Louis-Michel Van Loo
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Bruna Toni
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As mulheres estão no mundo

Em obras do bicentenário Museu do Prado, mulheres de outrora têm destaque

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 de setembro de 2019 | 03h15

Há um verso de Paulinho da Viola que gosto muito. Na verdade, quase todos. Mas em especial aquele que diz que “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”. Porque é exatamente assim: elas estão aí, aos montes, prontas para serem descobertas. E dá até angústia pensar que a vida é demasiadamente curta para que se aprenda tudo. Até porque tudo sempre muda.

E é fato também que, quando se aprende algo que até ontem era novo para nós, esse algo começa a surgir em conversas cotidianas, na capa da revista, nas redes sociais, na vizinhança ao lado, como se sempre tivesse estado lá, na grande sala da sabedoria que temos dentro de nós. Foi assim que Sofonisba Anguissola, sobre quem nunca tinha ouvido falar até dois meses atrás, quando visitei o Museu do Prado, em Madri, despontou em minha vida para não mais sair. Pois agora, encontro sem querer o nome da artista renascentista do século 16 por toda parte.

Em meio à hegemonia de artistas homens predominante em quase todos os museus, o quadro da rainha Ana de Áustria de autoria feminina, claro, chamou minha atenção no Prado. E achei curioso, porque quando o encontrei, estava às voltas com algo que fui percebendo também ao longo da visita ao museu: a centralidade das mulheres em diversos retratos produzidos pelos artistas de outrora – artistas homens, inclusive.  

Em uma das salas do Prado, parei minutos em frente à obra A Família de Felipe V (1743), de Louis Michel van Loo. Nela, Isabel de Fernésio, a rainha e esposa de Felipe V, aparece vistosa no centro do quadro, chamando todas as atenções, enquanto seu marido é figura apagada, marcada pelo cansaço dos anos. Na mesma obra, Bárbara de Bragança aparece ao lado de Fernando VI, filho de Felipe V e seu primeiro sucessor. Leio no tablet com informações sobre a pintura que Bárbara era culta, afável, dominada pela sensibilidade artística e musical. E, vejam só, era tomada como exemplo pelo iluminista ibérico Jerónimo Feijoo, seu contemporâneo, para contrariar as teses da época sobre a inferioridade feminina. Como a sogra, parece ter exercido grande poder.

Bárbara foi uma Bragança do século 18. Da mesma família real portuguesa que, no século seguinte, veio parar no Brasil, fugida das tropas napoleônicas. Família que incluía outra portuguesa de gostos culturais refinados e que também se tornou rainha espanhola: Maria Isabel de Bragança. Essa filha de D. João VI e Carlota Joaquina, irmã do nosso D. Pedro I e esposa do rei Fernando VII – me pergunto se seria sina das Braganças amarem a arte e a Fernandos espanhóis, mas fiquemos só com as reflexões sobre a arte mesmo.

Maria Isabel de Bragança também está retratada em uma pintura exposta no Museu do Prado. E aparece sozinha, com justiça. Maria Isabel de Bragança fundadora do Museu do Prado (1820), de Bernardo López Piquer, é uma homenagem póstuma à mulher que idealizou a maior instituição artística da Espanha, cujo bicentenário é celebrado neste ano - veja um especial sobre: bit.ly/viaprado-200

Em A Família de Carlos IV (1800), de Goya, ocorre o mesmo: a rainha espanhola Maria Luisa assume todo o protagonismo da cena ao lado de seus filhos, entre eles, a futura rainha Bragança Carlota Joaquina – sim, em Portugal e Espanha é tudo em família. E teve ainda uma outra de Goya que me marcou muito, A XII marquesa de Villafranca pintando a seu marido (1804), em que a ilustrada e acadêmica María Tomasa Palafox aparece não posando, mas assumindo a ação artística.  

Claro, são todos retratos da força feminina aristocrática. Quero agora procurar por aqueles que trazem as mulheres trabalhadoras em seus cotidianos e lutas, como as que aparecem nos cartazes de propaganda contra a Guerra Civil Espanhola expostos na coleção permanente do também madrilenho Museu Reina Sofía. E vou começar pelo MASP, que até novembro recebe a exposição História das mulheres: artistas até 1900. Já sei que por lá reencontrarei mais uma vez Sofonisba. Porque, afinal, as mulheres estão no mundo. Só que é preciso aprendê-las. 

*Envie sua pergunta para viagem.estado@estadao.com.

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