Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Ao natural

Verão de 1972. Quatro adolescentes paulistanos na faixa dos 17 anos colocam suas mochilas nas costas e partem rumo ao sul - de carona. Como destino, o extremo austral do planeta. Antes de alcançar a Terra do Fogo, contudo, eles encontram um lugar inesperadamente bonito e selvagem, que ficou marcado na memória ao longo dos anos: a Península Valdés.

FELIPE MORTARA , PUERTO MADRYN, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h13

Mais de 40 anos se passaram. E o filho de um deles (no caso, eu) desembarca nesse precioso canto do Estado de Chubut, na Patagônia argentina - a mais de 1.400 quilômetros de Buenos Aires. Cresci escutando descrições fascinantes sobre a aridez do deserto que encontrava águas clarinhas em praias onde elefantes-marinhos bocejavam despreocupadamente. Precisava ver de perto o que fazia os olhos do meu pai brilharem tanto quando falava desse refúgio.

As atrações - leia-se dezenas de espécies de aves e mamíferos - espalham-se pelos 3,6 mil quilômetros quadrados da Península Valdés, entre golfos, pontas e enseadas pitorescas. Percorrer todo seu entorno (ou, pelo menos, as partes que podem ser alcançadas de carro) leva cerca de 12 horas. Não foi meu caso, mas quase: para chegar aos lugares mais enigmáticos, passamos longas horas em uma van que transpirava expectativa.

O vento sopra implacável, esfriando o ar e limpando completamente o céu, especialmente ao anoitecer e nas primeiras horas da manhã. Puerto Madryn, antigo polo pesqueiro e produtor de alumínio com 80 mil habitantes, reúne a maior infraestrutura próxima à península. O centrinho fica a 60 quilômetros da entrada da reserva e a 92 da pequenina e autêntica Puerto Pirámides, única cidade dentro da península.

Apesar de não se tratar de um parque nacional - o governo argentino distribuiu grandes extensões de terra no final do século 19 para colonizar a região -, a sensação de preservação é permanente. A exuberância de fauna e os cuidados das operadoras ao orientar os visitantes têm um quê da preocupação ambiental que vi nas Ilhas Galápagos, no Equador. Inspirador.

Fosse conhecendo os simpáticos pinguins-de-magalhães, flagrando as elegantes pombas-antárticas ou mergulhando com os curiosos leões-marinhos, imperava a sensação de que nenhuma destas criaturas me encarava como predador. Era como se eu fosse apenas mais um deles - talvez um pouco mais alto, rechonchudo e careca.

Ao contrário do meu colega Fábio Vendrame (cujo texto você lê abaixo), infelizmente não cruzei o caminho de nenhuma baleia-franca. A espécie aparece pela península especialmente entre junho e novembro, e eu viajei em março. Ou seja: enquanto você lê estas linhas, centenas de fêmeas estão chegando para dar à luz seus bebês ou acasalar com machos que se exibem - tanto para elas como para as lentes dos turistas - com grandes saltos para fora da água supertransparente.

Se puder planejar sua viagem entre os meses de setembro e novembro, tanto melhor. Nessa época, a região reúne a maior concentração de animais, de pinguins a orcas, de baleias a elefantes-marinhos. Todos por ali, para o deleite dos visitantes.

Mas como você poderá perceber nesta edição, havia muito o que ver além das gigantes. E, assim, pude entender por que os olhos do meu pai ainda brilham ao recordar daquele verão. Valdés se encaixa em um grupo seleto de lugares dos quais a lembrança vem seguida de um aperto de saudades no peito e uma alegria na alma. Só espero não ter de esperar 40 anos para voltar.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.