Aflições de um candidato a viajar

Não, ele não veio ao Brasil como havíamos previsto. Acometido de mais uma recidiva da malária que o atacou pela primeira vez no Congo, em meados do século passado, nosso viajante decidiu recolher-se para alguns dias de descanso. A seguir, a pergunta da semana:

O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2015 | 02h05

Dear mr. Miles: pelo cinema e pela TV, o mundo parece às vezes pior ou um pouco melhor do que está à nossa volta. Mesmo assim, gostaria de empreender uma viagem para conhecer outros países e, quem sabe, me surpreender. O que mais me assusta é a xenofobia e as taxas de visto que nem sequer são capazes de assegurar que uma viagem se complete. Também odiaria perder minhas últimas esperanças de que existam em algum lugar pessoas bem educadas, capazes de generosidade com um estrangeiro que mal conhece sua língua. Dito isso, que roteiro, providências e atitudes você me aconselha para que a minha eventual empreitada não seja puro sofrimento e desencanto?

Airton Reis Júnior

"Well, my friend: se fui capaz de compreendê-lo, há três níveis de preocupação em sua carta. Todos eles merecem uma análise, ainda que mal traçada, por este humilde, mas persistente viajante. Sinto que o preclaro amigo chega à beira do desespero ao colocar seus principais temores: a xenofobia e as taxas de embarque.

I'm sorry, dear Airton, mas tenho a impressão de que são assuntos de universos distintos. Veja bem: a ignominiosa xenofobia é uma falha do caráter humano e, unfortunately, não há população no planeta que tenha erradicado um determinado grau de aversão aos estrangeiros - o que vem a ser a mesma besteira que o nacionalismo exacerbado. As you know, sou um inimigo de fronteiras físicas e considero que o mundo todo é um quintal de seus habitantes. But don't worry: essa mazela nos acompanha desde a Antiguidade e, mesmo assim, milhões de pessoas viajam com prazer. É como roupa suja: os que praticam a xenofobia só o fazem na intimidade. Quando já estão em público, é sinal de conflagração. Nesse caso, melhor evitar, don't you agree?

Já a questão da taxa de embarque é apenas numérica e burocrática. Há lugares que a cobram, outros não. Mas, believe me: não vale a pena trocar de destino (ou de sonho) em função desse valor acessório. Você fala sobre 'não perder a esperança de que existam em algum lugar pessoas bem educadas, capazes de generosidade com um estrangeiro que mal conhece sua língua'. Pois não se preocupe: há pessoas simpáticas e bem educadas em todos os lugares do mundo (até em Paris, antes que você me pergunte). Em minhas andanças, tenho reparado que o mais comum é o contrário: viajantes monoglotas acanham-se tanto diante de estrangeiros que, não raro, tornam-se antipáticos e agressivos. Vá em frente com uma postura amigável e sem qualquer medo. Faça, com um sorriso, que seus interlocutores o ajudem. Vocês estão em pé de igualdade: eles também não falam a sua língua! E, lembre-se antes de generalizar: há pessoas desagradáveis e antipáticas em qualquer lugar do mundo as well (até no Brasil, antes que você me pergunte).

Por fim, você me pede conselhos para que sua viagem 'não seja puro sofrimento e desencanto'.Já dizia meu saudoso amigo e psicanalista, dr. Nelson Montag: 'o sofrimento e o desencanto estão dentro de você'. Therefore, faça com que a sua viagem seja uma oportunidade para livrar-se dessas sensações negativas. Decida para onde vai, comece a sonhar e guarde os mencionados sentimentos em um armário entreaberto. Quem sabe, ao retornar, você descubra que eles aproveitaram o descuido e... well... desapareceram!"

* Mr. Milles é o homem mais viajado do mundo. ele esteve em 183 países e 16 territórios ultramarinos

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