista, nem careta). 

Nem precisa da palavra kids.

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