Marcos Müller/Estadão
Marcos Müller/Estadão

Apaixonado em Paris

Nosso apaixonado viajante esteve recentemente em Paris, uma cidade da qual ele lamenta gostar, dada a sua notória rivalidade com os franceses, que a redação supõe ser apenas uma questão atávica, resultante de séculos de guerras entre as duas nações. O fato, porém, é que sempre que fala da capital dos gauleses, mr. Miles não esconde seu incomensurável apreço. "In fact, my friends, ela seria perfeita se fosse habitada por vocês, brasileiros, ou por tantas outras populações afáveis e acolhedoras. Mas há que perdoá-los. Eles não têm culpa de ser tão antipáticos como são. Ou têm?"

O Estado de S.Paulo

16 Julho 2013 | 02h09

O texto a seguir foi enviado para que publicássemos em sua coluna desta semana.

"Well, my friends, que saudades da velha e boa caneta! Acabo de perder uma carta que escrevi com alegria para vocês, detonada, my God, por um simples esbarrão em algum comando errado desses estranhos laptops, aos quais aderi porque tenho sido muito transigente. Vou tentar reproduzi-la, porque, I'm proud to say, minha cabeça não tem nenhum desses bugs.

Ela falava sobre a melhor prerrogativa de um viajante. A de flanar. Hoje, my friends, flanei em Paris. Entrei por ruas que nem sequer constam daqueles mapas que perdem as dobras com um sopro de vento. Vi, of course, os aguardados senhores com baguetes sob as axilas. Mas vi, as well... congolesas com as unhas pintadas de azul, coreanos vendendo produtos no atacado, judeus de quipá, homossexuais orgulhosos e cães altivos.

Em um café, notei, também, a presença de um jovem escritor revisando um calhamaço do que supus ser seu romance. Maybe the first one? O sol invadia o lugar como um verão feito à mão. Confesso-lhes, shame on me, que não pude resistir e, discretamente, dei uma olhada ao farto rascunho. Pude ver que se chamava Oscar e Julia. Os desenhos sob o título confirmavam que Oscar era o próprio rapaz ao meu lado.

And what about Julia? Aparentemente, uma princesa. Não tenho certeza se um dia saberei, ao certo, o que estava escrito naquelas páginas. Mas apaixonei-me por Julia, aquela Julia em bico de pena, como só se pode fazer em Paris. Ou em Praga. Ou em Veneza, but unfortunately not in London, que é feita de outro material. Aquelas são cidades de alma feminina que seduzem.

Mais uma vez, como em tantas outras viagens, o ato de flanar mudou o rumo de minha viagem. Believe me! Já não era eu que passava por Paris, mas Paris que passava por mim. Uma tarde, uma cidade e um sol que se incorporavam ao meu acervo de paixões ao lado de tantas amadas inesquecíveis.

Não tenho ideia do que Oscar tanto corrigia com sua caneta pequena e seu olhar atento. De minha parte, não havia nada que mudar. Estava tudo perfeito. Paris, o sol, as pessoas caminhando na tarde e, more than all, Julia. Ao contrário de Oscar que insistia em revisá-la, eu já a havia aceitado com todos os seus erros. Quem não os têm?

Pois vejam o que pode resultar da delicada atividade de caminhar sem destino, apenas atento às sensações. Flanar, therefore, pode ser perigoso para a saúde dos que não olham, não sonham e não viajam. Ou, perhaps, possa consertá-los. Keep dreaming, my friends.

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