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Artista e viajante, sempre com o lápis à mão

As 'historietas' do argentino Ricardo Liniers chegam ao Rio numa exposição para ver, admirar e fantasiar o mundo ao lado de seus personagens

BRUNA TIUSSU, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2012 | 03h08

Com a menininha Enriqueta, o monstro imaginário Olga, a azeitona Oliverio e tantos outros de seus fantasiosos personagens na bagagem, o desenhista argentino Ricardo Liniers desembarcou no Rio de Janeiro para a mais nova exposição que homenageia sua carreira. Macanudismo - Quadrinhos, Desenhos e Pinturas é como um filhote da mostra recém-realizada em Buenos Aires para celebrar os dez anos de Macanudo, sua mais famosa série de historietas (ou tirinhas) publicada diariamente no jornal La Nación e também transformada em livros.

Organizada pelo Estúdio Mandacaru e realizada na Caixa Cultural do Rio, a exposição abre hoje ao público e traz 500 tirinhas originais de Macanudo (quanto ao significado da expressão, o próprio autor a traduziu para o português em um de seus desenhos como "supimpa"). É ali que Liniers traça alguns de seus personagens favoritos e, com extrema delicadeza, humor refinado e doses equilibradas de ironia, transforma situações corriqueiras em recortes geniais. "É uma série que tenho muito carinho, especialmente pelos personagens que remetem à infância, como a garotinha Enriqueta e Olga, o monstro imaginário", conta o autor.

Ainda na mostra, há mais de 60 capas de livros desenhadas à mão, pinturas a óleo, outras ilustrações, um painel com reproduções das páginas do livro de crônicas ilustradas As Cosas que te Pasan si Estás Vivo e até trabalhos que fogem do universo dos quadrinhos, como artes criadas para ilustrar capas de CDs.

Em paralelo, uma programação de atividades oferece oficinas, mesas redondas e exibição de um documentário sobre o artista, única atração paga, R$ 2 (confira agenda no site). Hoje, o desenhista bate um papo com o público, fala de seu processo criativo e lança o 5.º volume do livro Macanudo em português - amanhã, pega uma ponte aérea para lançá-lo também em São Paulo, às 19 horas, no MIS.

Coelho itinerante. Desenhista quase compulsivo - confessa que dificilmente passa um dia sem pôr o lápis em ação -, Liniers diz que suas viagens funcionam como um processo de reciclagem. "Viajar me faz tão bem. Pessoalmente e para o trabalho, porque estar em vários lugares, com diferentes culturas, move as ideias na minha cabeça, me faz criativo."

Por isso, além das historietas, trouxe consigo caderno e lápis, como faz em toda e qualquer viagem. "Os dois me bastam, com eles já me divirto. É que tenho a necessidade de poder pegar o lápis e desenhar quando a ideia surge, quando vejo algo inspirador."

Foi assim, rabiscando de maneira despretensiosa cenas de viagens passadas, que nasceu um de seu livros, Conejo de Viaje (disponível apenas em espanhol). "Fiz os desenhos apenas para me lembrar dos lugares simpáticos que estive. Criar um personagem me transformando em coelho foi apenas parte da diversão. Só depois que isso foi virar trabalho", conta.

A obra, inteiramente pessoal, reúne tirinhas que relatam suas impressões como turista em vários destinos visitados por ele. Com roupas, acessórios (atenção para os óculos e cachecol!), posturas e gestos que descrevem com perfeição o desenhista, o coelho aparece boquiaberto diante da natureza gigantesca da Antártida - viagem que Liniers recorda como a mais impressionante que já fez -, visita cada ponto turístico de Londres, explora o Peru, Canadá e até cidades brasileiras, como São Paulo.

O Brasil, aliás, está bem presente na vida pessoal - e artística - de Liniers, que tem família aqui e frequentemente deixa a Argentina para passar férias ensolaradas em Ubatuba, no litoral paulista. "O País me encanta. Ainda quero conhecer Porto Alegre e a Região Nordeste, não fui lá para cima, parei no Rio. Ah, também preciso conhecer melhor o idioma", brinca.

Quanto à sua primeira exposição em solo brasileiro ele se mostra empolgado, e diz ser algo inesperado. "Nunca pensei em publicar além da Argentina. Chegar a cidades europeias, agora estar no Rio. Isso tudo é como uma fantasia." Para quem admira suas historietas e quer conferir mais de seu trabalho, é um baita evento macanudo.

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