César Fraga
César Fraga

Afroturismo valoriza história e cultura negra

Roteiros afrocentrados resgatam legado no Brasil e no exterior. Em São Paulo, tour mostra um outro centro histórico; viagens internacionais apresentam a pluralidade cultural

Nathalia Molina, Especial para o Estado

16 de novembro de 2020 | 05h00

Ressignificar a dor em uma narrativa de superação e orgulho. Esse resgate da história e da cultura do povo negro se converte em uma viagem, possível para todos. O afroturismo vem se consolidando nos últimos dois anos no Brasil e se apresenta como uma forte tendência em tempos nos quais a importância das vidas negras entrou em pauta.

A próxima sexta é 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Em um País onde pretos e pardos representam mais da metade da população, conhecer o passado e valorizar a influência presente é uma boa forma de começar a explorar essa riqueza. “A gente acredita que, independentemente da cor, da raça e do credo, todo mundo tem a crescer quando se dispõe a conhecer a história e a cultura negra. Se você é branco, você é necessário”, afirma Bia Moremi, que criou a Brafrika no início de 2019.

“Nessas mudanças pelas quais o turismo vem passando, a experiência é uma demanda da sociedade, para além da fotografia nas viagens”, afirma Carlos Humberto da Silva Filho, um dos sócios da Diaspora.Black, empresa que atua como um marketplace de experiências e turismo negro. Pioneira nesse mercado, começou em 2017 como plataforma de hospedagem. “Acabamos pautando o mercado. Já existiam algumas iniciativas, mas esse turismo afrocentrado estava sob o guarda-chuva do étnico”, lembra.

Uma das primeiras experiências vendidas na Dispora.Black foi a Rota da Liberdade. Do Vale do Paraíba ao litoral de Paraty (RJ), passa por fazendas de café e comunidades quilombolas. “O Brasil tem uma diversidade de africanidades, que foram permeadas por indígenas e europeus. É um manancial cultural. Todos podem vivenciar isso.”

Até mesmo em viagens à África, já organizadas por empresas brasileiras como a Destino Afro. A incursão do fotógrafo César Fraga ao continente por 60 dias teve um motivo diferente: registrar a vida em nove países. O resultado: 4 mil imagens e o livro Do Outro Lado, primeira parte do trabalho que refaz as rotas do tráfico entre os séculos 16 e 19. “Gana é indicada para quem quiser fazer uma viagem encantadora pela origens do povo do Brasil. Moçambique é linda de doer e você vai ficar em hotel de charme. Benin é a coisa mais colorida do mundo.”

Sankofa, o nome do projeto, é inspirado no conceito africano que sugere um retorno ao passado para ressignificar o presente e construir o futuro.

Em busca da herança africana

A turismóloga Carina Santos embarcou para um mochilão em 2015. Um ano depois, o jornalista Guilherme Soares Dias se jogou em uma jornada por 25 países. Como muitos jovens que se aventuram pelo mundo, os dois voltaram transformados. Mas também com um peculiar estranhamento em comum: a sensação de ser o único negro nos lugares.

“Quando fui fazer mochilão, eu me inspirei em influenciadores, que eram pessoas brancas. Só que nenhum viajante que li me disse que eu poderia ser abordado no meio da rua pela polícia em Veneza, provavelmente porque isso não acontece com eles”, diz o jornalista, que na volta criou o Guia Negro, com dicas de restaurantes, serviços e passeios para esse público. Em 2018, ele fundou com Luciana Paulino a Black Bird, cujo principal produto é a Caminhada São Paulo Negra.

Em três horas de tour, da Liberdade à República, são vistos lugares como a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e o antigo Pelourinho. “A gente apresenta a cidade para quem mora nela: 80% do nosso público é paulistano. Isso é poderoso. A pessoa passa todo dia no Anhangabaú e não sabe que era uma estrada de pessoas escravizadas. Vai à Liberdade e não sabe que o bairro tem esse nome por causa de um negro.”

No primeiro passeio após a pandemia, realizado em 20 de outubro, o grupo foi seguido e abordado por policiais. “A pessoa negra é olhada como o diferente, não é o padrão. Não entendem que pode ser um tour.”

Dias acredita que o setor de viagens irá se transformar assim como ocorreu com a indústria da estética, com produtos para cabelos de volumes diversos e peles de vários tons. “As pessoas negras estão querendo viajar dessa forma. Travel Noire e Black and Abroad são grandes agências internacionais desse movimento.”

Carina também retornou sentindo necessidade de fazer algo novo. Criou a Black Travelers em 2016 para mostrar a cultura negra do Brasil para estrangeiros – “meu público é majoritariamente americano”. Dois anos depois, em sua primeira viagem à África, em Moçambique, viu que o próximo passo era levar brasileiros para lá e para países da diáspora negra. “O primeiro pensamento de viagem para o exterior é projetado para Europa ou Estados Unidos porque várias agências oferecem isso”, diz. “A gente pensava que era muito difícil de ir para a África, mas não é.” O próximo grupo embarca em julho de 2021.

O passeio em São Paulo e o pacote para Moçambique são vendidos ainda pela Diaspora.Black, marketplace, que quase fechou com a crise da covid-19, mas que atingiu 700% de crescimento no últimos seis meses em comparação ao mesmo período de 2019. “Agora temos experiências afrocentradas online. Continuamos chegando às pessoas com os mesmos princípios, a partir da tecnologia promovendo a história e a cultura negra”, diz Silva, à frente da startup com três sócios, Antonio Pitta, André Ribeiro e Cintia Ramos. Em 9 de dezembro, começa o curso Percurso da Educação Antirracista no Brasil (R$ 100). Com cinco aulas ao vivo, é indicado para educadores.

Mas não abandonou os passeios presenciais. “Somos uma das empresas que são tendência no mercado, com o crescimento do turismo doméstico e de aluguel de propriedades para viajar em família”, diz, completando: “As agências convencionais insistem na história única.”

Diversidade entre países africanos

Há uma visão errônea de unidade quando se fala do continente africano. O escritor Maurício de Barros Castro conta que sabia dessa pluralidade, mas se surpreendeu com o que encontrou. “Esperava uma África diversa, mas não tinha a dimensão de que seria tanto. Angola, por exemplo, é muito mais ocidentalizada por causa da colonização portuguesa até meados dos anos 1970.”

Professor do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), ele planeja publicar no fim do próximo ano um livro sobre as relações entre o samba brasileiros e a semba de Angola. “Desenvolvo pesquisas sobre arte e cultura no chamado Atlântico Negro, com ênfase na memória da escravidão, na música e nas artes visuais.”

São dele os textos do livro Do Outro Lado, com as imagens feitas por Fraga.Um pouco das histórias e das imagens estão na série Sankofa – A África Que Te Habita, de dez episódios. Com narração de Zezé Motta, estreou em maio no canal Prime Box Brazil.

“Sempre tive curiosidade de entender de onde vieram meus ancestrais. Da África aqui só chega problema. A Nigéria é um polo de cinema, produz muito e não vem nada”, afirma o fotógrafo brasileiro. “O meu papel é trazer referências para o povo negro do Brasil. Quero mostrar toda a riqueza africana.” Para isso, ele prepara mais três projetos: Sankofa (extensão da primeira viagem a mais cincos países), Brasil Negro (registro da maranhense Alcântara à gaúcha Jaguarão) e Somos Todos África (ida a 15 países das Américas que receberam escravizados).

Com roteiros formatados até 2022, quando prevê dez dias na Nigéria, Bia trabalha com saídas em grupo na Brafrika. Foca ainda em entretenimento e busca incluir eventos, caso do Afro Nation, festival de música em Portugal. “Fazer uma viagem com recorte de raça não quer dizer que não vai ter foto em frente à Torre Eiffel. Mas o walking tour por Paris vai visitar o Château Rouge, bairro com 90% da população africana. A gente também prefere contratar serviços de empreendedores negros.” Maceió com o Quilombo dos Palmares, por exemplo, inclui uma caminhada destacando pontos da história negra na capital e almoço de comida afrobrasileira em União dos Palmares.

Primeiro congresso de viajantes negros

Mochileira pelo Brasil de 2017 até o início da pandemia, Manoela Ramos conheceu quilombolas e foi abrigada gratuitamente na casa de muitas famílias negras pelo País. A experiência rendeu dois livros. Devido à repercussão do primeiro, Confissões de Viajante (Sem Grana), foi chamada para palestrar em eventos de turismo. “Estranhava porque não tinha praticamente negro. Não queria que fosse só eu contando histórias." Manoela teve, então, a ideia de fazer o I Congresso O Mundo é Nosso, encontro de viajantes negros para abordar as diferentes perspectivas do afroturismo. Em 20 de novembro, as 14 horas de conteúdo em vídeos serão liberadas e ficarão disponíveis por dez meses aos participantes (ingresso a R$ 53).

“Cresci em uma família que tinha consciência racial. Minha mãe é professora de História. Mas eu não tinha noção de como as tradições pretas existem em todos os lugares do País. No Amapá, pode ser marabaixo, carimbó no Pará, no Rio é jongo, na Bahia, samba de roda. O Brasil tem muita cultura negra e na viagem você vivencia isso.”

Quem leva e quanto custa

Os preços dos passeios e pacotes abaixo são por pessoa:

Black Bird: A Caminhada São Paulo Negra custa R$ 60 – próximas saídas em 20 e 21/11. Site: 

Brafrika: Na Páscoa, a viagem para Maceió com ida ao Quilombo dos Palmares (de 31/3 a 4/4/21) custa desde R$ 2.225,70 em quarto duplo, sem aéreo. Site: 

Destino Afro: O roteiro para Moçambique de 10 a 18/7/21 custa a partir de R$ 3.900 em quarto duplo (somente a parte terrestre). Instagram: .

Diaspora.Black: Em Salvador, tem dois roteiros disponíveis atualmente, ao preço de R$ 150 cada e com saídas sob demanda: o passeio pela tradicional Feira de São Joaquim e o Caminho de Oxalá (por casas de axé e museus). Site: diaspora.black.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.