Ausências e recompensas

Lamentando apenas ter de deixar sua mascote Trashie no Real Canil dos Windsor por pequena temporada, nosso correspondente, como sempre acontece em períodos de crise, decidiu enfiar seus binóculos em uma mochila e partiu para a Zâmbia. Supõe-se que, a esta altura, esteja percorrendo o magnífico Parque Nacional Luangwa em atenta e platônica caça aos pássaros locais, que são inúmeros. Antes de retornar a Londres, mr. Miles passará ainda por Livingstone para contemplar as Victoria Falls "de uma perspectiva zambiana".Sua mais recente correspondência é anterior ao embarque rumo à África. Nela, o viajante britânico esclarece ao leitor Paulo Tsai que a companhia aérea low fare low cost em que vivenciou divertidas experiências a bordo, incluindo trilha sonora especial e jogos de azar, existe, sim, e se chama Ryanair. "Crazy Irish people", diverte-se mr. Miles. A seguir, ele responde à pergunta da semana:Olá, mr. Miles! Tudo jóia? Tenho duas perguntas: o que você gostaria de fazer que as viagens constantes não permitem? Quais as recompensas que justificam a sua escolha (ou destino) de ser viajante? Ramiro Béccheri Cortez, por e-mail"Well, my friend, it?s everything jewel, indeed! Quanto às suas perguntas, tentarei respondê-las com objetividade. O que eu gostaria de fazer que as minhas viagens não permitem? Minha resposta é nada. Absolutamente nada. É claro que como, unfortunately, não tenho o dom da onipresença, há sempre alguém, em alguma outra parte do mundo, que me faz falta em determinada situação ou conversa. Há lugares e sentimentos que me remetem a mulheres maravilhosas, as quais, confesso, chego a beijar e acarinhar na própria ausência. Há outros momentos em que velhos e fabulosos amigos poderiam estar dividindo impressões comigo, mas eu os substituo pelos que tenho no lugar. Não sinto falta do que deixei, porque sempre tenho a opção de voltar. A partida e a chegada fazem parte da natureza dos viajantes assim como a acuidade forja os melhores cirurgiões e a referência modela os grandes causídicos.As únicas coisas que, de fato, deixo para trás quando parto mundo afora são algumas contas a pagar (tarefa há décadas cumprida com precisão por minha tia Melinda) e meus parcos bens materiais, que são apenas garrafas e livros. Confesso que, sometimes, há um ou outro jogo de futebol que gostaria de ver ao vivo e que me faz muita falta. De qualquer forma, sempre que posso vou a um pub para não perder a porfia - e essa alternativa, my friend, está se tornando cada dia mais possível em lugares tão remotos que você nem imagina. Sobre as recompensas que justificam a minha escolha de ser viajante, tenho outra resposta objetiva: nenhuma. Viagens não são indenizações ou prêmios (exceto, of course, aquelas que substituem os bônus nas empresas). O ato de explorar o planeta e considerá-lo como extensão natural de seu yard, sua rua, sua cidade e seu país é um direito inalienável de qualquer terráqueo. Os que não o fazem, my fellow, não passam do primeiro parágrafo da mais bela das histórias. Don?t you agree?" * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territóriosultramarinos. É colunista e conselheiro editorial da revista ?Próxima Viagem?

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2008 | 02h48

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