'Arrivederci', Itália!

Capri, Sicília, Toscana, Piazza Navona... As perdas são irreparáveis. Mas pela atitude xenófoba, adeus, Itália

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2009 | 02h16

Como era de se esperar, dezenas de leitores acharam adorável a ironia de mr. Miles com a questão da gripe suína mencionada em seu último artigo. E, como era de se esperar também, outra quantidade apreciável de correspondentes considerou que nosso incansável viajante se mostrou irresponsável ao tratar de um assunto tão delicado quanto uma epidemia de proporções globais. Mr. Miles agradece a uns e aos outros pelas manifestações e informa que está, agora, desfrutando de sol e raki na praia turca de Patara, uma das mais belas de todo o Mediterrâneo. Sua correspondência desta semana é invulgarmente séria.

Querido mr. Miles: nos próximos dias viajo pela primeira vez para a Itália e queria saber se um dia só é tempo suficiente para visitar Veneza. Antecipadamente grata.

Solange Ribas, por e-mail

"Well, my dear: a sua questão permite que eu torne pública uma dolorosa decisão. No exato momento em que você planeja viajar para a bela península, assumo a grave e triste convicção de excluir a Itália de meus planos de viagem. No more spaguetti al mare em Capri ou na Sicília. No more wine and walks sob a luz âmbar da Toscana. No more tartuffi na Piazza Navona. São inquantificáveis as perdas pessoais que essa resolução me traz, mas, assim como algumas pessoas evitam países infestados pela influenza A, é meu direito afastar-me de uma nação contaminada pelo horror fascista da xenofobia.

Ainda me lembro, darling, da imagem disgusting de Benito Mussolini pendurado pelo pescoço na Piazza Loreto, em Milão, no fim da 2ª Guerra Mundial. Mas me restou, à época, a esperança de que o amável, porém perigosamente volúvel povo italiano tivesse, então, se libertado dos temerários líderes de ópera-bufa pelos quais sempre teve um fraco.

My mistake. Eis que, meio século mais tarde, um governante midiático da mesma envergadura cria leis impiedosas para perseguir os estrangeiros que buscam sobrevivência naquele país. Worse than that: estimula a criação de milícias de common citizens para caçar seres humanos de outras proveniências, da mesma forma como se faz com ratos e baratas.

This is outrageous! Veja bem, my dear Solange: não estou me referindo a uma exótica prática tribal de alguma população remota das florestas de Papua-Nova Guiné. O povo que entregou a mr. Berlusconi o poder de transformá-lo em agente do horror é o mesmo que produziu o Renascimento.

É o mesmo que constrói Ferraris, Lamborghinis e maravilhas do design nos campos da moda e da decoração. As I can see, estão abertas, de dentro para fora, as portas do Inferno de Dante, jorrando ira, vaidade e soberba com a força e a frequência do Vulcão Stromboli - e de novo em terras europeias.

E onde está o povo? Imóvel como o Davi de Michelangelo. Nobody in the streets! No reaction! Todos sabem que, como viajante, tenho a firme convicção de que o planeta é o grande quintal de minha casa. Não tolero a estupidez de países que se julgam propriedades privadas. São como livros que não podem ser lidos ou, my God, histórias que não podem ser contadas.

Não volto à Itália por tudo isso que lhes disse. Besides, como estrangeiro, posso ser apanhado por uma dessas brigadas patrióticas. E, segundo a mesma infame lei, quem me hospedar pode ficar até seis meses na cadeia. Get out, Berlusconi! Not even your wife wants you back!

E a respeito de Veneza, my dear: uma vida pode ser pouco, but, nowadays, um dia pode ser demais."

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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