Amanhã vai ser outro dia

Mais uma decepção sem tamanho para esta redação. O nosso sempre solerte viajante britânico esteve em São Paulo, na semana passada, para apresentar seus sentimentos à família do "querido aviador e doce empresário Jacques Goldfinger, que se foi deixando em minha memória uma parcela importante do gosto por viajar".

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2014 | 02h06

Pouco depois de prestar sua solidariedade à família, mr. Miles encaminhava-se para a redação deste matutino quando teve um desagradável encontro com milhares de torcedores argentinos que, sabe-se lá como, desconfiaram que nosso correspondente era inglês e ameaçaram investir contra ele caso não gritasse que "as Malvinas são argentinas". Com toda a sua fleuma, mr. Miles rebateu: "Of course, not! E, by the way, elas se chamam Falkland".

Sua sorte foi que uma velha amiga, passando de carro pelo local, abriu a porta para mr. Miles e o levou para lugar incerto e não sabido. Fazemos votos de que o caro correspondente nos dê o prazer de sua visita ainda nesta temporada.

A seguir, a questão da semana:

Olá, amigo viajante. Nós, que amamos viajar, amamos a cultura, a culinária e tudo o que se relaciona com povo, será que algum dia conseguiremos conhecer Bagdá, Mossul, Damasco, Beirute e tantas outras cidades do Oriente Médio? Ou as suas histórias fabulosas e milenares, de terras onde correm leite e mel e os cedros e os vinhos serão conhecidos por nós apenas pelos livros e pelos jornais (nas páginas de guerra)?

Maria Lúcia Paganelli, por e-mail

"Well, my dear, sua carta carrega a pior frustração que qualquer viajante pode ter: a de, por motivos completamente alheios a sua vontade, estar impedido de visitar lugares que, in fact, seu coração já conhece, tantas vezes já bateu pelas cascatas de leite e mel, respirou a brisa dos cedros e degustou a candura do vinho.

Nevertheless, essa é a cura adequada para a dor de não poder ir. Só os que realmente conseguem embarcar na viagem de sonhos que antecipa a jornada real podem afirmar que, mesmo sem ter feito as malas e mesmo sem ter um carimbo no passaporte, já estiveram onde, por enquanto, é impossível estar.

Como, as you know, sou um viajante longevo, com raízes no mais tênue amanhecer do século passado, já senti, nas mais diversas conflagrações, a impossibilidade de chegar a cidades e regiões que o ódio transformou em palco de guerra. Mas, veja só, darling, a desimportância dessas refregas. Há um dia em que, cansados de empilhar mortos e ver ruir sua própria história, os guerreiros se cansam. E, o mais glorioso de tudo isso é que as cidades - pelo menos as que valem a pena - renascem com a mesma velocidade que a floresta devora estradas como a vossa Transamazônica. E, more than that, a verdade é que as populações também recuperam o viço com rapidez inesperada.

Todas as cidades que você menciona em sua lovely letter eu tive o prazer de conhecer em tempos melhores. Hoje, indeed, parece impossível que voltemos a visitá-las. Mas quem apostaria, 40 anos atrás, que seria possível passar bons momentos no Vietnã ou no Camboja? Ou quem daria um pennie furado por Dubrovnik na ainda mais recente guerra do Bálcãs?

Well: let's wait and see. Como dizia meu querido amigo Francis Buarque de Hollanda, "amanhã vai ser outro dia."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E 16

TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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