Karsten Moran/NYT
Karsten Moran/NYT

Alergia a nozes? Você pode não embarcar no voo

Nos Estados Unidos, companhia aérea retirou de aeronave família que se declarou sensível osa alimentos

Roni Caryn Rabin/The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2017 | 01h27

Rosanne Bloom e a família haviam se sentado no voo de Filadélfia para as Ilhas Turks e Caicos na manhã de Natal quando dois funcionários da companhia aérea informaram que ela, o marido e os dois filhos deveriam sair do avião. Sua bagagem já havia sido removida.

O problema? Bloom havia informado os tripulantes de que os filhos adolescentes tinham alergia severa a vários tipos de nozes.

“Eu disse que tínhamos os remédios necessários, que havíamos trazido nossa própria comida e estávamos confortáveis no avião. Até me ofereci para assinar um formulário de renúncia”, afirmou Bloom, ortodontista de Clarksville, Maryland. “Dois minutos depois já estávamos fora do avião”.

Matt Miller, porta-voz da American Airlines, afirmou que essas decisões ficam a cargo dos pilotos. “O piloto determinou que seria melhor para a família não viajar com base na gravidade da alergia e a necessidade de fazer meia volta se qualquer pessoa comesse algum tipo de noz no avião”, afirmou.

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As companhias aéreas têm uma longa tradição de servir nozes durante o voo e muitas vezes essa é a única opção. Contudo, a prática também representa um desafio para viajantes com formas graves de alergia, que podem sofrer uma reação pelo simples fato de tocar uma superfície que foi exposta a algum tipo de noz.

Entretanto as tensões entre passageiros com alergias alimentares e tripulantes de aviões aumentaram nos últimos anos, à medida que as companhias aéreas começaram a colocar em prática regras mais rígidas em relação ao embarque de passageiros. No passado, os pais de crianças pequenas podiam embarcar na frente, o que dava a chance de limparem assentos, mesas e braços das poltronas, de forma a limitar o risco de exposição a alérgenos. Contudo, atualmente muitas companhias aéreas deixaram de permitir que as famílias com filhos pequenos embarquem antes dos demais passageiros.

Quando as famílias pedem permissão para realizar o embarque adiantado – ou questionam se haverá algum tipo de noz – correm o risco de ser tiradas do voo ou são informadas dessa possibilidade, disse Mary Vargas, advogada cuja família quase foi retirada de um voo de Londres para os EUA em dezembro por causa de uma alergia a nozes.

As famílias com alergias a nozes estão impondo um desafio legal a essas políticas. Duas queixas formais foram abertas no Departamento de Transportes no último mês acusando a American Airlines de discriminação contra passageiros com alergias. As reclamações citam as políticas de embarque da companhia, que proíbem o pré-embarque de pessoas com alergias, mas não de outros grupos de passageiros.

“O que queremos é poder viajar de avião como qualquer outra pessoa nos Estados Unidos”, afirmou Vargas, a advogada que representa as famílias.

Ainda que ninguém registre o número, estudos indicam que emergências médicas durante voos são relativamente incomuns e afetam uma pequena fração dos 3,6 bilhões de passageiros que voam a cada ano. Dores no peito e eventos cardiovasculares são as razões mais comuns para que aviões desviem de suas rotas em função de emergências médicas. Reações alérgicas representam menos de quatro por cento de todas as emergências médicas durante voos, de acordo com um estudo publicado em 2013 pela revista científica Western Journal of Emergency Medicine.

A American Airlines, que opera uma das maiores frotas de aviões do planeta, nem mesmo serve nozes durante o voo. Contudo, a empresa conta com uma política em que afirma: “Pedidos para que determinados alimentos não sejam servidos durante a viagem, incluindo nozes, não poderão ser aceitos. Não é possível oferecer áreas de segurança contra alergias, nem podemos permitir que os passageiros embarquem antes dos demais para limpar assentos e mesas”.

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“Além disso, não é possível garantir que nossos clientes não serão expostos a amendoins e nozes durante o voo e permitir que pacientes com alergias embarquem previamente pode criar a falsa impressão de segurança no voo, uma vez que isso não elimina os riscos”, afirmou Miller.

Pessoas que sofrem de alergias alimentares severas e mortais podem apresentar inchaço e dificuldade para respirar, mesmo quando a exposição é limitada. Elas geralmente carregam uma injeção de epinefrina, um medicamento capaz de reverter os sintomas. Contudo, no caso de uma reação severa, a pessoa ainda pode precisar de acesso imediato a um hospital.

Pesquisas mostram que medidas como a criação de zonas livres, nas quais os passageiros são orientados a não comer derivados de nozes, e a limpeza prévia de assentos e mesas podem ajudar a reduzir o risco de uma reação alérgica em pleno voo.

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Uma das reclamações, oficializada no dia 28 de dezembro, é de Nicole Mackenzie, mãe de uma criança de sete anos com alergias graves a amendoim, nozes e sementes. Ela não recebeu permissão para embarcar antes dos outros passageiros e limpar o assento antes da viagem da família de Portland, Oregon, a Charlotte, Carolina do Norte. A segunda reclamação foi realizada no dia 10 de janeiro em nome da Food Allergy Research & Education (FARE), uma organização que representa pessoas com alergias alimentares.

“A ação da American Airlines foi claramente discriminatória. Eles têm uma política definida no site, e as únicas pessoas discriminadas no pré-embarque são as alérgicas”, afirmou o CEO e diretor médico da FARE, Dr. James Baker Jr.

Lianne Mandelbaum, cujo filho é alérgico, acompanha as experiências de viajantes com alergias em seu site, o No Nut Traveler. Ela afirmou que cada companhia aérea define as próprias regras, mas que as políticas não são aplicadas de forma consistente, de forma que os viajantes muitas vezes não sabem o que esperar quando fazem planos de viagem.

“É como uma roleta russa”, afirmou Michael Silverman, psicólogo de Nova York, cuja filha de 13 anos, Sydney, tem uma alergia grave, mas que não gosta de falar sobre o assunto por medo de ser expulso de aviões.

O Departamento de Transportes está investigando as reclamações, afirmam as autoridades, acrescentando em um e-mail que alergias graves são consideradas uma deficiência de acordo com a Lei de Acesso aos Transportes Aéreos, que regula as viagens aéreas, caso impeçam o indivíduo de respirar ou “tenham impacto significativo sobre qualquer atividade da vida”. A indústria de alimentos derivados de nozes fez lobby contra a restrição do consumo de nozes em aviões e o Congresso proibiu o Departamento de Transportes de impor qualquer restrição.

Algumas companhias aéreas são mais abertas aos passageiros com alergias alimentares. A Jet Blue estabelece uma “zona livre” em torno de passageiros com alergia. A Southwest evita servir nozes e amendoins caso os comissários de bordo sejam informados da presença de algum passageiro alérgico no voo. A política da Delta também consiste em evitar servir amendoins caso haja um passageiro alérgico a bordo.

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Entretanto, entrevistas com quase uma dúzia de famílias e jovens adultos com alergias alimentares graves sugere que muitas pessoas têm medo de ser retiradas do voo, caso peçam para que os comissários não sirvam amendoins.

Ana Govorko, administradora hospitalar de Princeton, Nova Jersey, afirmou que em julho do ano passado ela, a filha adolescente e um filho adulto foram obrigados a desembarcar de um avião da Lufthansa com destino a Nova York vindo de Munique e Trieste, na Itália. Ela havia informado à atendente que sua filha sofria com alergias graves e estava carregando o medicamento necessário. A família esperou no aeroporto por sete horas tentando encontrar outro voo, enquanto funcionários da companhia “faziam piada com as alergias”, afirmou Govorko. “Eles foram muito rudes. Foi chocante”.

Eles conseguiram embarcar em outro voo da Lufthansa com destino a Newark no dia seguinte. A porta-voz da Lufthansa, Christina Semmel, afirmou que a família foi autorizada a voar após apresentar uma carta do médico da filha, mas Govorko conta que mostrou a carta quando tentou embarcar no primeiro voo.

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