Stefano Rellandini/Reuters
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Além dos cartões-postais

A Capela Sistina é linda, logicamente, mas não me impactou tanto quanto eu imaginava por algumas razões

Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

26 de fevereiro de 2019 | 03h05

Preparem-se, haters, vem aí uma declaração polêmica: não fiquei tão impressionada com a Capela Sistina quando fui ao Vaticano. Não me entendam errado, é claro que apreciei o trabalho de Michelangelo. Posso imaginar a dificuldade dele, com o braço doendo, tinta pingando no olho, suor escorrendo pela testa e o cliente palpitando: “ah, mas eu acho que esse Adão tá meio esquisito, aquele anjo ali tem a asa meio torta”. 

A Capela do século 15 é linda, logicamente, mas não me impactou tanto quanto eu imaginava por algumas razões. Na fila quilométrica que passa pelos Museus do Vaticano (mesmo para quem compra o ingresso antecipado) há salões repletos de afrescos históricos, decorados com quadros, esculturas e mobiliário de época, cuja beleza fica em segundo plano. Ninguém quer perder o lugar na fila, e todo esse tesouro acaba ganhando apenas uma corrida de olhos, se tanto. 

Eu imaginava que algo ainda mais surpreendente me esperava na principal atração do Vaticano. Mas você chega à Capela cansado, os guardinhas falam alto para pedir silêncio, as pessoas ficam em busca de um lugar confortável (algo inexistente) para observar melhor o teto. E eu ali, dividida entre a tensão de ter de voltar dali memorizando o maior número de detalhes para justificar nos bate-papos que toda aquela fila valeu a pena, com uma certa dor no pescoço (e nas pernas), tendo de desviar de outros turistas. E lá se foi o clima. 

Na saída da Capela há mais obras, relíquias, detalhes maravilhosos que todo mundo deixa para lá porque tem de ir correndo tirar foto da famosa escadaria caracol. Não estou julgando ninguém: foi exatamente o que fiz. E me frustrei comigo mesma. Gostaria de ter passado mais tempo apreciando as obras do museu em vez de correr para não perder aquilo que todo mundo classifica de imperdível.

Eis aí minha provocação. Uma atração vira cartão-postal por ser especial, logicamente. Mas será que nessa “obrigação turística” não deixamos passar detalhes ainda mais ricos? 

Atire o primeiro Lonely Planet quem, no afã de “ticar” atrações, não deixou de parar em um café aconchegante no caminho entre o museu e o cartão-postal porque “não ia dar tempo”. Quem deixou de ouvir o músico de rua que embalava a multidão com sua melodia ou quem não falou para o companheiro de viagem “vamos logo, para quê essa demora toda”.

Viajar não é um bingo onde se completa uma cartela de atrações. É apreciar e apreender um lugar, absorver dele o máximo possível e retornar com mais memórias do que fotos no celular (se é que isso é possível nos dias de hoje).

É por isso que não há resposta para a pergunta “quantos dias você acha que eu devo ficar lá?”. Fique sempre o máximo que puder, deixe dias livres para flanar pela cidade, para inventar um bate-volta de última hora, para voltar a um lugar que tocou seu coração.

Pressa e multidões prejudicam nossa percepção sobre os lugares. Já ouvi relatos de quem tampouco se emocionou em Machu Picchu.

Posso entender o porquê: normalmente, essa pessoa chega para um bate-volta de trem, a partir de Cuzco, com uma multidão de turistas – algo comparável a cruzar a passagem entre as linhas verde e amarela no metrô de São Paulo pela Estação Consolação no horário de pico. Por isso, sempre recomendo dormir uma noite em Machu Picchu Pueblo (antiga Aguas Calientes), aos pés de Machu Picchu, e escolher subir à montanha em um horário que não bata com a chegada dos trens.

Em Roma, a igreja que fez meu coração palpitar foi a pouco conhecida Basílica dos Santos Cosme e Damião, aonde cheguei andando sem rumo pela Via dei Fori Imperiale. Praticamente não havia turistas ali, nada de filas ou guardas: havia silêncio e introspecção, que me permitiam sentar para observar o espaço consagrado no século 6°, mas cuja estrutura atual é do século 17. Saí dali renovada, pronta para as filas do próximo cartão-postal.

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