Mônica Nobrega/Estadão
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Gilberto Amendola
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Ah, como era gostoso o meu francês

Acho que há 50% de chances de o idioma francês ter criado o sexo com amor

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2019 | 03h00

Não falo francês. E isso é quase uma falha de caráter. Acho lindo. Como todo mundo sabe, o idioma francês inventou o amor. Ou o sexo. Ou os dois. Acho que são 50% de chances do idioma francês ter criado o sexo com amor. E outros 50%, creio eu, de ter criado os encontros casuais. Mas, como ia dizendo, deixei passar. Só tenho o básico para sobrevivência turística. Talvez por isso sou dado aos arroubos criativos de um não falante. 

Se ouço “bonjour”, logo imagino um café da manhã na cama, um lençol esparramado e o amor de quem vai se atrasar para chegar ao trabalho. Bonjour é o sexo com os olhos cheios de remela e um sabor de algo amanhecido. Mas algo bom, delicado e devagar. 

Não posso ouvir “boulangerie”. Nossa! Eu viveria nessa palavra. Nada a ver, mas boulangerie é como uma cama grande, um bangalô no meio do nada, o ninho mais confortável que dois amantes podem ter. Bonjour na boulangerie é o tipo de coisa que me vira a cabeça.

Francês é uma língua tão sensual que tem uma expressão para aquele momento depois do orgasmo, para a hora do cigarrinho. A expressão é “la petite mort”. Ou seja, bonjour na boulangerie seguida de uma la petite mort

E tem vida depois da la petite mort? Tem. O nome dela é fromage. Gente, fromage é queijo e queijo é uma forma de sexo. Sexo depois do sexo e do cigarrinho. Repita comigo: fro-ma-ge. 

Conhece “mon coeur”? Meu coração. Mas não qualquer coração. Coeur é um coração coado, de café passado em peças íntimas. Coeur é um coração que pinga-pinga, um coração que se esvai feito um sonho. Um coração que se despedaça de um jeito bonito. 

O próprio “je t’aime” me parece um “eu te amo” diferente. Mais leve. Acho que sequer é para sempre. No “je t’aime”, o amor dura só o tempo necessário para brotar, criar asas e acabar. Eu diria: não sei se te amo, mas “je t’aime”.

Bem diferente de oublier. Obviamente, oublier é um jeito de esquecer sem esquecer de verdade. É aquela namorada(o) que você só finge que passou. Oublier é uma palavra redonda. E, se é redonda, pode apostar, ela (ele) vai voltar. 

Bisou é um beijo repetido. Um beijo com gosto de quero mais. Bisou uma vez, “bisa” de novo.

Mesmo um repolho. Um mero repolho é um chou. Confessa, não dá vontade de dormir abraçado? Pensa bem, “mon chéri” é um carinho com aroma. É quase a evocação do cheiro da pessoa amada. O cheiro que fica no travesseiro, que se espalha pela casa e que se confunde com a própria vida. 

E, em francês, se a vida está uma merde, ela não está tão ruim assim. Uma merde é sempre alguma coisa que pode ser superada. Só está uma merde, mas amanhã passa. Mesmo às segundas-feiras, mesmo elas. Veja só: segunda é lundi. E lundi não te lembra uma dança, um bate-cabeça, um agito ou uma festa? Segunda-feira de folga, férias ou festa é puro lundi. Por falar nisso, espero que você esteja me lendo em plena mardi. Que ela não seja nem de leve uma merde. E que tenha muitas palavras gostosas pra dizer.

Diga de boca cheia: ah, como era gostoso o meu francês.

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