Bruna Toni/Estadão
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Tour da Experiência: cinco cidades para conhecer o Vale do Café no Rio

Projeto com roteiros pelo interior fluminense faz turista viajar pela história do Brasil Império, dos casarões do século 19 até a mesa sempre farta das antigas fazendas de café

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 05h00

Enfileiradas como bons soldados servindo ao Império, as dezenas de palmeiras de até 40 metros de altura formam um corredor natural entre o portão de entrada e o casarão. Silenciosas, acompanham o caminhar de um casal de braços entrelaçados, com trajes que os entusiastas de novas tendências dirão ser o que há de melhor no estilo retrô. Ao chegarem até nós, apresentam-se: “Somos o Visconde e a Viscondessa de Rio Preto, sejam bem-vindos à nossa casa, a Fazenda do Paraízo”.

É dessa forma que começa a viagem no tempo, ou melhor, o nosso roteiro pelo circuito histórico do Vale do Café, região do interior do Rio de Janeiro que ganhou projeção nacional durante o auge da produção cafeeira no Brasil, no século 19.

Dois séculos à frente do que viveu o casal de viscondes e numa área há muito sem café, a cena da nossa recepção é interpretada, na verdade, pelo historiador e guia turístico Adriano Novaes e pela gestora de turismo e guia Samantta de Souza. Vestidos a caráter e com linguajar de época afiado, os dois fazem parte de um grupo que realiza as tradicionais visitas teatralizadas em algumas fazendas da região.

Incentivados pelo projeto do Sebrae para promover o turismo com foco no período imperial batizado de Tour da Experiência, 18 estabelecimentos das cidades de Rio das Pedras, Valença, Vassouras, Barra do Piraí e Piraí criaram produtos que buscam resgatar a história do País entre 1822 e 1889.

Como resultado, atrações diversas que exigem no mínimo um fim de semana para serem curtidas com calma – a distância de São Paulo até Piraí, município mais próximo da capital paulista, é de 338 quilômetros. Ir de uma cidade a outra significa percorrer, em média, apenas dez quilômetros a mais.

O que se encontrará pelo caminho vale por um bom número de aulas de História, desde a preservação da memória material traduzida por objetos e construções de 200 anos atrás até a releitura de nossa gastronomia. Comer (muito) bem, aliás, é regra por lá, e qualquer passeio terminará com ao menos um cafezinho. 

Assim como os guias, os proprietários das fazendas muitas vezes se vestem como barões e baronesas para receberem seus visitantes. Acompanhados quase sempre por mulheres negras que ocupam papéis de serviçais sem voz, a situação gera incômodo. Consequência, talvez, da linha tênue que há entre a representação teatral de uma época e a reprodução de preconceitos enraizados na sociedade. 

Sentindo-se como uma sinhazinha garbosa, negra alforriada, visconde ou líder quilombola, fato é que a passagem pelo Vale do Café te fará viajar para muito além das estradas terrestres. 

SAIBA MAIS

Como chegar: de carro, melhor forma de circular no Vale, chega-se mais rápido pela BR-116, partindo de SP – são cerca de 4 horas. Do Rio, leva-se 2 horas.

Site: portalvaledocafe.com.br.

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 04h50

PIRAÍ - Sabe aquela história de que a feijoada foi um prato criado pelos negros escravizados com os pedaços de carne que eram dispensadas pela casa-grande? Pois tudo isso será desfeito em poucos minutos, antes do almoço na Casa do Manequinho, em Piraí.

Localizado no município mais próximo a São Paulo – são 338 quilômetros e cerca de 4 horas de viagem –, o hotel e restaurante entrou para o roteiro imperial pela cozinha. Numa releitura do prato mais popular do Brasil, nascido de fato no século 19, mas não na senzala e sim nas mesas dos restaurantes frequentados pela elite, a chef Ana Paula Hack, neta de Manequinho, inventou a feijoada de tilápia e macadâmia.

A presença do peixe e do fruto no prato tipicamente gordo não é um desaforo. Não em Piraí, principal beneficiador de tilápia do Estado do Rio e um dos principais produtores de macadâmia do País. Ainda assim parece não fazer sentido para o paladar? Espere até ver a cumbuca borbulhando com a feijoada, vencedora do Festival Gastronômico da cidade em 2002.

Feijoada de peixe? Para deixar o prato com a cara da região, sem perder o foco histórico, Ana Paula trocou o feijão preto pelo branco, os pedaços do porco por tilápia e linguiça defumadas e o torresmo por uma pururuca feita com a crosta do peixe. O arroz incorporou o aroma da laranja e a farofa é preparada com a macadâmia. Tudo acompanhado pela clássica caipirinha e por um licor – para iniciar os trabalhos – também de macadâmia. Custa R$ 33,90 por pessoa (R$ 70 se quiser toda a explicação histórica do prato) , todos os fins de semana ou em dias específicos mediante agendamento.

A simpática Casa do Manequinho, administrada pela irmã de Ana Paula, Letícia Hack, funciona também como hotel e oferece outros pratos além da feijoada (de R$ 18,50 a R$ 37). 

Antes ou depois de forrar o estômago, a parada por Piraí pode incluir ainda uma caminhada despretensiosa pela cidade – há o Parque Florestal Mata do Amador e o Lago do Caiçara, a Praça Getúlio Vargas e a Igreja de Santana, onde tudo começou, lá por volta de 1830.

Outro local interessante é o Condomínio da Arte, um projeto municipal criado em 1998 que oferece oficinas de diferentes tipos de arte e insere artesãos de Piraí no mercado de trabalho. 

Vale ainda checar se o Casarão de Arrozal, antiga sede da Fazenda Cachoeira, transformada em centro cultural, já voltou à ativa após as reformas.

AGENDA DE PIRAÍ

Festival de Caldos

Ocorre nas noites de quintas e sábados (para outros dias, agende) na Casa do Manequinho, entre 19h e 22h30. R$ 22,90 o bufê self-service com seis tipos de sopas. Até 31 de agosto.

HOTÉIS EM PIRAÍ

Hotel e Restaurante Casa do Manequinho: diárias de R$ 190 a R$ 250.

DISTÂNCIAS A PARTIR DE PIRAÍ:

SP - Piraí: 338 km

Rio - Piraí: 100 km

​Piraí- Barra do Piraí: 27 km

Piraí - Vassouras: 44 km

Piraí - Valença: 61 km

Piraí - Rio das Flores: 82 km

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 04h50

BARRA DO PIRAÍ - Enquanto na maioria das fazendas do Vale do Café a proposta é, depois da visita, sentar e comer como se não houvesse amanhã, na Fazenda Alliança a história é outra. Para além de preservar a memória da sociedade aristocrática do século 19, o local construído em 1863 e utilizado para fins comerciais pelo Barão do Rio Bonito hoje se dedica à produção agroecológica e orgânica. 

Isso significa que, entre outras coisas, antes de passar pelo casarão, pela antiga senzala e pela tulha – com maquinários originais –, há uma pausa para observar búfalos e cheirar, tocar e até provar plantas fitoterápicas do pomar e da horta.

Frescos e verdinhos, foi inevitável perguntar se seria possível levar um pé de alface, cenoura, cravo e cebolinha. “É pegue e pague”, explica logo André Oliveira, um dos sete funcionários da fazenda que fizeram um curso agrícola e cuidam de tudo por ali. Com eles trabalha a chef e historiadora Letícia Vitar, responsável pelo “inventário gastronômico” da Alliança e por nos guiar por suas dependências. 

“As pessoas eram mais saudáveis naquela época. (O que fazemos) está totalmente dentro do contexto histórico”, diz Letícia, pouco antes de atacarmos o Banquete do Império, uma releitura contemporânea dos quitutes que foram servidos a Dom Pedro II em sua visita à fazenda – ou você pensou que não teria a parte da comilança por aqui?

As visitas, que podem incluir trilhas, custam R$ 340 por pessoa e duram cerca de 3 horas. Mas fique de olho no calendário de workshops gastronômicos, sessões de massagem e ioga oferecidos no local. Para grupos fechados, ainda dá para se hospedar em suas sete suítes.

Na sala de aula. Não é exagero dizer que os proprietários das fazendas do Vale são sempre uma atração à parte. Cada um a seu modo, têm em comum o gosto pela recepção e o orgulho de cada cantinho, cada objeto, cada fato ocorrido no local que escolheram para viver e trabalhar.

Uma das mais interessantes personagens do circuito é, sem dúvida, Magid Breves Muniz. Dona da Fazenda São João da Prosperidade, construída entre 1820 e 1830, a professora primária abusa do talento para explicar e contar histórias nas visitas guiadas que realiza, vestida, claro, como uma elegante senhora baronesa.

Com uma régua nas mãos, diante de uma planta do casarão – único prédio original que restou – e de uma turma de “alunos” atentos, Magid explica cada detalhe do espaço com 15 quartos, seis salões, pátio interno, cozinha e terreiro de café. Banheiros? “Só apareceram aqui por volta de 1870”, conta.

Da teoria à prática, adentramos a casa, onde, “com todos os remendos, remendinhos e remendões de seus 200 anos”, está preservada a essência do lugar. Das fotografias à capela de bancos baixos, as memórias privadas de seus antigos e atuais donos e funcionários vão se misturando à própria memória nacional. 

Já do lado de fora, uma pequena trilha que leva às ruínas da senzala, mantida em tributo aos escravos, se encarrega de lembrar as leis abolicionistas e reforçar o legado cultural deixado pelos africanos no Brasil (essa parte do passeio exige, no mínimo, 10 pessoas para ocorrer). 

A partir de R$ 40 por pessoa, a visita pela Prosperidade dura 2 horas e pode terminar com um belo retrato da família em trajes de época – e com comprinhas na loja de artesanatos e produtos da roça mantida por Magid (leve dinheiro já que por lá não há maquininha de cartões).

Mais lugares.  Outra boa parada em Barra do Piraí é o Empório dos Arcos. Além de fornecerem os produtos de sua loja para as atrações do tour, promovem jantares harmonizados e degustação imperial para grupos.

AGENDA DE BARRA DO PIRAÍ

Festa Junina

Ocorre aos sábados na Fazenda Ponte Alta, a partir das 19h. R$ 70, sem bebidas. Até agosto.

Festival Vale do Café (veja programação completa aqui

22/07 - Fazenda Alliança - 16h (com visita guiada a partir das 14h30).

30/07 - Fazenda Taquara - 11h (com visita guiada a partir das 10h).

31/07 - Fazenda São João da Prosperidade - 11h (com visita guiada a partir das 9h30).

31/07 - Fazenda Ponte Alta - 16h (com visita guiada após o concerto).

HOTÉIS EM BARRA DO PIRAÍ

Fazenda Alliança: fecha pacotes apenas para grupos fechados.

Fazenda Ponte Alta: R$ 305 a R$ 895 diária por pessoa.

Pousada Brisa do Vale: R$ 275 a R$ 330 diária por casal.

DISTÂNCIAS A PARTIR DE BARRA DO PIRAÍ:

SP - Barra do Piraí: 361 km

Rio - Barra do Piraí: 125 km

Barra do Piraí - Vassouras: 22 km

Barra do Piraí - Piraí: 27 km

Barra do Piraí - Valença: 35 km

Barra do Piraí - Rio das Flores: 52 km

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 04h50

VASSOURAS - “E você, senhorzinho garboso? Fiquei sabendo que foi para a Europa estudar fora? Tá gastando o dinheiro que senhor barão amealhou com o café da nossa região, não é? Ora veja”, disse a negra alforriada Mariana Crioula a um dos jornalistas de nosso grupo que, ao que sabemos, não tem parentesco com barões. 

De branco dos pés à cabeça, com um tecido colorido cobrindo parte da roupa e um leque nas mãos, Mariana Crioula é a personagem de Andreia “Pit”, apelido dado à guia alto-astral de Vassouras – Pit é a abreviação para Posto de Informações Turísticas. 

Trazendo os visitantes para dentro do Império, ela abusa do linguajar antigo em diálogos fantasiosos, conta causos e canta tradições africanas enquanto explica a formação do município de 34 mil habitantes. Por ali passava o ouro levado de Minas Gerais ao Rio de Janeiro no século 18 e, posteriormente, muito café. 

Ter a agradável companhia de Andreia no passeio não custa nada: basta estar em frente à Igreja Nossa Senhora da Conceição de Vassouras aos sábados, às 9 horas, ou agendar um horário. Mesmo sozinho, porém, vale caminhar pelas ruas que descem da igreja erguida em 1828 até o prédio da Câmera Municipal, observando os casarões antigos, como o do Barão de Vassouras. Não deixe ainda de visitar os hotéis Mara Palace e Santa Amália, com estrutura simples e programas indispensáveis.

Fundado por Francisco Teixeira Leite, filho do Barão de Vassouras, em 1870, o Mara Palace faz uma homenagem a Eufrásia Teixeira Leite, primeira mulher a entrar na Câmara de Comércio, no século 19, e namorada de Joaquim Nabuco. Contada por uma cordelista e um violinista, a história de Eufrásia termina com um banquete inspirado em receitas do Império e da belle époque. Dura 2 horas, custa R$ 80 por pessoa e exige agendamento. 

Para além dos salões da nobreza, a proposta no Santa Amália é resgatar a cultura africana. Com datas fechadas – em agosto, de 26 a 28 –, o Batuque do Quilombo, Cozinha da Baronesa começa com roda de capoeira, maculelê ou jongo e degustação de petiscos no jardim. Depois, todos entram para o jantar da realeza, com decoração imperial e menu elaborado pela historiadora Ana Roldão. Sob agendamento; R$ 130.

Por terra. Na cidade e nas fazendas da região, quem mandava era a linhagem do Barão de Vassouras. Uma das que pertenceram à família e está aberta à visitação é a Cachoeira Grande, sobre a qual Ignácio de Loyola Brandão escreveu, inclusive, uma crônica no Estadão, Tarde de Tango Entre Montanhas

São os moradores e donos do local, Núbia Cafarelli e Jorge Japper, que se encarregam de nos guiar pela casa de 1.200 metros quadrados, com direito a palhinha no piano da capela e a ver a espreguiçadeira que (dizem) pertenceu a Dom Pedro II. As visitas são sob agendamento, às 11 e 15 horas; R$ 70 por pessoa, com café no final.

Única fazenda tombada pelo Iphan pela qual passamos, a Santa Eufrásia foi fundada em 1830 e pertencente à família de nossa anfitriã, Elizabeth Dawson, desde 1905. Entre seus três salões e sete quartos, mobília original, paredes de pau a pique e comidinhas preparadas pela própria Beth, que se veste de baronesa para recepcionar os visitantes. Ali, histórias de quem morou a vida inteira na fazenda se confundem com a do Vale do Café.

Além das visitas guiadas (R$ 35 às segundas-feiras, 10 horas; R$ 45 agendadas), seu vasto jardim permite fazer um piquenique à moda de Dom Pedro II (R$ 55). Por ali também há pés de café, cuidados e comercializados por Beth, talvez a mais "baronesa" de todas no vale em que, de café, só restou o nome.

AGENDA DE VASSOURAS

Festa Junina

Ocorre aos sábados no Hotel Santa Amália; R$ 50. Até julho.

Lançamento Coletânea: Arquitetura no Brasil, de Cabral a Figueiredo

Ocorre no dia 15 de julho no Mara Palace, a partir das 19h, com palestra sobre arquitetura no Vale do Café. Depois há visita guiada pelo centro histórico. 

Tarde de Música na Fazenda

Ocorre no dia 16 de julho na Fazenda Cacheoira Grande, a partir das 15h. O evento inicia com visitação à casa sede; às 16h o pianista Marcos Ariel apresenta o pocket show “História da Música no Brasil”, com repertório de choro, compositores clássicos, MPB e Bossa Nova. Ao final da apresentação é servido lanche colonial.

Noite de caldos na Vila Hibisco

Ocorre toda quinta-feira de julho e primeira quinta-feira de agosto no Vila Hibisco Hotel, das 19h às 22h. R$ 42 por pessoa, self-service.

Festival Vale do Café (veja programação completa aqui

24/07 - Fazenda Cachoeira do Mato Dentro - 16h (com visita guiada a partir das 14h).

29/07 - Fazenda Mulungo Vermelho - 16h (com visita guiada a partir das 14h30).

30/07 - Fazenda São Luiz da Boa Sorte - 16h (com visita guiada a partir das 14h).

HOTÉIS EM VASSOURAS

Mara Palace Hotel: diárias de R$ 209 a R$ 500.

Hotel Santa Amália: R$ 502 o casal com pensão completa.

Fazenda Cachoeira Grande: R$ 400 a R$ 650 a diária com café da manhã e lanche da tarde. 

DISTÂNCIAS A PARTIR DE VASSOURAS:

SP - Vassouras: 371 km

Rio - Vassouras: 121 km

Vassouras - Barra do Piraí: 22 km

Vassouras - Valença: 33 km

Vassouras - Piraí: 44 km

Vassouras - Rio das Flores: 51 km

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 04h50

VALENÇA - Reunidos na sala, um barão conta ao outro da possível passagem de Dom Pedro II e Tereza Cristina por Valença em meio a conversas sobre o ciclo do café e da borracha no País e de paradas para um número de Bach no piano. Era fim do século 19 e, já doente, o imperador lidava com a pressão dos republicanos.

Centenas de anos depois, a cena, cuja história parte de um fato real, é reproduzida no palco do Hotel Fazenda Florença. Além de oferecer hospedagem e visitas guiadas ao seu casarão, um prédio de arquitetura neoclássica italiana, erguido em 1852 pelo Barão de Ariraca, o local promove saraus e jantares temáticos.

Idealizados por seu dono, Paulo Roberto, os saraus contam com a participação de atores amadores. São funcionários da fazenda, músicos, empresários, professores de História dedicados a narrar momentos do Brasil por meio de personagens emblemáticos como Santos Dumont, Dorival Caymmi e, a partir de 22 de julho, Clementina de Jesus. 

Depois da apresentação, seguimos a uma área reservada no restaurante, onde já nos esperavam Dom Pedro II e Tereza Cristina. Sim, eram duas esculturas. Mas, feitas em tamanho real, ambos pareciam mais um de nós. Olhando nos olhos azuis do imperador, provei mais de dez pratos, todos inspirados nas preferências do casal da nobreza, incluindo canja de galinha e coxinha de frango.

Os preços variam de acordo com as atividades e o tamanho da fome: de R$ 43 para a visita guiada, sem lanche, a R$ 290 para o trio visita-sarau-jantar.

Memória escrita. De volta ao mundo das novelas, foi diante de um dos cenários da novela A Viagem (1994) que começou nossa visita pela Fazenda Vista Alegre

O espaço que vemos hoje teve início em 1820, com a chegada do Visconde de Pimentel às terras do atual distrito de Conservatória, em Valença. A casa passou às mãos da família do simpático casal Vera Willmann de Mattos e Délio Aloísio de Mattos Filho em 1980. 

Mantida original por fora e, em grande parte, por dentro, sua sede preserva detalhes preciosos na decoração, como o piso de jacarandá e o colorido dos barra-tetos de cada cômodo. Entre seus objetos – parte do século 19 –, um pequeno número de documentos e recortes de jornais chamam a atenção. Eles registram fatos da Vista Alegre que nos colocam, pela primeira vez, diante da memória escrita da região.

Do lado de fora, além dos belos jardins, mais duas particularidades: o prédio onde funcionava a Escola dos Ingênuos, dedicado a ensinar arte e música aos negros que trabalhavam ali no século 19, e a cocheira construída por Délio para abrigar espécies de cavalos puro sangue - é possível contemplá-los, mas montá-los só para quem é cavalheiro profissional.

Hoje, além das visitas guiadas de sexta a domingo, às vezes com alguma apresentação musical no pacote (de R$ 45 a R$ 130 por pessoa), o local também recebe hóspedes em um dos seis quartos do casarão, dos quais apenas três são suítes – legado de uma época em que banheiros não eram considerados tão necessários assim à vida cotidiana.

AGENDA DE VALENÇA

Festival de Caldos

Ocorre nas noites de quintas e sábados (para outros dias, agende) na Casa do Manequinho, entre 19h e 22h30. R$ 22,90 o bufê self-service com seis tipos de sopas. Até 31 de agosto.

Festival Vale do Café (veja programação completa aqui

22/07 - Fazenda Florença - 11h (com visita guiada a partir das 9h).

23/07 - Fazenda Vista Alegre - 16h (com visita após o concerto)*.

30/07 - Fazenda da Taquara - 11h (com visita guiada a partir das 10h).

*Ingressos disponíveis apenas para quem estiver hospedado no local.

HOTÉIS EM VALENÇA

Hotel Vista Alegre: de R$ 300 a R$ 350 o casal com café da manhã.

Hotel Fazenda Florença: de R$ 1.158 a R$ 1.870 o fim de semana, com pensão completa, por casal.

DISTÂNCIAS A PARTIR DE VALENÇA:

SP - Valença: 381 km

Rio - Valença: 163 km

Valença - Rio das Flores: 18 km

Valença - Vassouras: 33 km

Valença- Barra do Piraí: 38 km

Valença - Piraí: 61 km

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Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

12 Julho 2016 | 04h50

RIO DAS FLORES - O lugar tinha algo de familiar. Não que esta repórter seja uma exímia noveleira, mas sabia já ter visto a atriz Alinne Moaraes naquele portão. Frequentemente requisitada como cenário de gravações – as novelas Um Só Coração e Além do Tempo, da TV Globo, estão na lista –, a Fazenda do Paraízo é uma das melhores representantes do que era a vida no campo no século 19.

Erguido a mando do Visconde de Rio Preto entre 1845 e 1853, seu suntuoso casarão de 2.200 metros quadrados, 58 cômodos e 24 quartos mantém preservados seus quatro ambientes: comercial, de serviço, social e o íntimo, único onde o público não chega. É que ali estão os aposentos dos atuais donos da fazenda, Simone e Paulo Belfort.

Em 1912, os Belfort de Juiz de Fora compraram a fazenda da família do Visconde de Rio Preto para criar gado, sua principal atividade até hoje. Mas, sob o comando do casal quatro gerações mais tarde, a Paraízo passou a receber também turistas.

O privilégio de conhecer a Paraízo está no reluzente piso de jacarandá do segundo andar; no quadro que retrata a Baía de Guanabara, ainda limpa; no galpão onde está o maquinário trazido dos Estados Unidos em 1863 para otimizar a produção de café; na cozinha com fogão a lenha onde Simone, séculos depois, ainda passa o café. Guiadas pelo casal, as visitas duram 2 horas e custam desde R$ 70. As teatralizadas ocorrem aos sábados, às 15 horas.

Coisa de colecionador. A viagem no tempo na Fazenda União começa pelo paladar, com pratos preparados pelo chef Leandro Monteiro no fogão à lenha de 150 anos, como a feijoada de sábado. 

Além do restaurante e de atividades típicas de hotéis-fazenda (piscina, tirolesa, passeio de charrete...), a União é um verdadeiro antiquário, fruto da paixão de seu proprietário, Mário Vasconcellos Fernandes, por objetos antigos. A maior parte das peças é dos séculos 18 e 19 e está espalhada pelo casarão (a coleção de pratos de porcelana com brasões é de cair o queixo) e por espaços como o pequeno, mas rico, Museu de Arte Sacra. 

A senzala deu lugar a uma sala dedicada à memória africana no Brasil. Sem aviso, entrei no local, escuro, atraída pela curiosidade. Tamanho foi o susto ao ver um homem negro de meia idade sentado no chão de terra, com as veias dos pés sobressaltadas e expressão de sofrimento. Precisei de alguns segundos para entender que se tratava de uma escultura de resina. O susto passou – o incômodo, não.

Jeronimo Magalhães é o autor das esculturas que retratam as situações a que eram submetidos os escravos. Para não-hóspedes, há visitas guiadas com almoço às quintas (14h; R$ 90) e sábados (11h30; R$ 100), dia em que ocorrem saraus com guias interpretando personagens de época. Há ainda apresentações de capoeira, maculelê e outras tradições com a Associação Afro Angola-Congo (19h; R$ 100, com jantar).

Mais lugares. Além de fazendas e hotéis, o Tour da Experiência inclui outros tipos de estabelecimentos. É o caso da Florart, uma cooperativa de 55 artesãos em Rio das Flores que produz e vende bordados à moda da baronesa.

AGENDA DE RIO DAS FLORES

'Arraiá do Visconde'

Ocorre aos sábados na Fazenda União, a partir das 20h. R$ 100, sem bebidas. Até 20 de agosto.

Festival Vale do Café (veja programação completa aqui

23/07 - Fazenda Guaritá - 11h (com visita guiada a partir das 10h).

29/07 - Fazenda União - 11h (com visita guiada a partir das 9h30).

HOTÉIS EM RIO DAS FLORES

Fazenda União: pacote com duas diárias e pensão completa de R$ 1.160 a R$ 2.200.

DISTÂNCIAS A PARTIR DE RIO DAS FLORES:

SP - Rio das Flores: 398 km

Rio - Rio das Flores: 193 km

Rio das Flores - Valença: 18 km

Rio das Flores - Vassouras: 51 km

Rio das Flores - Barra do Piraí: 56 km

Rio das Flores - Piraí: 82 km

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