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Ano passado, a essa hora: cadê a temporada de esqui?

Se não fosse a pandemia, os resorts de neve no Chile e na Argentina estariam começando agora a temporada de inverno

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2020 | 06h00

Ano passado, a essa hora, a temporada de esqui na América do Sul tinha acabado de começar. 

Eu adquiri o que chamo de “síndrome do ano passado, a essa hora” quando nasceu meu filho. Ali a vida mudou tanto, mas tanto, que se tornou um hábito pensar nas coisas que eu estava fazendo e vivendo no momento equivalente do ano anterior, dos anos anteriores, ainda sem bebê. Assim: no primeiro verão como mãe, trancada em casa e mergulhada nos cuidados com um recém-nascido, me via lembrando de happy hours e viagens com amigos do “verão passado, a essa hora”.

Tradicionalmente, é na última semana de junho que os resorts de neve argentinos e chilenos iniciam suas temporadas. Falo aqui do sexteto fantástico: Valle Nevado, Portillo e Chillán, no Chile, e Bariloche, Villa La Angostura e Las Leñas, na Argentina. O Cerro Castor, em Ushuaia, tem outro calendário, por estar muito mais ao sul, portanto com um período mais longo de neve. 

Minha relação de certa indiferença à neve se transformou completamente dois anos atrás. Eu já tinha visitado estações de esqui nos Estados Unidos (Heavenly e Mt. Rose, no Lago Tahoe), na França (Megève e Chamonix) e em Andorra (Vallnord e Grandvalira), sempre fazendo aulas ultrabásicas, nunca indo além da pistinha das escolinhas, achando tudo bonito, mas apenas medianamente legal, o equipamento pesado e trabalhoso, e frio demais para o meu gosto. Mas, na primeira semana de julho de 2018, quando fui pela primeira vez ao Valle Nevado, tudo mudou. 

É preciso que se diga que o trecho aéreo do Brasil até Santiago está entre os mais bonitos do mundo. Na última hora de voo, o avião faz uma travessia espetacular, majestosa, absolutamente impactante sobre a Cordilheira dos Andes, antes de descer rente ao paredão de montanhas e pousar no aeroporto da capital chilena. Dali, depois de 80 quilômetros e 2.400 metros de altitude, chega-se ao Valle Nevado, resort acomodado entre rochas e neve, bem lá no meio e no alto dessa mesma cordilheira. 

Para mim, foi ali que bateu. A beleza quase irreal da montanha foi mais forte que o frio extremo em todos os momentos. Assim que pisei no meu quarto no hotel Puerta del Sol, com vista para as pistas. Lidando com um severo mal de altitude no primeiro dia. Saracoteando pelas encostas andinas de teleférico. No fim de tarde na piscina aquecida, assistindo ao pôr do sol multicolorido. E, principalmente, durante as aulas nas quais eu me empolguei para aprender a esquiar de verdade. 

Pela primeira vez, fui além da pista da escolinha. Fui com frio na barriga, às vezes me jogando na neve de propósito quando parecia que não ia conseguir frear. Eventualmente calculando mal e caindo sentada no chão na saída dos teleféricos. Mas entendendo finalmente o que todo mundo via de tão legal em deslizar sobre o que até então, para mim, só parecia um chão ensaboado.

Deu tão certo que, depois do Valle Nevado, estive nas estações de Deer Valley e Park City, nos Estados Unidos, e cheguei a esquiar em pistas de 7 quilômetros de extensão. Entrei de vez nessa festa. 

É justamente a festa, hoje, o maior problema dos resorts de inverno. Esqui e snowboard são esportes que a gente faz ao ar livre e com o rosto naturalmente coberto por um lenço, por causa do frio. Não serei maluca de dizer que é uma atividade imune à covid-19, mas certamente o problema principal está em todo o resto: restaurantes, bares de hotel, happy hours depois do fechamento das pistas, baladinhas como aquela em que dancei forró com um semiconhecido. São espaços fechados onde a aglomeração é a regra.

Nesta segunda semana de julho, o sexteto fantástico segue sem previsão de reabertura. Cerro Catedral, em Bariloche, teve inclusive um empregado infectado pelo novo coronavírus duas semanas atrás. 

Agora que entendi qual é a graça, sinto saudade de esquiar. Mas essa é uma possibilidade que parece bem distante este ano, ao menos na América do Sul. Acho que está na hora de inventar uma síndrome nova, a do “ano que vem, a essa hora”.

Covid-19 na América do Sul

O continente inteiro está com as fronteiras fechadas a turistas de fora, brasileiros incluídos. No Chile, a proibição de entrada de estrangeiros vale até 16 de julho, quinta-feira. Na Argentina, até 17 de julho. Essas datas não significam que a reabertura está próxima: as restrições de entrada vêm sendo revisadas pelos governos praticamente em tempo real. O melhor site para informações atualizadas de todos os países do mundo é o Travel Centre da Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA). 

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