Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Água na boca em um passeio pelas ruas de Lyon

Muito por mérito de Paul Bocuse, Lyon é considerada um dos polos gastronômicos mais vibrantes da França. O chef de 87 anos nasceu e vive na cidade. Seu Auberge du Pont de Collonges (bocuse.fr; 148 o menu clássico), três-estrelas Michelin desde 1965, fica nos arredores. Desde 2006, o principal mercado de ingredientes da cidade, Les Halles, foi rebatizado com seu nome.

LYON, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2013 | 07h14

Chegar ao Les Halles de estômago vazio é uma provocação. Sabe cheiro de fome? É a sensação. O que não chega a ser um problema, já que em meio às bancas de carnes, mariscos, vegetais e cogumelos há dezenas de outras com petiscos que se pode comer em pé, como ostras, queijos e torta praliné - uma sobremesa com amêndoas e açúcar vermelho, extremamente doce.

Os meilleurs ouvriers de France se multiplicam por ali. A tal ponto que fica fácil entender por que Bocuse em pessoa é visto com frequência nos corredores. Não tive o privilégio, mas é o que dizem os comerciantes, em causa própria, claro.

Entre os 60 boxes de Les Halles há alguns restaurantes com tentadores cardápios escritos a giz e mesas lindamente postas. A dúvida a atormentar o espírito será render-se aos aromas do mercado ou seguir para um bouchon, modalidade de restaurante típica de Lyon.

Segue o esclarecimento para orientar a escolha: a melhor definição para um bouchon lyonnaise seria a de um restaurante da mamma, se existissem mammas francesas. Em sua origem fundados por ex-empregadas de famílias ricas, estes estabelecimentos se caracterizam por ambientes sem frescura e praticam uma culinária caseira, farta, deliciosa - e nada leve, como fazem supor seus ingredientes básicos. Carne de porco, batatas, partes menos nobres dos animais são constantes nas receitas.

Eu segui para o Daniel et Denise (leia abaixo), bouchon que fica bem perto do mercado.

City tour. Terceira cidade mais populosa da França, Lyon tem cara e ritmo de metrópole. Seus bairros são chamados de arrondissements, como em Paris (são nove), há metrô e Galerias Lafayette.

A parte para conhecer a pé é o centro histórico, patrimônio da Unesco e que vem passando por um processo de recuperação. Antes disso, subir à Basílica de Fourvière, em uma colina, proporciona uma bela vista da diversidade urbana e dos dois rios que se encontram na cidade, Ródano e Saona. E permite uma descida que inclui espiada em um anfiteatro romano do século 1.º, cuja construção foi ordenada pelo imperador Augusto.

Lá embaixo, entre as ruas com calçamento de pedra, pode-se observar um curioso conceito urbano: edifícios construídos atrás de outros, em direção ao centro do quarteirão. Trata-se de um arranjo do século 17 que faz com que alguns prédios não tenham portas na rua e só possam ser acessados pelo interior de outros. Em troca do incômodo, a prefeitura paga parte do condomínio.

O comércio dessa área é o mais criativo possível. A Secrets d'Apiculteur (Rue Saint Jean, 54) vende derivados de mel, de comestíveis a cosméticos. Na mesma rua estão lojas dedicadas a absinto, a bebida, e a fantasias e utensílios da Idade Média, como armaduras e espadas. Na Tribu des Gones (Rue Saint Jean, 22) há camisetas com estampas divertidas.

A Soierie Saint-Georges (soierie.st.georges.free.fr) preserva a tradição tecelã de Lyon. A cidade chegou a ter 30 mil tecelões - sobraram nove, entre eles o proprietário da Soierie, Ludovic, que faz o possível para formar aprendizes em seus teares de 200 anos de idade. Por enquanto, conseguiu completar a formação de três jovens. Lenços de seda custam a partir de 35.

Também no coração do centro histórico está o hotel Cour des Loges (courdesloges.com; diária desde 200), instalado em um conjunto de mansões dos séculos 14 a 17. No pátio interno, o restaurante Les Loges ( 95 o menu), com uma estrela Michelin obtida em 2012, foi o mais bonito do roteiro, arquitetonicamente falando. Ovo pochê com cogumelos e bacalhau com legumes estavam irretocáveis. O foie gras era comparável a três colheres de óleo despejadas sobre o estômago, de tão intenso. Mas fui a única da mesa a não comer tudo. / M.N.

 

Daniel et Denise

Na falta de estrelas (que nem fazem tanta falta assim), o chef Joseph Viola ostenta o brasão de meilleur ouvrier de France. No salão cheio de gente nada preocupada em moderar o tom de voz do bouchon Daniel et Denise (daniel-et-denise.fr; menu desde 29 euros), ele serviu a melhor comfort food da viagem.

Ao prato bem servido de sopa de abóbora com espuma de queijo da entrada, seguiu-se costela de porco com purê de batatas, em porção que tranquilamente serviria dois. Deu vontade de dormir depois da sobremesa de figos em calda com sorvete. Até isso faz parte do clima comidinha da mamãe.

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