As viagens e as redes sociais

Nosso insaciável viajante decidiu permanecer na Grã-Bretanha para aproveitar a grande nevasca que assolou o reino de Elizabeth II durante a última semana. "Depois de tantos anos de temperaturas em constante elevação, foi uma alegria para os olhos ver os campos do Condado de Essex ocultos pela manta branca do inverno. Minha companheira Trashie que, como todos sabem, é siberiana, pareceu reviver sua infância e correu, feliz, por toda a região. Mais tarde, of course, voltou ávida por uma boa dose de single malt. Tive, my friends, a inesperada sensação de que tudo voltou a ser como era, e de que, talvez, sejamos muito arrogantes ao considerar que, com nossas irresponsáveis atitudes, sejamos capazes de alterar o ambiente de todo um planeta."

O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2013 | 02h13

A seguir, a correspondência da semana:

Prezado mr. Miles: o senhor não acha que redes sociais como Facebook, Linkedin e outras estão, de certa maneira, incentivando as pessoas a viajar já que, através delas, é possível fazer amizades no mundo todo?

Daniel Dias Rodrigues, por e-mail

"Well, my friend: eis uma pergunta atual e pertinente. Em tese, a resposta deveria ser positiva. Você conhece um(a) amigo(a) na Itália, começa a corresponder-se com ele(a), acompanha, à exaustão, all his (hers) steps e cria uma fabulosa proximidade cibernética. Seria de supor que, therefore, você decidisse viajar para conhecer seu Facebook mate em um momento futuro - ou que o contrário ocorresse.

Don't you agree? Unfortunately, não sei precisar com que frequência essas amizades chegam a resultar em viagens. Mas li, recentemente, que os relacionamentos por redes sociais tendem a perpetuar-se exatamente como são: à pequena distância virtual e à perpétua distância real. Algo como se viu, if you remember, no delicado filme 84 Charing Cross Road que, no Brasil, virou Nunca Te Vi, Sempre Te Amei (1987). Nessa película, um livreiro inglês interpretado por meu velho amigo galês Anthony Hopkins corresponde-se com a personagem americana de Anne Bancroft. Trocando cartas (não havia Facebook à época, of course) eles se apaixonam profundamente sem, contudo, ter a oportunidade de se conhecer.

In my opinion, é mais difícil que aproximações desse tipo venham a suceder no intercâmbio de epístolas virtuais.

Antes das redes sociais, a correspondência com estranhos dava enorme espaço para a imaginação. Fantasias, projeções, sonhos. Hoje, however, está tudo na tela devidamente escancarado. É lamentavelmente fácil saber qual é a cara do seu correspondente em diversas situações (inclusive as mais lastimáveis), o que ele comeu no almoço, como se parece seu cachorro, e, até, my God, como são seus artelhos, já que virou moda tirar fotos na praia ou na piscina com os próprios pés em primeiro plano.

Não há espaço algum para a imaginação. As pessoas acabam não indo viajar para um encontro pessoal, I presume, porque já sabem tudo umas sobre as outras. Tenho conhecimento de que há exceções, das quais consolidaram-se amizades verdadeiras, casamentos e muitas decepções. Essas últimas, I'm sorry to say, derivam quase sempre do fato de que muitos usuários de redes sociais postam, a seu respeito, impressões e fotos que os fazem parecer melhores do que realmente são.

Por isso eu confesso, dear Daniel, que oldfashioned como sou, ainda prefiro primeiro viajar para então, no destino, fazer amigos. O método inverso ainda está repleto de falhas."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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