Mônica Nobrega/Estadão
Mônica Nobrega/Estadão

As crianças da Amazônia

Elas navegam desde que nascem, fazem do barco tobogã

Mônica Nobrega, O Estado de S. Paulo

06 Novembro 2018 | 03h01

Tábata, dois anos, brinca de boneca sentadinha no chão. Cinco passos para a direita, acomodada na rede, sua mãe a observa. Dois passos para a esquerda está o guarda-corpo da embarcação e, depois dele, o Rio Solimões. A menina mora em Santo Antônio de Içá. A cada dois meses, viaja de barco durante 5 dias até Manaus, onde seu pai vive por causa do emprego. 

 

Há muitas formas de ser criança no Brasil, e uma delas é ser criança na Amazônia. As crianças da Amazônia navegam desde que nascem. É de canoa que vão para casa pela primeira vez, no colo das mães, que levam num braço o recém-nascido, no outro uma sombrinha. Navegam para ir à consulta médica, às compras, às casas dos parentes. 

São crianças das águas. Nas cidades ribeirinhas, aonde só se chega pelo rio, um barco acidentalmente emborcado perto da margem vira tobogã. Enquanto o dono espera a época da vazante para resgatar seu “veículo”, meninas e meninos escalam o teto inclinado e escorregam lá do alto até mergulhar cá embaixo. Um parque aquático, como não?

Numa aldeia ticuna, mães se banham no rio com filhos menores amarrados em tecidos junto ao corpo. Crianças da Amazônia aprendem desde cedo a se relacionar com o rio. Com respeito, cuidado e alegria. O rio não é necessariamente um perigo – embora seja às vezes, exatamente como as ruas e avenidas para as crianças da cidade.

São crianças de seu tempo. Na mesma comunidade ticuna, meninos que não falam português sorriem para as minhas fotos e passam os dedinhos da esquerda para a direita sobre a tela da minha câmera, constatando com o estranhamento de qualquer criança que o movimento não produz resultado semelhante ao da tela do celular. 

Um barco regional não é um navio de cruzeiros, mas é uma experiência turística memorável para crianças urbanas. Há as noites dormidas na rede. As refeições coletivas. As rodas de histórias, desenhos e brincadeiras organizadas por tripulantes e pelos próprios passageiros. Há água e floresta, sol ardido e chuva torrencial para ver e sentir. Há novos amigos por conhecer. 

Faça com seu filho uma viagem de Manaus à Colômbia no M. Monteiro, barco regional de carga e passageiros e vai parando em cidadezinhas pelo caminho. São sete dias, e você pode ir numa cabine, se conseguir dar à sua criança motivo convincente para não dormir em rede como os outros (compre na Paradiso Turismo: bit.ly/vaiamazonia).

Mas se for o caso, dá para ir de cruzeiro também. O navio Iberostar Grand Amazon é um clássico: sobe e desce trechos dos rios Negro e Solimões em roteiros de três, quatro ou sete noites a partir de Manaus. Reserve em bit.ly/cruzeiroamazonia. É uma opção com serviços moldados para o gosto do público urbano, sem abrir mão do contato com a vida local – de um jeito mais controlado, é verdade, mas ainda assim significativo. 

Há crianças da Amazônia que moram em casas flutuantes. São habitações inteiras construídas sobre grossos troncos de árvores que funcionam como boias. Sobem e descem com o nível dos rios, muito variável ao longo do ano. O site Airbnb.com tem uma opção de casa flutuante para alugar por temporada em Manaus (bit.ly/manauscasaflutuante). 

São crianças ativas. Nas vilas ribeirinhas, não brincam em parquinhos (mas quase sempre têm um campinho de futebol). Trepam mesmo é nas árvores, e de lá arremessam jambos maduros. Balançam nos galhos. Correm na terra, brincam na areia das praias de rio – em Manaus, a praia de Ponta Negra é concorrida. 

Também correm maltrapilhas entre os carros no trânsito da região portuária de Manaus. Pedem dinheiro, comida, atenção, sofrem com a falta de assistência à saúde, com a falta de infraestrutura escolar. 

Muitas delas são crianças esquecidas, esquecidas por um país enorme, enormemente desigual. É preciso conhecer a Amazônia para compreendê-la e valorizá-la para além do que ela pode render em dinheiro; para descobrir o que pode render em significados para a vida. Em futuro. Para entender que a Amazônia é de todas as crianças do planeta – inclusive, e principalmente, das crianças da Amazônia. 

*Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com.

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