As ótimas viagens do equinócio

miles@estadao.com

Mr. Miles, O Estado de S. Paulo

22 Março 2016 | 03h00

Como era de se esperar, alguns colecionadores de destinos contestaram, com veemência, o número apresentado por Mr. Miles, de 312 países viajados, incluindo os que existem e os que antes existiram na mesma localização geográfica. Nosso viajante lamenta não poder contentar a todos, mas informa que nos próximos 20 anos não pretende fazer qualquer tipo de recontagem, “por trabalhoso e chato que é”. Com fair play, diz que aceita qualquer tipo de cálculo sem discussão.

A seguir, a pergunta da semana:

Querido Mr. Miles: o outono está começando. É mesmo uma boa época para viajar? 

Eugênia Vasconcellos, por e-mail

Well, well, my dear, you’re absolutely right. Entramos naquele período do ano – tanto o vosso outono quanto a nossa primavera, no Hemisfério Norte – em que viajar é particularmente bom, embora, quando essa é a finalidade, eu não despreze qualquer estação.

Há inúmeras razões que justificam essa assertiva. A época do equinócio é, também, a época do equilíbrio. Dias e noites se parecem em tamanho. As temperaturas costumam (ou costumavam, antes do aquecimento global) ser mais próximas às que deixam nossos corpos confortáveis, as paisagens não devem ser muito áridas nem muito gélidas. As flores exalam aromas especiais na primavera e as frutas chegam à maturidade no outono. É tempo de plantar ou de colher. Albert Camus, escritor francês nascido na Argélia, costumava dizer que ‘o outono é outra primavera; cada folha é uma flor’. Nietzsche considerava que ‘o outono é mais uma estação da alma do que da natureza’.

Acho, indeed, que ambos tinham razão. Se alguns acham outono uma expressão ligada ao fim dos ciclos, ‘o outono de uma vida’, in my opinion a estação que ora se inicia no Brasil é um momento lindo para apagar os excessos do sol tórrido e das águas, de modo a trazer para a vida um pouco mais de introspecção e essência. 

Já a primavera é, como dizia Tolstoi, tempo de planos e projetos. E, claro, tempo de amar. Victor Hugo, que vivia na bela Place des Vosges, em Paris, perguntou certa vez: ‘se você não ama alguém de verdade, para que te serve a primavera?’.

Já Rainer Maria Rilke, a quem tive o prazer de conhecer em seus últimos anos na Suíça produziu, as I see, um dos mais belos versos sobre a estação. ‘É primavera’, disse ele. ‘A terra é como uma criança que conhece poemas de cor’.

Don’t you agree?

Para o turista comum, esses próximos três meses oferecem inúmeras vantagens. Como não se trata de um período de férias escolares, os preços são convidativos. Menos ardentes que os do verão, mais mornos que os do inverno. É quando vicejam novos ingredientes que elevam o sabor das culinárias e quando o sol, ligeiramente oblíquo, deixa o céu mais azul e aumenta o contraste das cores ao amanhecer e ao entardecer.

Yes, darling: mais uma vez, é hora de fazer as malas e percorrer o mundo. Veja os jornais: as ofertas de baixa estação vão se destacar nos anúncios. Mais e mais destinos voltarão a chamar a atenção. Haverá um sem-número de dicas para tornar suas férias mais atraentes e inteligentes. 

Só não mudam as condições nas menores latitudes, um tanto monótonas na época de muda, mas sempre aproveitáveis em sua proximidade com o sol.

Confesso que, em função dos novos ares, já mandei cerzir minhas meias, polir meus sapatos e umedecer o couro de minhas malas. Trashie tem bebido mais single malts do que usualmente e parece louca para rever o mundo com seus olhos que não veem – mas enxergam. Mandamos caiar nossa casinha no Condado de Essex e estamos prontos para ganhar a estrada.

Espero que vocês também estejam.” 

MR. MILES É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ELE ESTEVE EM 312 PAÍSES E 16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS.

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