As crianças estão bem

Descomplique sua viagem com filhos: parque, copa do bebê e kids club são ótimos, mas não essenciais

Mônica Nobrega, O Estado de S.Paulo

13 Junho 2017 | 04h10

Meu filho tinha seis meses quando voou pela primeira vez. Nem pense em me chamar de destemida por isso. No embarque em Congonhas (para Belo Horizonte, logo ali, ufa!), eu olhava ao redor um pouco tensa, em busca de expressões de incômodo, daquela cara que algumas pessoas fazem de “oh, não, um bebê, tomara que não sente do meu lado”. Que nada.

Não apenas não vi sinal de hostilidade como a equipe da companhia aérea foi extremamente solícita. Me fizeram embarcar antes. Carregaram minha bolsa de mão, cheia daquelas tranqueiras que a gente leva quando tem bebê. Meu filho? Foi amamentado durante a decolagem e o pouso, que são momentos críticos por causa da pressão nos ouvidos, e dormiu no colo o resto do tempo. Tranquilidade absoluta. 

Em viagens depois dessa, já aconteceu de a cozinha da pousada fechar antes que eu lembrasse de pedir para amornar a mamadeira da noite. Teve a vez em que chegamos ao hotel-fazenda no meio da tarde, em pleno intervalo de funcionamento do restaurante, longe da cidade e com a criança sem almoçar. E teve outra, quando constatamos que não era assim tão fácil encontrar suco de laranja, o preferido do pequeno, nos restaurantes de João Pessoa. 

Se a viagem é sempre um exercício de estranhamento, adaptação e tolerância – e nisso está sua verdadeira e grandiosa beleza –, a viagem com criança potencializa tudo. A gente sai de casa para descansar, conhecer lugares novos, se divertir, mas acaba também experimentando outras dinâmicas familiares e aprendendo muito sobre os nossos próprios filhos. 

Na hora dos pequenos apertos e das grandes alegrias que uma viagem proporciona, descobrimos que uma conversa jeitosa consegue convencer a criança a trocar só desta vez o leitinho antes de dormir por água na mamadeira. Ou a experimentar o suco de cajá e o de graviola. A gente pede ajuda e recebe a solidariedade da funcionária do hotel-fazenda, que mora logo ali e vai até sua própria cozinha buscar um prato de arroz, feijão, legume e saladinha para resolver a fome do pequeno até a hora do jantar de todos os hóspedes. 

Viajar com crianças não exige parque, kids club, copa do bebê – essas coisas são ótimas, mas não essenciais. Pede, sim, cabeça fresca, disposição para descomplicar. Porque no fundo, uma viagem com crianças é uma viagem como outra qualquer. Algumas coisas sairão do controle. Pode ser que os pequenos abusem do sorvete, que passem a semana inteira comendo macarrão e indo para a cama tarde demais. Qual é o grande problema? Não é exatamente isso, sair da rotina e inclusive cometer algumas extravagâncias, que nós, adultos, fazemos ao viajar?

É natural bater a insegurança. Por isso, planejar tudo com cuidado, lembrando que a viagem terá um outro ritmo, é importante, sim. Envolver a criança mais crescida no planejamento, mostrar fotos e contar dos passeios que a família pretende fazer rende empolgação, curiosidade, vontade de descobrir. E se, já no destino de férias, vocês decidirem juntos que querem abrir mão do segundo passeio do dia para passar a tarde fazendo farra na piscina do hotel, tudo certo também.

O título desta coluna é o mesmo de um filme de 2010 que chegou ao Brasil como Minhas Mães e Meu Pai, mas cujo nome original é The Kids Are All Right, “as crianças estão bem”. Não é um filme sobre viagens, mas sobre família. Conta a história de um casal de mulheres com um filho e uma filha adolescentes e um cotidiano típico de classe média nos Estados Unidos, cuja vida muda quando o pai biológico dos jovens aparece inesperadamente. 

O conflito se instala entre os adultos. Enquanto isso, os adolescentes se adaptam à nova situação. Vale assistir como forma de se inspirar e ver que tudo pode ser mais simples. Ao viajar com filhos, se você está fazendo o seu melhor, pode se tranquilizar: mesmo que o bebê abra o berreiro no avião, as crianças estão bem.

Vídeo: dicas práticas para planejar a viagem com crianças

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