Giovanna Tucci/Estadão
Giovanna Tucci/Estadão

Azul Curaçau

Simpática - e bonita - por natureza, ilha emana um espírito cosmopolita que se traduz na mistura de idiomas ali falados e na hospitalidade de seus moradores

GUSTAVO COLTRI / WILLEMSTAD, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2013 | 02h10

À noite, quando a escuridão encobre as águas cristalinas do mar caribenho, Curaçau mostra-se com mais clareza, sem se resumir a um conjunto de praias paradisíacas ou ao berço de um licor mundialmente famoso. As luzes artificiais das casas coloridas da capital Willemstad - decretadas Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco - saltam aos olhos de quem observa a paisagem sobre a ponte Rainha Juliana, que atravessa a baía de Santa Ana.

É ela que une Punda e Otrobanda, os dois principais bairros do centro histórico. Os prédios coloniais reluzem sobre o cais ocupado por bares na beira do canal e por embarcações de variados tamanhos, inclusive transatlânticos que despejam ali milhares de turistas a cada temporada.

Com uma população de 150 mil habitantes, Curaçau tem arraigado em si um espírito cosmopolita que transcende a beleza das praias. O papiamento (veja o glossário abaixo), idioma tradicional da região, é uma mistura curiosa de línguas, com pitadas de holandês, dialetos africanos, inglês e traços de latinidade. Ler os anúncios das lojas de Punda, o centro comercial da ilha, é uma experiência confusa - mas muito divertida.

Na escola, as crianças aprendem inglês - útil para a atividade turística que movimenta a economia local -, além de holandês, o idioma oficial ao lado do papiamento, e espanhol. A vocação para a hospitalidade é incentivada desde cedo em Curaçau.

Além de fomentar a atividade turística por excelência, o relacionamento externo é importante porque o clima seco e constantemente acima dos 30 graus na ilha dificulta culturas agrícolas diversificadas e de grande escala - a piada entre os locais é de que eles não produzem nada além dos próprios filhos.

Mesmo a água disponível para consumo nas torneiras só é potável porque passa por um processo de dessalinização que a torna muito cara. E o solo, bem, o solo é tão rochoso que dificulta até o enterramento dos mortos.

Quase tudo por lá é importado. Pudera. Os alimentos frescos chegam em pequenos barcos vindos da Venezuela, a pouco mais de 56 quilômetros de distância. Nos tempos de colonização, houve, porém, plantações de cana movidas pelo trabalho escravo.

Abolida no século 19, a escravidão é lembrada por onde se passa. Além das antigas e coloridas casas de plantações, estátuas brancas de punhos cerrados e sem amarras surpreendem os turistas na beira da estrada, entre vegetações espinhentas.

Nas proximidades de Kenepa, a mais bela das praias locais, há um museu onde um dia funcionou uma propriedade produtora de cana. Ele é dedicado ao escravo Tula, decapitado em 1795 por tentar iniciar uma revolução.

Já a fazenda Komedor Kriyoyo, outra antiga casa de engenho, abriga hoje um restaurante rústico que mantém o clima do passado. Enquanto a antessala é decorada com peças antigas, no salão principal são servidas iguarias tradicionais da ilha.

Alguns pratos típicos impressionam mais pelo nome do que pelo gosto. Há refeições à base de peixes e carnes comuns ao paladar brasileiro. Mesmo assim, um ou outro pedido pode surpreender. O tutu regional destaca-se pelo sabor adocicado, e a sopa de iguana, pela excentricidade do principal ingrediente.

Certa autonomia. Maior ilha das chamadas Antilhas Holandesas, com 61 quilômetros de extensão, Curaçau tornou-se há dois anos território autônomo ligado à Holanda - em 2012, elegeu seu segundo parlamento. O vínculo com o país europeu é essencial para manter a saúde das contas externas e as condições de vida locais, já que a nação ainda carece de ações beneficentes da coroa. O salário mínimo é de US$ 700, aproximadamente 1.240 florins, a moeda oficial.

Os laços com os holandeses, ex-colonizadores, seguem fortes. Além de turistas desinibidos, vários deles vivem na ilha - a maioria ocupa cargos de chefia e há também estudantes subsidiados por estágios governamentais.

Em cada bairro, há uma igreja, uma escola e um cemitério, normalmente reunidos - sinal da fé católica que domina aquelas terras até hoje. Oito entre dez habitantes da ilha submetem-se às regras do Vaticano. No entanto, Curaçau é também sede da mais antiga sinagoga ainda em funcionamento das Américas, batizada de Mikve Israel-Emanuel.

Os nativos são tão acolhedores quanto um povo dependente de estrangeiros deveria ser. Sorriem com facilidade e adoram dançar, de preferência colados aos parceiros. Envolventes ritmos caribenhos embalam as noites. A parte mais festiva da hospitalidade cultivada desde o berço.

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