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Amor à distância também acaba

Realidade: sem boleto não tem 'até que a morte os separe'

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2019 | 04h05

Sexo virtual cansa. Fazer planos cansa. Mensagem de WhatsApp cansa. Likes no Instagram cansam. Memes que só a gente entende perdem a graça. Promessas cansam. Amor à distância também acaba. 

Duas semanas no fim do ano não são o suficiente. Três horas de Skype machucam os olhos. Despedidas em aeroportos matam a gente. E-mails que não terminam são chatos – e ninguém lê. Não existem mais postais. Amor à distância também acaba.

Coisas que não bastam: intimidade de fim de semana. Travesseiros sem cheiro. Escovas de dentes sem a boca dela. Banheiro sempre vazio. Brigas pelo celular. Projetos fundamentados em quase nada. Amor à distância também acaba.

Ir ao cinema sem você. Escolher o filme sem te ouvir. Jantar sem te dar um pedaço. Beber sem o seu trago. Atravessar a rua sem pegar no seu braço. Amor à distância também acaba.

Não existe vácuo. Coração vazio é Airbnb. Sem você aqui, sempre tem um quarto extra. Não me odeie assim tão depressa. Amor à distância também acaba.

É espelho que não reflete. É Polaroid que não revela. É cigarro sem nicotina. É porre sem ressaca. Ações sem consequência não fazem o menor sentido. Amor à distância também acaba. 

É um amor sem osso. Sem sustança. É uma amor de férias. Um amor turístico. Um amor filé. Falta carne de pescoço. Falta tutano. Falta farinha no angu do amor. Falta o azedo da rotina. Amor à distância também acaba.

O futuro nunca chega. A mudança nunca vem. Quem espera na janela, perde o trem. Tem tanta gente subindo e descendo. Tanto passageiro. Nesse voo, você também não veio. Amor à distância também acaba.

Emojis recheados de promessas. Insinuações. Joguinhos. Sacanagens. Nudes protocolares. Ao estender a mão para o vazio de uma tela plana não te sinto. Minto. Coração terraplanista. Não temos esquinas para se encontrar. Amor à distância também acaba. 

Não tem essa de ser pra sempre. Sem boleto não tem “até que a morte os separe”. Um mau dia forma caráter. Amor não é a Disney. Nem um resort na Bahia. Amor é dedo na casca da ferida. Cascata. Amor à distância também acaba.

Se ainda tivesse orelhão e aquele pânico de fichas acabando; se ainda tivesse atendente da Embratel pra me consolar; se ainda tivesse o “tum, tum” de telefone fora do gancho. Não tem nada disso. Amor à distância também acaba.

Fotos com filtro não funcionam mais. Mensagem pregadas em ímãs de geladeira já não fazem mais sentido. Meu coração não cabe em um Sedex. Nossa vida não cabe em um quarto de hotel. Amor à distância também acaba.

Sinais de fumaça não atravessam continentes. Por mais que eu chacoalhe minhas miçangas você não é mais de humanas. Amor à distância também acaba. 

A memória desgastou. A memória enferrujou. Meu cachorro já não te reconhece mais. O seu cachorro já não me reconhece mais. Meu porteiro esqueceu o seu nome. Sua irmã me chamou de Alberto. Amor à distância também acaba.

Não sou a mesma pessoa que você deixou. Não sou mais o sujeito que disse que iria esperar. Não sou mais aquele que acreditava no tempo como um remédio milagroso. Não sou mais aquele que se vestia de paciência para te impressionar. Amor à distância também acaba. 

Sem tête-à-tête é só tititi. Sem eu em você ou você em mim é só ilusão. Sem carne não tem alma. Sem lama não tem mel. Sem bafo, remela e pum não sobra nada de concreto. Amor à distância também acaba.

Tesão sem convivência é moleza. É tipo eu me apaixonar pela Scarlett Johansson. Ela ainda não sabe, mas temos um relacionamento de longa data. Brincadeira. Mas sem dias repetidos não vale. Amor à distância também acaba.

Amor de verdade tem mais de jornalismo ou documentário do que de ficção. Amor é mãos à obra. E esse tipo de obra deixa calos na mão. Amor à distância também acaba.

É preciso pão com manteiga. É precisa ver esse mesmo pão caindo com a manteiga virada para o chão. É preciso insistir no café da manhã mesmo sabendo que o pão vai cair sempre do mesmo jeito. Sem isso, bom, sem isso é só um café da manhã em hotel. É bom, mas não é para a vida inteira. Amor à distância também acaba. 

“Me leva na sua mala” era só uma piada. Nem tente me fatiar. Vai pagar peso extra – e a Polícia Federal vai te barrar. Então, esqueça todas as suas expectativas e vamos combinar que amor à distância também acaba.

Se de perto ninguém é normal, de longe ninguém é real. Adeus. Seja feliz. Um dia a gente se vê...

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