Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

Andorra de alto a baixo

Incrustado entre a Espanha e a França, o micropaís oferece esqui a baixo custo e muito charme em meio aos Pireneus

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

24 Fevereiro 2015 | 00h16

O jipão encarou com indiferença o fim do asfalto e, como se não fosse nada, embicou para o alto, as quatro rodas tracionadas mais que acostumadas ao trajeto. Em segundos surgia uma curva em forma de cotovelo, apenas a primeira da ascensão em zigue-zague por um paredão íngreme riscado pela estradinha de terra e pedra. Do interior sacolejante do carro, a escuridão deixava entrever o precipício ora à esquerda, ora à direita, num percurso algo assustador. Tinha necessidade daquilo tudo só para visitar uma vinícola, ainda por cima à noite? 

O caso é que a pergunta não faz lá muito sentido em Andorra, um minipaís entre a França e a Espanha, incrustado nos paredões dos Pireneus. Espremido, tanto quanto espremida vive a gente dali, disputando com os rios o estreito espaço nos fundos dos vales e, à falta de opção no plano, escalando montanhas. Há bairros inteiros equilibrados na vertical.

Não que falte espaço no território de 468 quilômetros quadrados habitados por 85.458 almas, a população de um Itaim Bibi esparramada pelo território de uma Porto Alegre inteira. Mas sobra inclinação, e terra é algo que não se desperdiça, nem na horizontal, nem na vertical; de modo que a Borda Sabaté (bordasabate.com) foi instalar seus vinhedos orgânicos, sua fabriqueta de 3 mil a 5 mil garrafas ao ano de vinhos biodinâmicos e seu restaurante a uma altitude de 1.100 a 1.200 metros. 

A arrepiante viagem em 4x4 é a parte “com emoção” da visita turística, que continua pela planta industrial com meia dúzia de tonéis grandes, a sala de barris e a de degustação, e chega ao restaurante Le Domaine, caso se tenha optado pelo pacote com refeição (sem ela, desde US$ 20 por pessoa o tour, com reserva no 00-376-814-900). Naquela noite, foi servida uma parrilla de linguiça, ave e carne de coelho. Os anfitriões pelo jeito julgaram que o cardápio harmonizava melhor com o tempranillo Edulis 2011, da região espanhola de La Rioja, do que com o branco da casa, o riesling Escol, e o tinto, o corte de cornalin, merlot e syrah Torb, ambos sob assinatura do bem cotado enólogo francês Alain Graillot e vendidos a A 40 a garrafa. 

Lá do alto dava para ver as luzes da cidade no fundão e das casas empoleiradas na montanha da frente, como se estivéssemos no camarote, sensação que se repete por toda Andorra: em cima ou embaixo, a vista é sempre a melhor.

O que não necessariamente se converte, vale avisar, em fotos deslumbrantes. A luz do dia cai cedo, bloqueada pelos paredões onipresentes, o que deixa tudo o que não está coberto de neve com um tom marrom-acinzentado pálido. A impressão é intensificada pelas pedras das quais são feitas as casas do centrinho histórico da capital, Andorra la Vella, e dos vilarejos do interior.

Rasgados por riachos e remendados por pontezinhas de contos de fadas, os vilarejos são ponto de embarque nos teleféricos que levam às pistas de esqui no alto da montanha – e esquiar é o principal motivo pelo qual se visita Andorra.

Passa catalão, passa francês. De tão compacto, Andorra tem vocação para lugar de passagem. Dos 8 milhões de turistas que recebe a cada ano, apenas 2,2 milhões pernoitam, e 80% são espanhóis e franceses. Com a prima-irmã Barcelona a 200 quilômetros, o país tem em comum o idioma e a ancestralidade catalã, e toma emprestado o aeroporto internacional, o mais próximo para quem vai de fora do continente europeu, caso dos brasileiros. Toulouse é a grande cidade francesa por perto: está 185 quilômetros ao norte. 

Desde que a União Europeia em crise começou a pressionar Andorra para flexibilizar suas leis de sigilo bancário e deixar de ser um paraíso fiscal, há cerca de meia década, o status de free shop também entrou em declínio. A ausência de impostos nacionais em perfumes, cigarros e bebidas já não representa tanta economia – paga-se nas lojas da capital o mesmo que nos aeroportos de Barcelona e Paris. São poucas as grifes, abrigadas em multimarcas de segunda linha. 

Já quem busca roupa e equipamento para esportes de inverno e ao ar livre está feito. A variedade faz brilhar os olhos. Afinal, rodeados de tanta montanha e com 90% de seu território coberto de florestas, correr, pedalar, esquiar e escalar é algo que os andorranos sabem fazer. 

Diversão na neve, o programa que importa

Empreendemos mais uma subida em zigue-zague, dessa vez por um asfalto irretocável e em plena luz do dia, para um contato com o principal programa turístico em Andorra: esqui. Era dezembro e a neve apenas começara a cair – a abertura da temporada estava prevista para dali a uma semana. 

A paisagem alternava o verde das coníferas e o branco das primeiras nevascas a caminho de Grau Roig, um dos seis setores de Grandvalira, maior resort de neve do país, no leste. “As rodovias de Andorra formam um ípsilon”, orientou uma guia. “É só pegar a perna da direita.” 

Sem camada de neve que permitisse esquiar, só foi possível caminhar com raquetes nos pés para dar uma olhada geral. A estrutura para recepção de visitantes em Grau Roig fica diante de uma paisagem especialmente bonita: a elevação triangular à frente lembra Matterhorn, a “montanha Toblerone” da Suíça. 

Grandvalira tem 210 quilômetros de pistas – 21 iniciantes, 42 intermediárias, 30 avançadas e 25 experts. Há 13 quilômetros de percursos fora de pista, três parques para manobras free style, áreas temáticas para crianças e 40 pontos de alimentação. 

Quanto às gôndolas, partem sempre de graciosos povoados ao longo da rodovia – e, neles, há hotéis, restaurantes e lojas de artigos esportivos. Em um país tão pequeno, onde nenhum percurso leva mais de meia hora, também é boa ideia trocar a hospedagem na capital por um desses vilarejos, com considerável upgrade em charme. 

Ao norte. A “perna da esquerda” do ípsilon leva a Vallnord, o outro resort de esqui de Andorra, formado por três complexos dotados de pelo menos uma dúzia de outras atividades: heliski, motos, trenós, bikes de neve... 

Os setores Arinsal e Pal têm, juntos, 63 quilômetros de pistas (7 iniciantes, 15 intermediárias, 16 avançadas e 4 experts), dois parques free style e 14 opções de alimentação. Arcalís tem 30 quilômetros de pistas (9 iniciantes, 6 intermediárias, 10 experientes e 2 experts) e é mais selvagem, com florestas. As opções de alimentação são oito – em uma delas, o restaurante La Coma, jantei um delicioso fondue de queijo.

Por que esquiar em Andorra?

1. Sem vertigem

As pistas têm altitude máxima de 2.640 metros, o que torna a adaptação mais suave e exige menos esforço. Um achado para quem sente mal-estar em alturas muito elevadas.

2. Baixo custo 

O passe diário de Grandvalira sai por 45 euros e de Vallnord, por 36 euros. Ambas têm desconto para compra online. A temporada vai até 12 de abril. Sites: grandvalira.com e vallnord.com. 

3. Roupa e equipamento

 Atenção: não existe o hábito de alugar roupas de neve em Andorra. Boas lojas como a Viladomat, com várias unidades, cobram desde A 50 por peça. Esquis e bastões podem ser alugados.

Piscina termal em forma de nave ou roda-gigante 

Em uma manhã de frio moderado com temperaturas de um dígito, comecei o dia mais urbano no país com mergulho em um caldeirão quentinho em plena capital. Águas termais brotam ali a uma média de 70 graus Celsius e, resfriadas até 28 a 34 graus, abastecem as piscinas do complexo Caldea, a “praia” de Andorra. 

Esse spa gigante é o maior complexo termal da Europa, diz seu material promocional. Está abrigado em uma arquitetura espelhada e pontiaguda, uma obra difícil de definir que destoa da montanha logo ali e muito compreensivelmente desperta amor e ódio nos moradores. São, na verdade, dois grandes clubes lá dentro, especialmente convenientes para quem passou o dia esquiando e quer relaxar. 

Por uma diária individual de 65 euros, até 100 pessoas por vez desfrutam do clima sossegado do Inúu (inuu.com), que não aceita crianças. Nunca há gente nem barulho demais nas salas de massagens (tratamentos desde 47 euros), academia, restaurante saudável, piscinas cobertas e, a melhor parte, piscinas ao ar livre, com vista e frio no rosto. 

No lado oposto do prédio, o familiar Caldea (caldea.com) é infinitamente mais animado, como permite supor sua lotação máxima de 400 pessoas. Tudo o que é clean ficou lá no Inúu: aqui, a extravagância arquitetônica se estende ao complexo de piscinas cobertas, com jacuzzis suspensas em formato de nave da Xuxa, show noturno de luzes que simulam um balé de planetas e gente brincando como se estivessem em um parque aquático (sem tobogãs). 

No Caldea, a diária custa 37 euros por pessoa, há combo familiar de 104 eurospor um dia inteiro para dois adultos e duas crianças, as massagens começam em 30 euros e o almoço sai a 13,50 euros, com entrada, prato principal e sobremesa. 

No quarteirão ao lado do spa está a outra grande atração da cidade. A roda-gigante Avistand tem 70 metros de altura, custa 7 euros por 10 minutos e é de lá que se tem melhor noção do formato de panela do pequeno vale onde estão Andorra la Vella, parte mais antiga e capital de fato, e Escaldes-Engordany, a cidade ao lado, onde ficam Caldea e a roda, o que não tem nenhuma importância, já que é impossível perceber qualquer limite municipal.

A Avenida Meritxell, nome da catalã padroeira local, vai de uma à outra e conduz o eixo viário. No ponto em que cruza o Rio Valira, o principal, há uma pequena ponte estaiada e a escultura La Noblesse du Temps, um dos relógios derretidos de Salvador Dalí em pessoa, feita em 1977 e doada por um colecionador. 

O comércio segue a avenida. Perfumarias, lojas de esportes e tabacarias compõem o cardápio, entremeadas por lojas de roupas e sapatos que não provocam grande comoção. A boa exceção está no comecinho da Meritxell, no número 11, a multimarcas Pyrénées (pyrenees.ad), que segue a linha Galerias Lafayette e Macy’s, ou seja, grifes diversas em ilhas espalhadas por três andares. 

Esse trecho já é o centrinho histórico de Andorra la Vella. Uma dúzia de bonitas construções de pedra e um parque suspenso lindo e agradável, que você pode chamar de encerramento perfeito para a caminhada urbana: mobiliário colorido, playground, café e potente Wi-Fi público. 

União europeia no prato

Era uma mesa multinacional aquela. No restaurante Molí dels Fanals, a pessoa à minha esquerda comia cordeiro na brasa, enquanto a da direita pedira magret de pato. Meu prato tinha bacalhau com mel, pinole e cebola confitada; lá na ponta, alguém era apresentado ao trinxat, um bolo de batatas com porco. Uma porção inesquecível de alcachofras em prancha de ferro ocupava o centro da mesa. E tudo isso depois de um farto couvert geral com jamón ibérico e pan tumaca, o pão com tomate tradicional das entradinhas catalãs. 

Este tipo de abundância com sotaque misto entre França, Espanha e a própria cozinha de montanha local define o jeito de comer em Andorra. Por lá, chamam bordas aos restaurantes tradicionais, que ficam em antigos celeiros ou estábulos, onde se cozinha sem frescura e com fartura. O Molí dels Fanals é uma borda no povoado de Sispony, um desses que se distribuem no plano vertical de uma montanha, a 10 minutos de Andorra la Vella. A refeição para dois, sem bebidas, custa cerca de 100 euros; molidelsfanals.com.

Menu-degustação. Com conceito diverso – sai a comida caseira, entram as minúcias do menu-degustação assinado – o Vodka Bar ofereceu outra experiência gastronômica memorável. O chalé de pedras e madeira para até 30 pessoas fica no resort de neve Grandvalira, no setor Grau Roig (leia mais na página 10). A ele se chega de trenó, esqui ou raquetes de caminhada, acessórios que são trocados por pantufas coloridas oferecidas na entrada. Funciona das 13 às 17 horas para almoço e, no jantar, com reserva. 

Depois de alguns clichês do estilo – ingredientes frescos, locais, orgânicos, menu sazonal – e de ligeira explicação sobre uma tal “comida ecológica”, o chef Ismael Prados, que já apresentou programa na TV espanhola, mostrou que não estava para brincadeiras na sequência de entradas. Veio ostra com vodca; salmão defumado; e foie gras com pedacinhos de pato e marmelo assado, que continuei beliscando com pão da casa torradinho até depois de me tirarem a sobremesa da frente. 

Entre uns e outros pratos, o cozido de feijões brancos com pedaços de bacalhau e mollejas foi regado com manteiga líquida; a carne de perna de vitela veio desmanchando; a sequência de queijos teve três variedades locais, feitas de leites de cabra e ovelha; e a sobremesa apresentou mais um ingrediente nativo, o Nectum, um xarope de pinhas despejado sobre o doce de peras – que, aliás, é vendido na cidade e é boa opção de presente. 

A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DE ANDORRA TURISME

Informações básicas

Como chegar desde Barcelona: há 16 frequências diárias de ônibus diretos entre o aeroporto de Barcelona e Andorra la Vella, das 6h15 às 23h45. Custa 29,50 euros no site andorradirectbus.es. A viagem leva cerca de 3h30

 Como chegar desde Toulouse: para quem está viajando pela França, é um bom ponto de partida para uma visita a Andorra. Há ônibus com saídas do aeroporto Blagnac ou da estação de trem Matabiau, num total de quatro frequências diárias. Custa 36 euros por trecho no site andorrabybus.com. O trajeto demora 3 horas

 Site: visitandorra.com

Curiosidades

1.Os habitantes

Faz pouquíssimo tempo que os andorranos da gema (31 mil, em 2014) superaram os espanhóis no total da população (27 mil). Entre os 85 mil habitantes, há ainda 14 mil portugueses, 5 mil franceses e outros. A expectativa de vida, 82,65 anos, é a terceira mais alta da Europa, atrás de outros micropaíses, Mônaco (89,57 anos) e San Marino (83,18 anos).

2.O idioma 

Andorra é o único país no planeta que tem o catalão como idioma oficial. Fala-se muito espanhol, algum português e, nos serviços turísticos, também inglês.

3.O governo 

Independente desde o século 13, a democracia parlamentarista de Andorra é um coprincipado, o que significa que tem como chefes de Estado dois príncipes: o presidente da França e o bispo espanhol de Urgell. Os 28 parlamentares são eleitos por voto direto.

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