Elva Obeso
Castelo de Santo Antón, em Coruña. A capital da província homônima espanhola é dona de arquitetura charmosíssima e vistas deslumbrantes Elva Obeso

As gracinhas da Galícia: uma Espanha fora do óbvio

Com clima mais frio, região ao norte do país apresenta natureza farta, menus baseados em ingredientes frescos, boa vida noturna e um idioma similar ao português: o galego

João Paulo Carvalho, Especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 13h00

A maior parte das pessoas que vão à Espanha prefere visitar o litoral do país, mais especificamente a costa do Mar Mediterrâneo. Calor, sombra e água fresca: as praias paradisíacas desta região são, de fato, de cair o queixo. Afinal, quem nunca desejou se perder no mar azul de Ibiza ou mesmo se aventurar pela beleza encantadora de Palma de Maiorca? Além disso, Madri e Barcelona são sempre destinos certeiros para quem viaja para o velho continente.  O que pouca gente sabe, entretanto, é que o noroeste da Espanha, ali bem pertinho de Portugal, esconde uma joia rara: a região da Galícia.

Se você tem repulsa das altas temperaturas do verão espanhol e quer escapar da quantidade exorbitante de gente que invade o país nas férias de julho e agosto, eis aqui o seu lugar. Com uma natureza frondosa, cenários estupendos e uma das melhores gastronomias do mundo, a Galícia torna-se rota obrigatória para quem quer fugir do óbvio e explorar uma Espanha fora dos holofotes.

Formada pelas províncias de Coruña, Lugo, Ourense e Pontevedra, a Galícia tem um clima peculiar. Todas as frentes frias que chegam à Espanha entram pelo noroeste do país. É justamente por isso que as chuvas e os ventos fortes são muito comuns por lá. No verão, as temperaturas raramente ultrapassam os 25 graus. Mesmo em agosto, ponto mais alto da estação, é sempre bom levar uma blusinha leve na mochila e, claro, um guarda-chuva. Ele será seu companheiro inseparável nesta jornada galega. As tormentas, todavia, proporcionam que esta zona tenha uma mata verde espectacular. São dezenas de parques, árvores e um ar puro de dar inveja às grandes metrópoles. 

Pela Coruña

Com pouco mais de 250 mil habitantes, Coruña é a capital da província homônima espanhola. Além de contar com as incríveis praias de Orzán e Riazor (sim, ainda é possível dar um bom mergulho por lá em dias ensolarados), ela é dona de uma arquitetura charmosíssima, vistas deslumbrantes e uma vida noturna bastante agitada. Nada como sacudir o esqueleto com a muñeira (dança típica galega), beber um bom licor de café e apreciar o suculento pulpo a la gallega, prato mais tradicional da cidade.

Não tenha medo de se enrolar com o espanhol. Além do castelhano, nesta região também se fala o galego, idioma regional muito parecido com o português. Animado? Então ponha o guarda-chuva na mala e tenha disposição para boas caminhadas. Coruña proporciona um bom leque de opções culturais para todos os gostos e idades, elencadas a seguir. Graciñas, como se diz lá (a versão graciosa para "obrigado").

 

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Cartões-postais para desbravar ao ar livre

Do passeio à beira-mar (o maior da Europa) à emblemática Torre de Hércules, do século 2.º, a Coruña é cheia de boas surpresas

João Paulo Carvalho, Especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 13h00

Coruña é uma das cidades mais importantes e charmosas da Galícia. Situada no noroeste da Península Ibérica, a sua origem remete a tempos ancestrais. Trata-se de um lugar mágico, repleto de lendas e histórias incríveis para contar.

A cidade tem uma forte ligação com o mar. Há ali, portanto, muitas praias e monumentos erguidos à beira do Atlântico. Vestígios da nostalgia celta proliferam por todos os cantos. As dicotomias entre o presente e o passado e o tradicional e o moderno estão por todos os lados.  

Com um forte legado romano em sua história, o local tem na imponente Torre de Hércules (Av. Navarra, s/n) o seu expoente máximo. Reconhecido como patrimônio mundial pela Unesco, o monumento é o farol mais antigo do mundo em atividade

Construído ainda no século 2.º a mando dos imperadores Trajano e Adriano, o farol foi arquitetado por Gaio Sévio Lupo. Sua função básica era auxiliar os navegantes. Na Idade Média, entretanto, a torre perdeu sua função. Em 1682, o duque de Uceda ordenou que fosse feito um restauro na estrutura, que ganhou uma escada de madeira. A reforma, entretanto, só foi concluída em 1791, durante o reinado de Carlos IV, quando a torre ganhou um estilo neoclássico de Estaquio Giannini. 

A Torre de Hércules tem 68 metros de altura e três andares. O primeiro, inferior, é quadrado,com 11,60 metros de largura e 34,60 metros de altura. Já o segundo, intermediário, possui menores dimensões e é octogonal. Por último, o terceiro, é menor ainda, também octogonal, suportando uma construção cilíndrica de vidro que protege a lanterna do farol. São 242 degraus até a belíssima vista panorâmica do Oceano Atlântico. Apesar de cansativo, vale muito a pena subir até o ponto mais alto da torre em dias ensolarados. 

As visitas à Torre de Hércules podem ser feitas todos os dias da semana, sempre das 10h às 18h. No verão (de junho a setembro), o horário se estende até as 21h. O valor do bilhete é de 3 euros. Às segundas-feiras, as entradas são gratuitas e podem ser adquiridas na hora ou antecipadamente pelo site. A prefeitura de Coruña também oferece visitas guiadas. Elas precisam ser previamente agendadas por e-mail.

Aproveite também para visitar o Parque Escultórico da Torre de Hércules, que fica bem próximo do monumento principal. Neste museu ao ar livre é possível sentir a brisa do mar de um dos espaços naturais mais belos do mundo. 

Outro cartão-postal que dá para emendar nessa visita é o Castillo de San Antón, construído no século 16. Apesar do nome, não se trata exatamente de um castelo, mas de uma fortaleza. No século 18, no entanto, o local foi convertido em prisão, função que ocupou até 1960. Com a prisão desativada, o local virou atração turística. Hoje, paga-se  2  euros para entrar e observar o pátio interno, onde ficavam as celas, e o Museu Arqueológico

O maior passeio marítimo da Europa 

São nada menos que 13 quilômetros de extensão - o maior de toda Europa. O passeio marítimo da Coruña é perfeito para fãs de caminhada, do pedal ou apenas da contemplação. O trajeto de uma ponta a outra é deslumbrante. Mas a ideia é não olhar apenas para o mar: a orla proporciona uma viagem pela história da cidade, que revisita os tempos dos celtas e dos romanos. Dedique alguns bons minutos às esculturas, os menires, a rosa dos ventos e pare para observar o antigo cemitério dos guerreiros muçulmanos.

Aproveite o passeio pela orla para visitar o Domus (Casa del Hombre), o primeiro museu interativo do mundo. Com o lema Conhece-te a ti Mesmo,  o espaço é dividido em 200 módulos. Ali, os visitantes aprendem sobre genética, evolução humana, sistema motor e identidade. Desenhado pelo arquiteto japonês Arata Isozaki, o local é destinado a todas as idades e promete gerar momentos de reflexão (e diversão). O Domus (Rua Ángel Rebollo, 91) está aberto todos os dias, incluindo domingos e feriados, das 10h às 20h. O valor da entrada é de 2 euros.

Clima praiano

As praias de Orzan e Riazor, que ficam uma ao lado da outra, são bem distintas das brasileiras. Não há vendedores ambulantes, por exemplo. Portanto, para matar aquela vontade de um petisquinho praieiro é melhor passar antes em algum supermercado e levar seu kit de comidinhas. 

Há sim os famosos chiringuitos (bares de praia), mas eles são mais comuns na alta temporada do verão (julho e agosto). De qualquer maneira, eles vendem apenas bebidas. Esqueça a caipirinha, o licor de café ou mesmo os drinques mais sofisticados. A única opção alcoólica por aqui é a boa e velha cerveja (3 euros o copo de 250 ml). Cadeira e guarda-sol, só trazendo de casa – não há opção de aluguel.

Apesar das diferenças com as areias brasileiras, Orzan e Riazor têm seu charme. Nos dias ensolarados, o clima é bem familiar. Crianças constroem castelos numa areia não tão fofa, e muitas famílias aproveitam para fazer piqueniques. Aos domingos, é comum ver surfistas e praticantes de wakeboard. Como é comum na Espanha, o topless é uma realidade, mas praticado com alguma moderação.

As noites de verão em Riazor costumam ser agitadas e repletas de jovens. No verão, artistas nacionais e internacionais se apresentam em um palco gigantesco montado na parte central da praia. Os festivais de verão de Coruña já receberam nomes como Patti Smith e The Pretenders. Detalhe: todos os shows são gratuitos.

O verde do parque do Monte de San Pedro 

O Monte de San Pedro (Estrada Os Fortes, 7) é um dos lugares favoritos dos cidadãos de Coruña, principalmente nos fins de semana ensolarados. Com uma extensão de 78 mil metros quadrados, o parque público inaugurado em 1999 tem a melhor vista da cidade e oferece aos seus frequentadores a chance de desfrutar ainda mais da natureza exuberante da Galícia. O local, que coleciona oito hectares de superfície verde e vegetação italiana, é perfeito para caminhar, correr e fazer um belo piquenique aos domingos.

Antigo espaço militar defensivo (por isso há três canhões gigantes a céu aberto), a principal atração do parque é o elevador panorâmico (gratuito), que leva ao ponto mais alto da cidade em pouco minutos. Lá do topo se tem uma vista privilegiada das praias de Orzán e Riazor e também da Torre de Hércules. Aproveite o momento para fazer as melhore fotos da viagem.

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Tradição gastronômica que vem do mar

Preparado com azeite, pimenta e servido com batatas cozidas e pão, o polvo é o prato que melhor traduz a culinária galega

João Paulo Carvalho, Especial para O Estado

14 de setembro de 2019 | 13h00

A Galícia leva a gastronomia muito a sério. Lubina, lagosta, vieira, caranguejo e, claro, o famoso pulpo (polvo) se destacam pela qualidade - e vêm à mesa caprichados. O pulpo a la gallega é o prato mais tradicional de Coruña e também da Galícia. Cortado em pequenos pedaços, ele é temperado com azeite e pimenta e é servido com batatas cozidas e pão. Uma delícia.

São muitos os restaurantes que preparam o tradicional prato, mas o ponto mais renomado é A Nova Lanchiña (Rua Capitán Juan Varela, 30), bem pertinho da estação de trem da cidade. A porção grande serve quatro pessoas e vale 15 euros. Atenção: é preciso chegar cedo para garantir mesa. Reduto dos galegos, o local costuma encher de quinta a domingo, e a espera pode demorar até 1 hora.

Outro prato típico da Galícia é o pimiento de padrón. Pequenininhos e muito suculentos, esses pimentões têm uma característica curiosa: somente um em cada dez picam (ou seja, ardem fortemente). Temperada com azeite, a porção, que custa 7 euros, também é uma das mais pedidas do restaurante. 

Com uma culinária de dar água na boca, viajar pela Galícia significa adquirir alguns quilinhos extras. Além dos peixes e frutos do mar, a gastronomia local também é muito lembrada pelas empanadas (massa à base de farinha e recheada com carne, bacalhau e atum) e o popular queijo de tetilla, produzido nas terras de Arzuá, mais ao norte, e  reconhecido em toda a Galícia por sua textura cremosa e suave no paladar. Experimente com um pão galego bem quentinho e delicie-se.

Uma ótima maneira de conhecer os ingredientes (e provar alguns deles) é nos mercados locais. O de La Plaza de Lugo (também chamado de Eusébio da Guarda) é um dos mais tradicionais, ótimo para comprar pescados e frutos do mar frescos. 

 

Maria Pita e o famoso licor de café

Maria Pita é o nome de uma das mulheres mais valentes da história da Galícia. Diz a lenda que, em janeiro de 1589, ela revelou ser uma verdadeira heroína ao liderar a defesa da cidade contra os ataques do corsário britânico Francis Drake, que tentava conquistar a região para incitar uma rebelião contra a Espanha de Filipe II. “Quem tem honra, me siga!”, teria dito Maria Pita.

A praça mais emblemática de Coruña, por sinal, leva seu nome. Além disso, há também uma estátua que a homenageia. O local é o ponto turístico mais conhecido da região e recebe milhares de turistas todos os dias. Recheada de lojas, restaurantes e bares renomados, a praça Maria Pita é perfeita para tomar uma cerveja gelada e sentir um pouco da atmosfera galega.

Destaque para o The Breen's Tavern (Praça Maria Pita, 24), que serve o renomado licor de café (3 euros cada dose). A bebida é derivada da aguardente e tem diferentes texturas. A receita leva grãos de café, açúcar, canela e casca de laranja. Seu sabor levemente adocicado é viciante. A praça Maria Pita fica cheia de gente no verão, que aproveita para apreciar um pôr do sol deslumbrante e degustar algumas boas doses da bebida.

 

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No ritmo da muñeira

Bar reúne grupos folclóricos que se apresentam ao vivo para locais e turistas

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2019 | 13h00

Nada em Coruña é mais tradicional do que a muiñeira. A música típica galega tem o pandeiro e a gaita como principais instrumentos. As batidas rápidas e dançantes fazem com o que o ritmo ganhe adeptos de todas as idades. Não se sabe ao certo quando a muiñeira foi criada.  Não se sabe ao certo quando a muiñeira foi criada. Há muitas histórias sobre a dança, mas os primeiros registros documentais são do século 18. Homens e mulheres que trabalhavam  moendo trigo e milho nos campos  aproveitavam o tempo livre para cantar e dançar ao redor dos moinhos.

Em Coruña, o mais popular e conhecido reduto da muiñeira é o bar A Repichoca (Rua Orillamar, 13). De quinta a sábado, o lugar conta com dezenas de grupos galegos. Além de apresentações ao vivo, os mais desinibidos podem arriscar  passos da dança ou mesmo aprender acordes da gaita galega.

Sempre na última sexta-feira do mês são realizados concursos para escolher a melhor banda de muiñeira. Bandeiras galegas decoram o bar de ponta a ponta e um clima descontraído toma conta do local nas noites de verão. Na página do Facebook do bar é possível assistir a algumas dessas apresentações.

Se você é daqueles que gostam de aprender novos idiomas ou ao menos algumas palavras ou expressões para saludar os moradores, A Repichoca é o lugar perfeito para isso. É bem comum ver jovens falando galego entre eles sem se preocupar muito se o interlocutor responde em castelhano ou em português.

 

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Para entender o galego

Num passado não muito distante, o castelhano era a língua das elites e o galego (muito similar ao português), dos pescadores e camponeses.

João Paulo Carvalho, Especial para o Estado

14 de setembro de 2019 | 13h00

Segundo informações da Real Academia Galega (RAG), há atualmente 2 milhões de pessoas falantes do galego para uma população de 2,7 milhões (toda a Galícia). Apesar do número expressivo, a língua é mais ouvida nos povoados e não em cidades grandes como Coruña e Vigo.

Num passado não muito distante, o castelhano era a língua das elites e o galego, dos pescadores e camponeses. Durante a ditadura de Francisco Franco, de 1936 a 1975, o galego foi banido das escolas. O governo temia que o aprendizado de idiomas locais pudesse estimular o separatismo.

O galego surgiu no século 12 como galaico-português. O reinos da Galícia e de Portugal, que eram separados pelo Rio Minho, no entanto, desenvolveram versões próprias do idioma. O galego é muito parecido com o português, mas há algumas diferenças. O galego usa o “x” em casos em que o português usa o “j” (como em xustiza, por exemplo). 

Anos depois, a Galícia foi incorporada à Espanha e o castelhano se transformou na língua oficial. Após a ditadura de Franco, todavia, a Galícia se tornou comunidade autônoma e voltou a reconhecer o galego como primeiro idioma. Em 1997, o uso do galego em documentos oficiais se tornou obrigatório. 

Minidicionário galego

Bom dia - Bos días

Boa noite - Boas noites

Cerveja - Cervexa

Obrigado - Grazas (ou graciñas)

Gente - Xente

Olá - Ola 

Justiça - Xustiza

Hoje - Hoxe

Longe - Lonxe

Mulher - Muller

Homem - Home

Cavalo - Cabalo

Mensagem - Mensaxe 

Mão - Man

Cachorro - Can

Lixo - Lixo

Cadeira - Cadeira

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Cidade realizou primeiro casamento lésbico da igreja

Fato ocorreu em 1901; hoje, cidade é referência no respeito à diversidade sexual

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2019 | 13h00

Coruña é uma das cidades espanholas que mais respeitam a diversidade sexual. Com boas opções de bares e baladas LGBT, o local ficou conhecido mundialmente por realizar o primeiro (e único) casamento lésbico dentro da igreja católica.

O episódio histórico aconteceu em junho de 1901. Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga se casaram na Igreja de São Jorge. Na ocasião, Elisa usou o nome de Mario e vestiu um terno masculino. Ela, na verdade, assumiu a identidade do primo, morto num naufrágio.

Marcela e Elisa se conheceram em meados de 1880 na escola de magistério da cidade. Por mais de uma década, as duas mulheres viveram juntas em diferentes regiões da província de Coruña. Mas, a partir do momento em que decidiram se casar, o anonimato acabou. 

Marcela casou grávida (não se sabe quem seria o pai da criança). Depois do casamento, os vizinhos perceberam a “fraude” e as denunciaram. A imprensa local deu início a uma intensa cobertura do caso, que teve grande repercussão não só na Galícia, mas também em Madri e em países como França e Bélgica

Diante do assédio da imprensa e da perseguição da Igreja e da polícia - a Justiça havia decretado mandado de prisão -, elas fugiram da Espanha e se mudaram para a cidade do Porto, em Portugal. Elisa, então, passou a se chamar Pepe.

Elas foram presas em Portugal, mesmo com Marcela grávida. Em 18 de agosto de 1901, a Espanha solicitou a extradição do casal e Portugal aceitou. Antes disso, no entanto, a filha de Marcela nasceu, e as duas conseguiram escapar novamente. Desta vez, rumo à Argentina, onde mudaram suas identidades. Em Buenos Aires, Marcela passou a se chamar Carmen e Elisa, Maria.

Depois de alguns meses, mais uma reviravolta. Elisa - que na Espanha se chamava Mario, em Portugal, foi Pepe e na Argentina, Maria - se casou. Desta vez, como mulher, e com um marido de origem dinamarquesa. Marcela foi apresentada como sua irmã.

O paradeiro da criança se perdeu, assim como o desfecho desta história e das duas mulheres. Não se sabe ao certo como ela terminou. Fato é que, desde junho de 2018, Coruña tem uma rua com os nomes de Marcela e Elisa no bairro central de San Roque.

A placa é um símbolo de resistência LGBT na cidade e recebe centenas de turistas todos os dias. Em 2020, a prefeitura de Coruña estuda promover um tour para mostrar os principais pontos desta fantástica história de amor, que virou até filme. O longa Elisa e Marcela, da diretora Isabel Coixet, pode ser visto na Netflix.

 

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