Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Amazônia pelo Rio Solimões, de Manaus até a Colômbia

A bordo de um barco regional, mas com algumas mordomias, navegamos por sete dias, ao lado de moradores e entre cenários intocadas pelo turismo

Mônica Nobrega, Manaus / O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h15

Caldinho de pirarucu, suco de taperebá, matrinxã assado, farofa de uarini. A primeira imersão no mundo amazônico se apresentou tanto em forma de comida quanto na de um vocabulário todo novo. E que seguiria sendo incrementado ao longo dos próximos dias. 

Eu havia acabado de chegar a Manaus. No dia seguinte, começaria uma viagem de uma semana pelo Rio Solimões no barco regional M. Monteiro, rumo à Colômbia. Barcos regionais levam moradores, acomodados em redes, e cargas, seu principal faturamento. Quase nunca turistas; no máximo, mochileiros. 

Naquele almoço no restaurante Banzeiro (banzeiro é a agitação que os barcos causam nas águas dos rios) conheci Ricardo Koellreutter, dono da agência paulistana Paradiso Turismo e criador do projeto Amazônia, Estradas d’Água. O roteiro propõe desbravar uma Amazônia intocada pela indústria do turismo, no ritmo da vida local. 

Os grupos têm no máximo 20 pessoas; o meu, o quarto desde que o roteiro foi criado, tinha seis. Há outras três saídas programadas este ano (veja datas e preços abaixo). Embora integrados ao dia a dia da embarcação, esses viajantes têm facilidades: cabines com banheiro, refeições mais variadas e passeios em voadeira, adaptados diariamente.

Na contemplação e na convivência com moradores e tripulação, a Amazônia vai mostrando suas faces e nomes. Igarapé, igapó, paranã, lago, furo referem-se ao rio. Cajá, cupuaçu, pacovã, biribá, tucumã e cubiu são frutas; matrinxã, pirarucu, tambaqui e surubim, peixes. Na paisagem, açaizeiro, castanheira, abacaba e juari são palmeiras; e nelas pousam o japó, o japini e a coroca.

As redes são o jeito supereconômico de fazer a viagem, com refeições incluídas na passagem. Mesmo usando banheiros coletivos e fazendo passeios até prainhas de rio apenas nos portos de paradas, vi também os mochileiros se divertindo. E vivendo um estado de encanto pela Amazônia para o qual não há palavras. 

Quanto custa e como ir:

Preços: saída em grupo custa R$ 4.850 por pessoa, em cabine dupla. Inclui 2 noites em hotel em Manaus e 1 em Letícia, refeições e passeios. A Paradiso vende também a cabine no M. Monteiro, sem passeios, por R$ 1.750 por pessoa, e a viagem em rede, por R$ 585; preços sem aéreo. A passagem em rede pode ser comprada no porto de Manaus por R$ 385, mas sem garantia de vaga.

Próximas saídas em grupo: 25 de maio, 17 de agosto e 9 de novembro. 

Contato: 11-3258-4722; paradisoturismo.com.br.

VEJA GALERIA DE FOTOS DA VIAGEM DE BARCO REGIONAL PELA AMAZÔNIA

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Antes ou depois da floresta, o caos provocante de Manaus

Deixe a frescura em casa para se jogar na área do porto, onde cores e cheiros são intensos e o mercado de peixes é um aglomerado de barcos de pesca

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h13

Havia um show conjunto de quatro cantoras da cidade programado para a noite de sexta-feira no Teatro Amazonas. Com ingressos a R$ 30 ainda disponíveis, o programa era perfeito para fechar o primeiro dia em Manaus e ainda conhecer por dentro o principal monumento à prosperidade financeira do ciclo da borracha no norte do Brasil. Inaugurado em 1896 em estilo renascentista, o teatro foi um dos responsáveis pelo apelido de Paris dos Trópicos que a capital do Amazonas recebeu na época. 

Manaus se mostra provocante e caótica na medida para contrapor a imersão na floresta. Deixe a frescura em casa para se jogar na área do porto, onde cores e cheiros são intensos, o mercado de peixes é um aglomerado de barcos de pesca que vendem eles mesmos seu produto fresco, há um enorme mercado de bananas, outro de frutas e um terceiro de vegetais, e ainda o Mercado Adolfo Lisboa.

Esse último, com sua arquitetura de ferro e sua reforma concluída em 2013, vende ervas, vegetais, carnes, farinhas (R$ 8 o quilo) e artesanato baratinho e genérico. O bom artesanato, feito por comunidades indígenas e com atestados de origem, está na Galeria Amazônica (galeriamazonica.org.br), em frente ao Teatro Amazonas. Lá, pode abrir a carteira: é tudo lindo e pagável. 

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Dia 1 - O encontro

O M. Monteiro cruzou o Encontro das Águas, principal atrativo turístico de Manaus, deixando para trás o Rio Negro e começando a jornada correnteza acima pelas águas cor de barro do Solimões...

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h12

Ansiosa pela primeiro mergulho em águas amazônicas, mergulhei na cama daquele que seria o meu quarto ao longo daquela semana.

Era meio-dia de sábado, horário e dia da semana habitualmente marcados para a partida do M. Monteiro do porto de Manaus para sete dias de navegação pelo Rio Solimões, em direção a Tabatinga, na tríplice fronteira do Brasil com a Colômbia e o Peru. Todos devem estar a bordo pontualmente, mas a saída quase sempre atrasa. O M. Monteiro é um barco regional, não um navio de cruzeiro, e seu funcionamento depende sobretudo da carga. Naquele dia, uma picape vermelha levou um tempo a mais para ser embarcada.

Meu grupo de turistas viajaria no cercadinho vip do barco; para nosso uso exclusivo havia um refeitório e uma sala com sofás e redes, tudo no convés superior, onde também ficam as cabines individuais. Elas são espaçosas e muito simples: além da cama de casal – aprovada no primeiro mergulho-teste –, têm ar condicionado, varanda, geladeirinha e banheiro. O chuveiro é frio e despeja água que vem direto do rio.

No convés principal vão os passageiros em redes. Cabem ali 300 pessoas. No inferior, ou passadiço, seguem carregamentos de milho de pipoca, arroz, açúcar, cerveja, melancias, fogões, geladeiras, esquadrias de janela, cimento. O acesso é livre, e cada visita é uma descoberta.

Partimos de fato às 13h40. Cerca de 40 minutos depois, o M. Monteiro cruzou o Encontro das Águas, principal atrativo turístico de Manaus, deixando para trás o Rio Negro e começando a jornada correnteza acima pelas águas cor de barro do Solimões. Uma cena que encanta turistas, mas não chegou a lotar as amuradas do convés principal: para boa parte dos passageiros, aquela era só mais uma viagem de Manaus, aonde vão visitar parentes, consultar médicos e resolver burocracias, até suas cidades de origem no extremo oeste do Brasil, região chamada de Alto Solimões.

A floresta marcada pela linha d’água da cheia do ano passado, palafitas ribeirinhas, gado, plantações de banana, a primeira chuva forte e um resto de sinal de celular, oscilante, mas ainda suficiente para postar fotos nas redes sociais, ocuparam as horas daquela primeira tarde. No finalzinho dela, as nuvens sumiram e deram lugar ao pôr do sol nas águas do Solimões. Pensando bem, o rio é tão largo que estranho seria se o sol tivesse achado algum canto seco para se pôr.

Horas mais tarde, de algum ponto da floresta, por detrás das árvores surgiu uma brilhante lua cheia que acompanhou o barco até alta madrugada.

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Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h11

Os passageiros que viajam nas redes, entre os quais mochileiros estrangeiros, tinham pela frente dois dias inteiros só de navegação. Já os turistas do projeto Amazônia, Estradas d’Água podiam esperar por algum agito, graças à possibilidade de escapulir do barco em pleno movimento e explorar os arredores a bordo de uma voadeira.

Ricardo Koellreutter, proprietário da agência paulistana Paradiso Turismo e criador daquele roteiro, havia programado uma espécie de caçada ao açaí. Antes das 8 horas, partimos na voadeira em direção à cidade de Codajás.

Maior produtora de açaí do Estado do Amazonas, Codajás tem sua economia muito dependente da fruta. A ela dedica um monumento, que tem a forma de um agricultor com um cacho de açaí nas mãos, e um festival anual, com shows e escolha de rainha, nos últimos dias de abril, quando é época de colheita. Colheita que ainda não tinha começado naquele domingo de fevereiro: não achamos um único exemplar da frutinha escura. Em compensação, era dia de feira livre na rua principal, e fomos apresentados à banana São Tomé, de casca bem vermelha e muito doce.

À tarde, depois de almoçar matrinxã assado no barco, nova saída na voadeira nos levou ao mercadinho do Chico do Açaí, em outro ponto da margem. São cerca de 90 pessoas na comunidade de agricultores que vivem de vender banana e açaí para comerciantes da cidade de Coari, 4 horas rio acima – é assim que as distâncias são contadas no Solimões.

As construções da comunidade são palafitas, à prova de cheia do rio, pelo menos dois metros acima do chão. Estão cercadas de açaizeiros, que estavam carregados de cachos do fruto, todos ainda bem verdes.

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Dia 3 - Os navegantes

Conheci Ari na área livre do convés superior, que a dinâmica do dia a dia do barco transforma em ponto de encontro, praticamente uma praça...

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h10

"Tenho 20 reais”, contou o argentino Ari Blanch, de 22 anos, que desde o começo de 2017 viaja pela América do Sul apenas com o dinheiro dos trabalhos que consegue pelo caminho. Antes de Manaus, estava em Búzios, no Estado do Rio; seu plano agora era passar pelo menos um mês na Colômbia. O esquema do M. Monteiro era perfeito para a dureza financeira dele: uma semana de transporte, hospedagem na rede e três refeições por dia, tudo por R$ 385. Ari era um dos oito mochileiros estrangeiros a bordo: havia ainda mais uma argentina, quatro franceses e duas alemãs.

Conheci Ari na área livre do convés superior, que a dinâmica do dia a dia do barco transforma em ponto de encontro, praticamente uma praça. Fica ali a lanchonete, que também faz papel de mercadinho. Ali eram celebrados cultos evangélicos todas as noites, ao fim dos quais os adolescentes dominavam o espaço, enquanto a lanchonete despejava música sertaneja, arrocha, cumbia e outros ritmos caribenhos. 

O fato de não haver passeio previsto deixou o terceiro dia especialmente interessante. Deu tempo de passear entre as redes trocando sorrisos com uns, papeando com outros. De acompanhar a recreação que a enfermeira do barco, Nery, de 35 anos, oferecia às crianças, com papel, lápis de cor e leituras de histórias. De conhecer Joelma, que viajava com a filha Ágata, de 2 anos, de volta a Santo Antônio de Içá, depois de visitar o marido que está trabalhando em Manaus.

Também deu tempo de descobrir que não se vende bebida alcoólica a bordo. Já tiveram problemas, não querem mais, explicou Augusto, arrendatário da lanchonete do barco, que vende sanduíches a R$ 5 e cigarros por unidade, R$ 0,50 cada. 

Augusto tem 52 anos e virou comerciante depois de uma vida inteira de trabalho em departamentos de recursos humanos em empresas do polo industrial de Manaus, o que lhe rendeu uma crise de estresse. Diz que ganha menos, mas está mais feliz. Lamentamos o fato de não podermos compartilhar uma cerveja para brindar à conversa. Ele oferece café de coador.

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Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h09

Não há como garantir horários precisos em uma viagem feita ao sabor dos humores de um rio em pleno período de cheia, cujo nível sobe um pouco por dia, e que tem como principal objetivo distribuir carga por cidades ribeirinhas que não contam com acessos aéreo ou terrestre. Primeiro porto oficial do M. Monteiro em seu trajeto rio acima, a cidade de Fonte Boa chegou no meio da madrugada. 

Os trabalhadores até fazem barulho ao carregar a tralha toda para fora da embarcação. Mas são 3 horas da manhã, a cama convida a mais algumas horas de preguiça antes do grande momento, prometido para o quarto dia: a hora de nadar em águas amazônicas. 

Assim, de Fonte Boa apenas ouvimos falar. O porto seguinte, Jutaí, é uma cidadezinha de menos de 18 mil habitantes cujo centro visitamos, caminhando, em uns 15 minutos. O que tínhamos para fazer ali de verdade era embarcar na voadeira e seguir em direção a um certo Rio Sapó, mais um dos milhares de afluentes do Solimões que nem são registrados nos mapas. 

Perto de uma das margens do Sapó, a voadeira encosta em um bar flutuante e chega, enfim, o aguardado consentimento: podem nadar. As águas são pretas como as do agora distante Rio Negro, e frias só ao primeiro contato. Estava feito. Eu tinha nadado na Amazônia pela primeira vez. 

Naquele mesmo dia, ainda a caminho de Jutaí, aceitei o convite da tripulação para ir de voadeira até a casa de um pescador. Amigo da família Monteiro há dez anos, Cristóvão mora com os parentes em uma comunidade onde até a escola é flutuante. Como todas as construções por ali, sua casa foi erguida sobre grossas toras de tronco de árvore, que funcionam como boias e fazem o imóvel subir e descer com as águas.

Enquanto pesava três mantas já limpas de pirarucu, com cerca de metro e meio cada, Cristóvão explicou que o excesso de água da atual temporada de chuvas estava prejudicando a pesca. Este ano, dizia, não chegaria nem perto dos 685 peixes capturados na temporada passada; até aquele momento, sua conta estava em 300 pirarucus pescados nas últimas semanas.

Os 55 quilos de peixe custaram R$ 330 – e foram servidos para o barco inteiro, em pedaços fritos e empanados, no jantar do dia seguinte.

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Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h08

À medida que nos aproximamos do limite oeste do mapa do Brasil, as cidades vão se apresentando um pouco mais estruturadas. Tonantins tem 18 mil moradores e dois centrinhos. O histórico fica na vila de São Francisco de Tonantins, comunidade a 15 minutos – de moto, meio de transporte terrestre mais popular por ali – do centro mais novo, junto do porto. 

Em São Francisco de Tonantins visitamos uma produção de castanha brasileira. É a castanha-do-pará, mas amazonenses ficam bravos se você as chama pelo nome do Estado vizinho. Além de comer castanhas, nadamos por ali, nas águas pretas do igarapé. 

Neste trecho a cheia parecia ter avançado mais. Navegamos entre árvores das quais só tinha sobrado a copa acima da linha d’água. Um barco emborcado, parcialmente submerso, teria de esperar as águas baixarem, a partir de maio, talvez junho, para sair dali. Por falar em barcos, há alguns pequenos estaleiros nestas margens.

Santo Antonio de Içá é um município em forma de cone (ou de gramofone) que tem uma beirada no Solimões e a maior parte do território em torno do Rio Putumayo, e só vai acabar lá na fronteira colombiana. Tem 23 mil habitantes, o terminal portuário mais ajeitado até ali, coberto, e uma pequena unidade da maior universidade privada do País. 

Pode parecer que, para além do mirante no alto de uma falésia, não há o que ver na cidade. O olhar atento, no entanto, vai perceber que a população tem características específicas. O português vai perdendo a importância como idioma do cotidiano. Em Santo Antônio de Içá há muita gente de origem peruana e, principalmente, ticuna, etnia nativa do Alto Solimões e composta, hoje, por 40 mil a 45 mil pessoas. 

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Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h07

Turista quando não está em museu, parque, praia, monumento ou restaurante, certamente está interrompendo o curso natural da vida cotidiana de alguém. Foi a nossa voadeira encostar junto de uma vila ticuna para a reunião de mais de 30 pessoas que ocorria em um barracão no centro da comunidade dispersar. 

Era nosso último dia de navegação, e ele estava inundado da expectativa pela visita à comunidade indígena. Não éramos esperados, mas fomos recebidos com uma confortável cordialidade. Já que a assembleia, cujo tema era a volta às aulas na escola da vila, havia sido irremediavelmente interrompida, o cacique se ocupou de nós por alguns instantes. Depois, pediu ao agente comunitário de saúde, que se apresenta como Washington porque sabe da dificuldade que temos em pronunciar seu nome de batismo, para nos mostrar a vila. 

Algumas mulheres com seus bebês e várias crianças nos acompanharam curiosas. Não falam português, mas reconhecem a máquina fotográfica e fizeram sinais de assentimento para os retratos. Por algum tempo brinquei de fotografar um grupo de meninos e mostrar-lhes o resultado. Escondiam o rosto ao se reconhecerem no visor da câmera. 

Washington abre a escola, uma sala única com carteiras e lousa onde estudam 30 crianças divididas em dois turnos. A comunidade tem 12 casas e nelas vivem 84 pessoas. Plantam banana e mandioca, produzem farinha numa casa de farinha coletiva e vendem na cidade de São Paulo de Olivença, que é uma metrópole para o padrão do Alto Solimões: tem 36 mil habitantes. 

No centro da vila estava sendo construído um salão. Segundo Washington, a comunidade está há tempos precisando de um bom espaço para realizar a festa de moça nova, uma das principais celebrações da etnia ticuna. É um ritual de debutantes feito para as pré-adolescentes de 12 anos. No passado, incluía arrancar à unha todos os cabelos da cabeça da moça. Hoje, as meninas ainda ficam carecas, mas com a ajuda de tesoura e lâmina.

Deu tempo de nadar no afluente antes de pegarmos a voadeira para voltar a São Paulo de Olivença. As águas pretas estavam bem altas e com uma suave correnteza. Procurei estabilidade agarrando galhos da copa de uma árvore, que estava com boa parte do seu tronco submerso. 

Na volta, a surpresa que consolidou aquele como o melhor dia da viagem. Um cardume de botos rosa começou a nadar ao nosso redor. O primeiro deles surgiu diante da lente enquanto eu tentava com a câmera enquadrar pela milionésima vez naquela semana a paisagem de céu, árvores e água. Vi o animal, gritei para dar o alarme sem saber se podia gritar. Calamos o motor barulhento da voadeira, e os animais bailaram ao nosso redor por bons 10 minutos. 

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Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

02 Maio 2017 | 05h07

Faltava ainda um item para completar o check-list turístico da Amazônia: a vitória-régia. Mesmo em um roteiro nada convencional e pautado pelas surpresas, seria frustrante não ver a planta. Mas sim, teve vitória-régia. Duas vezes – mas sem a flor desabrochada.

Na manhã do sétimo dia, a quase 1.600 quilômetros de Manaus, soou o último apito do M. Monteiro. Chegávamos à cidade brasileira de Tabatinga, na tríplice fronteira com a Colômbia e o Peru. 

Com 60 mil habitantes, Tabatinga tem bases das três forças armadas para o controle de fronteiras. Conta com câmpus da Universidade Estadual do Amazonas. Tem o aeroporto onde, no dia seguinte, embarcaríamos em um voo da Azul de volta para Manaus. E só. Por isso, seguimos de táxi direto para a cidade vizinha, Letícia, já do lado colombiano da fronteira. 

Letícia trouxe para o nosso roteiro a primeira infraestrutura turística mais profissional. Tem agências de receptivo, excursões, parques naturais como o Mundo Amazônico (mundoamazonico.com), pousadas.

Para o meu grupo estava reservado um passeio à Isla de los Micos. A lancha rápida parte do malecón (o calçadão) de Letícia e viaja por 50 minutos rio acima – da fronteira para lá, o Solimões volta a se chamar Amazonas. Na ilha vivem cerca de 1.500 macaquinhos, e os turistas são convidados a caminhar por uma trilha e alimentá-los com bananas. Alguns visitantes se divertem ao serem escalados por dezenas de micos em busca da fruta; outros ficam incomodados. 

A hora de ver a vitória-régia chegaria na parada seguinte do passeio. A localidade de Puerto Alegria fica em território peruano; assim, acrescentou o terceiro país à nossa viagem. Na vila fica o Albergue Irapay, que tem restaurante, quartos e está construído em uma área alagável com alguns lagos de vitórias-régias. Dá pena quando os moradores trazem filhotes de animais criados em cativeiro, jacaré, preguiça, porco-espinho e até uma anaconda (ou sucuri) para serem vistos, tocados e fotografados pelos turistas em troca de gorjetas. O passeio completo custa R$ 200 por pessoa.

Em Letícia, ainda deu tempo de visitar o bom Museu Etnográfico, com acervo sobre povos amazônicos nativos. E de reencontrar os mochileiros estrangeiros do M. Monteiro para assistir à revoada de andorinhas que acontece todo fim de tarde diante da Igreja Nossa Senhora da Paz, na Praça Santander. A praça tem seu próprio lago de vitórias-régias. 

Em tempo: reencontrei também Ari, o argentino do barco que só tinha 20 reais. Ele estava contente: tinha conseguido trabalho em um hostel.

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Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2017 | 05h05

Hotéis de selva: Eles têm fama de caríssimos, mas hoje há opções interessantes em várias faixas de preço. A maioria está no Rio Negro. O charmoso Anavilhanas Jungle Lodge (anavilhanaslodge.com), no gigantesco arquipélago fluvial de mesmo nome, a 180 km de Manaus pela estrada, começa em R$ 2.800 por pessoa, 2 noites. A 60 km de Manaus, o Manati Lodge (manatilodge.com) tem perfil simples de casa de campo e começa em R$ 1.183 por pessoa, 2 noites. Seis anos depois da primeira visita, nosso repórter voltou ao Tariri (taririamazonlodge.com.br; R$ 1.200 por pessoa, 2 noites). Leia relato: estadao.com.br/e/tariri.

Cruzeiro: Com roteiros de 3 noites (sexta a segunda, pelo Rio Solimões; R$ 4.600, duas pessoas), 4 noites (segunda a sexta, pelo Rio Negro; R$ 6.054) ou 7 noites (circuito completo, os dois rios, desde R$ 10 mil) sempre com partida e retorno a Manaus, o navio Iberostar Grand Amazon recebe 150 passageiros e oferece uma Amazônia de bolso, rápida e sem imprevistos, com refeições e passeios incluídos: lancha, caminhada, focagem de jacarés. Site: bit.ly/navioamazonia.

Mais destinos: Especializada em Amazônia, a operadora Turismo Consciente divide seus roteiros em quatro grupos: Belém e Ilha do Marajó, Alter do Chão e Tapajós, Rios do Amazonas e Acre. A próxima saída, de 24 a 30 de junho, é para Belém e Ilha de Cotijuba, e custa R$ 3.990 por pessoa. Site: turismoconsciente.com.br.

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