Hélvio Romero/Estadão
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Gilberto Amendola
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As cidades merecem outra chance (a Síndrome de Teresa)

Algumas cidades são como a Teresa do poema de Manuel Bandeira: precisam de um segundo olhar para despertar paixões

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2018 | 03h30

Tem um poema de Manuel Bandeira em que ele descreve suas primeiras impressões sobre Teresa: “A primeira vez que vi Teresa/Achei que ela tinha pernas estúpidas/Achei também que a cara parecia uma perna...” Já no fim do poema, Bandeira consegue enxergar a beleza de Teresa e confessa sua paixão: “Da terceira vez não vi mais nada/Os céus se misturaram com a terra/E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.”

Algumas cidades são como a Teresa do Bandeira. Iludidos por postais photoshopados, digital influencers sorridentes ou por nossa própria idealização romântica/cinematográfica, nossos olhos ardem de decepção ao desembarcarmos na vida real.

 Não é difícil que as cidades, assim como Teresa, tenham pernas estúpidas. O edifício imponente nas fotos é menor do que você imaginava; aquela rua famosa tem muito lixo ou é estreita demais; a cachoeira parece uma atração de parque temático; e o monumento histórico vem sendo castigado pela diarreia dos pombos há pelo menos 100 anos. 

Tem cidade que não bate de primeira. Tem cidade que pode nos causar uma espécie de “decepção Miojo” – que de tão instantânea fica pronta em três minutos. Por isso, algumas cidades precisam de mais tempo, precisam se revelar aos poucos, com mais tempo de estadia ou em uma segunda ou terceira visita.

Poderia falar sobre várias cidades brasileira e também ao redor do mundo que já me causaram essa impressão, impressão que eu vou chamar aqui de Síndrome de Teresa. Mas vou me concentrar naquela que eu mais conheço: São Paulo.

Se você mora aqui, tente se colocar no lugar do turista que acabou de chegar. Imagine o que é descer no aeroporto de Guarulhos e ter como primeira experiência atravessar a Marginal Tietê, encarar o trânsito intenso e admirar, da janela do táxi, um rio triste, um rio morto.

São Paulo não é para qualquer um. Para um gringo então, é ainda pior. A cidade não é assim tão amigável para quem caiu de paraquedas, não fala português ou só viu fotos pela internet. Pergunto: qual seria sua sensação em visitar a Praça da República ou a Sé pela primeira vez? Você saberia explicar para um turista o que ele deve fazer para chegar, de transporte público, ao Museu do Ipiranga? 

São Paulo demanda tempo, paciência e, provavelmente, uma segunda ou terceira visita. São Paulo é melhor quando você acena para um vizinho de andar (e tem o aceno retribuído), quando você dá bom dia ao porteiro, quando o padeiro sabe que você prefere os pães que ficaram um pouco mais torrados, quando você descobre uma festa legal ou um restaurante com uma massa incrível. São Paulo é melhor quando você se sente à vontade na feira – e pede uma goma de laranja para o feirante sem constrangimento.

Você precisa ser um pouco Manuel Bandeira para gostar de uma cidade como São Paulo. É quase inevitável que os defeitos, as pernas estúpidas, nublem qualquer visão mais generosa. Mas, assim como Teresa, as cidades precisam de tempo para se revelarem por inteiro. Nosso olhar, quando menos afoito, também vai se moldar aos contornos, curvas, pequenas lindezas e irresistíveis possibilidades de um lugar diferente e um tanto estranho.

Se você não gostou de alguma cidade e, eventualmente, tiver uma oportunidade de voltar, vá de coração aberto. Dê uma segunda chance. Quem sabe os céus também se misturam com a terra e o espírito de Deus volta a se mover sobre a face das águas – mesmo se for sobre as águas de um Rio Tietê. 

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