Animação e fé em desfiles com gosto de Andaluzia

Em vez de recolhimento e silêncio, batidas de tambor, aroma de incenso e palmas emocionadas da multidão, que disputa cada centímetro de chão em busca do melhor ângulo para ver as procissões. Que também podem ser chamadas, sem chance de erro ou exagero, de desfiles. Porque, apesar de ser festa santa, a Páscoa em Málaga lembra mesmo um grande carnaval.

LIGIA AGUILHAR / MÁLAGA, O Estado de S.Paulo

27 Março 2012 | 07h47

Nesta pequena e ensolarada cidade da Andaluzia, pouco conhecida dos brasileiros (em geral, preferimos Granada, Sevilha e Córdoba), ocorrem algumas das maiores e mais importantes procissões da Semana Santa na Espanha. Milhares de devotos e turistas se aglomeram nas ruas para ver a passagem de históricas estátuas de Cristo e da Virgem Maria - muitas delas confeccionadas nos séculos 15 e 16.

Confinadas durante todo o ano dentro das igrejas locais, as imagens só são vistas publicamente nessa época. Momento especial para os católicos, que mantêm a tradição das procissões há mais de 500 anos.

Noite adentro. Com caráter folclórico e festivo, as celebrações ocorrem durante toda a semana, do domingo de Ramos ao de Páscoa. Começam todos os dias no início da tarde, após a siesta, hábito tão andaluz quanto as próprias procissões. E só terminam na madrugada seguinte.

E haja pernas e animação. Mas é possível garantir bons ângulos para ver cada detalhe dos cortejos e ainda descansar um pouco. Como alternativa, moradores e visitantes compram cadeiras nas arquibancadas espalhadas pelo centro de Málaga ou reservam mesa em um dos restaurantes das vias por onde passam os desfiles. É nesse momento que os espanhóis abandonam o costume de salir de tapas (ir de bar em bar) em troca de cadeira cativa, conforto, comida e bebida.

Mas se a preferência for mesmo circular à vontade, não é difícil encontrar as procissões. A batida dos tambores, ouvida por vários dias, serve como pista. A multidão que se aglomera como se estivesse atrás de um trio elétrico também indica a proximidade de um cortejo.

Penitência. As confrarias, que são como escolas de samba com outro foco, são as unidades fundamentais da festa e da mobilização surpreendente que envolve Málaga no período. Cada uma delas desfila por um trajeto predeterminado com uma imagem de Cristo, outra da Virgem Maria.

Colocadas em imensos tronos, as estátuas são carregadas nos ombros pelos membros de cada confraria. Em alguns casos, quase 300 homens assumem a tarefa. Um gesto de devoção e também uma forma de penitência, já que as procissões podem durar mais de sete horas - e o peso de cada trono chega a 5 toneladas. Uma almofada no ombro é o único alívio para a dor.

O que mais chama a atenção do turista é a vestimenta dos nazarenos, como são chamados os participantes dos desfiles, composta por túnicas e capuzes coloridos que deixam apenas os olhos descobertos. A função da roupa é preservar o anonimato dos penitentes no seu momento de sacrifício - que pode ser andar descalço ao longo do trajeto ou com grãos dentro do sapato. São eles também que carregam as velas compridas que exalam um inesquecível aroma floral por onde passam. Cada confraria tem túnica e capuz com cor própria - os trajes costumam passar de geração em geração.

Atrás dos nazarenos, crianças recolhem cada pingo de cera que escorre das velas. A brincadeira entre os pequenos é disputar com os amigos quem consegue formar a maior bola de cera ao fim da Semana Santa. Alguns grupos contam ainda com a participação de militares, músicos e das pagadoras de promessa, mulheres que desfilam logo atrás dos tronos usando longos vestidos pretos.

As confrarias não têm vínculo direto com as igrejas - embora seja nelas que as imagens permaneçam durante todo o ano - e costumam promover eventos beneficentes para arrecadar recursos. O mais famoso integrante de uma organização do tipo é o ator Antonio Banderas. Nascido em Málaga, ele participa todos os anos do desfile da confraria Esperanza.

Para garantir que sua fama não atrapalhe o cortejo, o ator fica posicionado embaixo de um dos tronos que ajuda a carregar. Mesmo assim, tive a chance de encontrá-lo assistindo a uma das procissões no meio do público - devidamente amparado por seus seguranças.

Outros atrativos. As heranças dos árabes que dominaram Málaga até o século 15 estão presentes na música, nos costumes e na arquitetura. A fortaleza mourisca de Alcazaba e as ruínas do Castelo de Gibralfaro, erguido no século 8 e reconstruído entre os séculos 14 e 15, são os principais atrativos. É do alto dessas construções históricas que a cidade se descortina, com uma bela vista da Plaza de Toros e do Mar Mediterrâneo.

A cidade conta ainda com 160 quilômetros de litoral que ostentam a invejável reputação de receber 300 dias de sol por ano. E serve como um belo ponto de chegada ou partida para quem pretende explorar de carro as belezas de outros cantos da Andaluzia.

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