Aqui, se correr o bicho pega. Mesmo

SAURAHA, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2014 | 02h07

De safáris o mundo está cheio. Na África há dezenas. No Walt Disney World, em Orlando, também tem. Há anos a modalidade é praticada no Pantanal. Até em São Paulo o Simba era safári. Em comum, o visitante embarca num jipe, barco ou trenzinho e serpenteia por trilhas com bichos cercados ou savana adentro atrás deles. Imagino o que Chuck Norris diria: "No jipe é fácil, quero ver a pé". Pois no Nepal, meu caro Chuck, você pode apostar corrida com rinocerontes e tigres-de-bengala. Sério.

"Sou guia, não Deus", avisou Ram Prakash, de 37 anos, ao pisarmos no Chitwan National Park após cruzar o estreito Rio Rapti numa canoa feita de uma tora só. "É uma reserva de 932 quilômetros quadrados com mais de 700 de espécies de animais vivendo livres. Alguns deles podem nos matar ou machucar muito."

Assim começava nosso safári a pé (sim, a pé) na mata de Sauraha, sul do Nepal, a seis horas de ônibus de Katmandu, já perto da Índia. A entrada custa 1.500 rupias (R$ 35), mais 2.000 rupias (R$ 46) para o guia.

Após as boas-vindas, um festival de alertas e gentis recomendações (leia aolado). "Possivelmente encontraremos rinocerontes e, se um deles avançar, procure uma árvore alta. Caso ele derrube a árvore, corra em zigue-zague. Porém, se aparecer um dos 125 tigres-de-bengala, e você correr, todo mundo morre. Dizem que um intenso olhos nos olhos costuma funcionar." Acabou?

Não. Ram continua. "Cerca de 150 ursos-beiçudos vivem aqui, mas eles não matam, tá? Só desfiguram. Ah, e se os elefantes selvagens vierem para cima (expressão de pânico), cada um corre para um lado. Mas, ok, só há 35 exemplares no parque. Enfim, qualquer atitude errada sua (minha) pode colocar nós três em risco", enfatizou, referindo-se a mim e a Buddha Lama, o pequeno e caricatural guia de olhos puxados e sorriso largo que iria na retaguarda. Bem, com Buddha nas costas, nada poderia me atingir.

Daí o leitor se pergunta: "Os guias vão armados, né?". Claro que sim! Cada um carrega um poderosíssimo bastão de bambu com pouco mais de um metro de comprimento. Mesmo desconfiado, ainda estava louco para poder contar aos meus amigos que vi rinocerontes, tigres e até ferozes elefantes de pertinho. Eu seria um herói, já pensou?

Nos primeiros passos, uma fuinha de mais de um metro nos driblou sem esforço. Um jacaré nadava de boa no Rio Rapti. Perto dali, um rastro curvilíneo na areia indicava que uma serpente passara havia instantes. "É uma naja, já ouviu falar?", perguntou Ram, com alguma inocência. Agora eu tinha de ficar atento também a cobras venenosas.

Piscar de olhos. Ao longo da trilha, a paisagem vai de descampados que lembram a savana, passa por vegetações semelhantes ao cerrado, porém andamos muito mais numa floresta compacta como a Mata Atlântica. Não se engane, o Nepal tem altitudes que descem dos 8.848 metros do Everest até os 400 metros em Chitwan.

Bandos de macacos-rhesus e langures-cinzentos colhiam frutos nas árvores mais altas e gritavam, alertando sobre a presença de invasores. Grupos de veados costumam andar próximos aos macacos, num acordo de cooperação mútua entre galhos e folhas densos onde a luz mal entra. A melhor foto que consegui deles me expulsaria sumariamente de uma seleção da National Geographic.

Após mais de três horas de trekking, o celular de Ram dispara a tocar alguma canção do Black Eyed Peas. Do lado oposto, outro guia avisava que um rinoceronte solitário se refrescava faceiro no Rio Rapti. "Daqui até lá levaremos uma hora andando rápido. Você topa?", indagou Ram. E eu vim até aqui para arregar?

Esbaforido, no meio do mato, quase correndo para não perder o bicho. De repente, Ram para. Arregala os olhos e escaneia os arredores com uma tensão inédita. Meus batimentos cardíacos foram para o Himalaia. Atrás de mim, Buddha Lama faz a parte dele, bastão em posição de combate. O que está acontecendo?

Feita a checagem, Ram aponta com seu cajado uma imensa pegada de tigre-de-bengala no chão. E, dois passos adiante, outra, um pouco menor. "Um macho e uma fêmea estiveram aqui duas horas atrás caçando juntos." A palavra "medo" não define o que senti - mas o termo correto, perdão leitor, não é algo publicável.

Ainda completamente nervosos, seguimos adiante - claro que intensifiquei o ritmo. Se lá no começo da trilha disse que estava louco para ver um tigre, agora eu já faria de tudo para não topar com um. Muito menos dois.

Escutei um burburinho. A mata se abria rumo ao rio. Do barranco, cerca de 10 turistas clicavam algo cerca de 1,5 metro abaixo. Um pouco desapontado por ter chegado depois da turma toda (que foi de canoa muito mais rapidamente, mas sem emoção). Avistei o plácido rinoceronte a chafurdar numa grande poça. Cliques rápidos, pois os guias não gostam de atazaná-los, caso contrário mudam de esconderijo. Antes que Ram pensasse em ordenar, uma rosnada poderosa nos fez bater em retirada. / FELIPE MORTARA

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