Filipe Araujo/Estadão
Filipe Araujo/Estadão

Alma gêmea viajante

Você não quer constituir família com essa alma gêmea: quer constituir viagem

Adriana Moreira, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2018 | 04h30

Encontrar sua alma gêmea viajante não é fácil. Não basta amor verdadeiro, amizade de longa data, laços sanguíneos. É preciso ter química, uma capacidade especial que permita sobreviver a um hotel ruim, a uma semana de chuva na praia, a voo atrasado e trânsito pesado. Você não quer constituir família com essa alma gêmea: quer constituir viagem. 

Tive sorte, encontrei a minha ainda na adolescência. Não lembro quantas viagens fizemos juntas, nem quando foi a primeira. Ao longo de quase 25 anos, foram inúmeras idas à praia, bate-voltas diversos, muitos carnavais – até “apadrinhamos” um casamento em Las Vegas. Em outras, não fomos juntas, mas trocamos dicas. Minha primeira ida à Austrália foi quase totalmente planejada em cima das experiências dela, que tinha percorrido toda a costa do país durante o ano que morou por lá. Ela tampouco me acompanhou na Olimpíada do Rio, mas me orgulho de ter despertado nela a vontade de assistir aos Jogos de perto. Fomos em semana diferentes, mas compartilhamos a alegria da viagem uma da outra.

Viajar sozinha é bom – sou uma grande adepta, aliás. Mas, antes de embarcar, eu perguntava se ela queria ir junto. Ela era a pessoa que colocava a trilha sonora no carro, a que insistia para que tirássemos fotos, a que conseguia ingressos para baladas apenas com cara de pau, simpatia e bom papo (sem nunca mencionar que eu trabalhava em um jornal). Tinha uma facilidade incrível – invejável até – de fazer amizades descompromissadas em qualquer lugar, em qualquer idioma, em qualquer ocasião. 

Juntas, atolamos o carro do irmão dela (desculpe, André). Fizemos rafting em Juquitiba. Vimos o sol nascer num ano-novo em Búzios e lá salvamos o ator Caco Ciocler do papo chato de uma amiga alcoolizada (desculpe, Caco). Num carnaval no Rio, passamos horas caçando um taxista disposto a nos levar de volta a Santa Teresa numa era pré-aplicativos. Fizemos toda Riviera de São Lourenço cantar “Se meus joelhos não doessem mais…” (desculpe, afinação).

Com ela, não havia espaço para o mau humor. Admito: da nossa dupla, eu era a implicante. Ela ignorava esse fato (“para de ser chata, vamos lá”, dizia) e me convencia a ir a lugares nos quais eu jamais pisaria por minha conta. Foi assim que fui parar (literalmente) em um congestionamento monstruoso pré-réveillon, em um show de axé no Guarujá e numa conhecida balada na Grande São Paulo cuja fila para entrar (e sair) era quilométrica. Sozinha, eu nunca teria enfrentado aquele armagedon sertanejo, mas com ela nada era ordinário. Tudo magicamente se transformava em divertido e memorável, mesmo que fosse a maior roubada da história. 

Ter uma alma gêmea viajante não significa necessariamente encontrar alguém parecido com você. A minha era muito diferente de mim – às vezes discutíamos, queríamos coisas diferentes, mas sempre chegávamos a um consenso. E era isso que nos enriquecia como viajantes. 

Vai fazer um ano que perdi esse privilégio. Não apresentei a ela o carnaval de Olinda – “não vai sair de lá, ano que vem eu vou”, ela me disse quando a convidei, no ano passado. Não fomos visitar a amiga dela no Canadá. Não viajamos juntas à Austrália, ao Japão, à costa da Califórnia à la Telma e Louise, como tantas vezes planejamos. 

Por outro lado, são as viagens que concretizamos que, hoje, me trazem conforto. Meu conselho: se você tem uma alma gêmea viajante, transforme seus planos em viagens, seus sonhos em memórias, possibilidades em realidade. É a melhor estratégia para, um dia, aplacar as saudades.

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