Fadel Senna?AFP
Fadel Senna?AFP

Após séculos de saques, cidade romana no Marrocos renasce

Patrimônio da Unesco, Volubilis guarda arcos, colunas, mosaicos e outros tesouros arquitetônicos deixados pelos romanos entre os anos 42 e 285 d.C.

Hamza Mekouar, AFP

08 Agosto 2018 | 06h00

A antiga cidade romana de Volubilis, hoje no território do Marrocos, foi saqueada durante séculos, mas agora volta a exibir com orgulho seus tesouros aos turistas, que aparecem cada vez em maior número.

Por Volubilis, fundada no século 3º a.C. e inscrita no patrimônio mundial da Unesco desde 1997, "passaram várias civilizações", e a cidade viveu, entre outras, uma florescente época romana e um breve período de reconquista árabe, explica à AFP M'Hamed Alilu, um dos conservadores do sítio arqueológico.

Os 42 hectares ocupados pela cidade (chamada Oualili em árabe) estão situados perto da cidade de Moulay Driss, no centro do Marrocos, em meio a uma frondosa vegetação.

Em ambos os lados da rua principal de Volubilis, que chegou a ter 15 mil habitantes, há pórticos e mansões decoradas com mosaicos. Também conta com um arco do triunfo, uma basílica, termas e um capitólio, símbolo da presença romana entre o ano 42 d.C. e 285.

Aproximadamente um terço do sítio corresponde ao período islâmico, mas ainda não foram feitas escavações que provavelmente revelarão tesouros arqueológicos, afirma Alilu.

Quando a dinastia árabe dos Idríssidas transformou Fez em sua nova capital, no fim do século 8º, a cidade caiu no esquecimento, exceto para os que saqueavam seu mármore e suas estátuas romanas.

No fim do século 7º, acredita-se que o sultão marroquino Mulai Ismail enviou milhares de escravos para recuperar o mármore e as colunas da cidade para construir seu palácio em Mequinez, a cerca de 30 km de distância.

"No caminho que vai de Volubilis a Mequinez foram encontrados capitéis abandonados pelos escravos, que fugiram quando souberam que Mulai Ismail tinha morrido", explica o conservador.

Estátua roubada

No início do século 20, em 1915, os arqueólogos começaram a desenterrar vestígios de Volubilis e a restaurar o sítio. Mas durante o período colonial francês (1912-1956) os saques voltam a ocorrer.

Em 1982, o desaparecimento de uma estátua de mármore de Baco, o deus do vinho, ocupou as primeiras páginas dos jornais, até o ponto em que o rei Hassan II decide enviar os gendarmes para interrogar os habitantes da zona.

Segundo a imprensa marroquina, muitos agricultores que não sabiam nada de deuses romanos foram "interrogados, maltratados e espancados" em vão porque a estátua nunca apareceu. 

"As pessoas daqui ainda estão traumatizadas", afirma um habitante de Moulay Driss.

Em 2006, parte dos mosaicos de Volubilis foi arrancada, segundo a revista marroquina de história Zamane, e, em 2011, um homem foi detido quando tentava roubar uma peça de bronze da época romana considerada muito valiosa.

Mohamed Charrud, um geólogo da faculdade de ciências de Fez, explicou em 2013 ao jornal marroquino Le Matin que, durante suas pesquisas em Volubilis, viu muitas vezes pessoas que "se instalavam perto do sítio arqueológico buscando objetos antigos de valor".

No entanto, Mustafa Atki, outro conservador do sítio, afirma que "o que se diz sobre os saques às vezes é exagerado". "Sempre houve um trabalho diário de manutenção e restauração", explica à AFP.

No mesmo sentido, M'Hamed Alilu assegura que hoje o sítio está "fechado, cuidado e bem vigilado, com uma equipe de 14 seguranças que trabalham dia e noite e com câmeras por todos os lados".

Desde que foi aberto um museu em 2013, Volubilis atrai em média 200 mil visitantes por ano. "Em 2017, ultrapassamos pela primeira vez os 300 mil", comemorou Atki.

COMO CHEGAR

Volubilis está a 1h30 de Fez e a 2h de carro de Rabat.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.