Mônica Nóbrega/Estadão
Mônica Nóbrega/Estadão

Banquete de rei em casa do século 18

A Quinta Dona Maria – Júlio Bastos é uma vinícola na cidade de Estremoz, 50 quilômetros a nordeste de Évora

Mônica Nóbrega, O Estado de S. Paulo

09 Maio 2017 | 04h30

Sentada à cabeceira da mesa posta para seis pessoas – toalha rendada, louça branca de bordas douradas, castiçais de um metro de altura – Isabel Bastos comanda o brinde. Abre, assim, o imponente almoço no salão do palácio do século 18 que, por acaso, é também a sua casa. Nos copos, o vinho branco Dona Maria Amantis 2013. 

Amantis é um intermediário no catálogo de uma dúzia de rótulos da Quinta Dona Maria – Júlio Bastos, vinícola na cidade de Estremoz, 50 quilômetros a nordeste de Évora. A adega é de porte médio, produz 450 mil garrafas por ano. E a graça de visitá-la, para além das degustações, está tanto nas relíquias do passado quanto na intriga amorosa que abrigou. 

Nos primeiros anos do século 18, o então rei de Portugal e Algarves, d. João V, comprou a quinta para dar de presente a Dona Maria, sua amante ou cortesã, como se dizia, por quem estava apaixonado, a despeito de seu casamento oficial com a princesa austríaca Maria Ana de Áustria. Anos depois, em 1752, foi inaugurada na propriedade uma capela consagrada a Nossa Senhora do Carmo, motivo pelo qual o local é também conhecido como Quinta do Carmo. 

Na linda capela começou a visita à vinícola. Há acabamentos em mármores cinza, branco e rosa, todos da região, e azulejos portugueses daqueles mais típicos, brancos e azuis, que compõem painéis com imagens sagradas e de feitos heroicos da realeza.

A quinta produz vinho há cerca de 150 anos. O atual proprietário, Júlio Bastos, faz vinhos comerciais no local desde 1988. Depois de mais de uma década associado a uma grande empresa do ramo, implantou em 2003 uma nova proposta, que fez surgir ali uma adega-butique, de vinhos mais autorais. 

Em um grande galpão ainda são conservados seis antigos lagares de mármore. Estes tanques ainda hoje são usados para a pisa artesanal das uvas recém-colhidas. Tudo está restaurado, e as dependências da adega foram ampliadas para criar novos espaços como a sala de degustações. É nela que Isabel Bastos apresenta nove opções dos vinhos da marca. 

O último deles é o excelente Júlio B. Bastos 2012, um alicante bouschet que leva o nome do pai do proprietário da adega. É o xodó da casa. 

 

Fartura. Isabel, naquele dia, almoçou também. A dona da casa guia pessoalmente todos os grupos que visitam a propriedade – por isso, não há como ir sem agendamento. “Às vezes, peço desculpas e não como, senão são muitas refeições num dia só”, contou. 

O almoço foi farto, de acordo com o costume alentejano. A sopa de tomates com ovo de gema mole da entrada veio em porção suficiente para ser, sozinha, uma refeição. Em seguida, o folhado de queijo de cabra com mel e amêndoas foi servido com o tinto Dona Maria Amantis Reserva 2013. Sobre os tintos, a anfitriã reproduziu o comentário de Júlio Bastos, seu marido. “A safra de 2015 foi a melhor da vida dele.” As garrafas da “melhor safra da vida”, no entanto, devem ser vendidas só a partir de 2018. 

O prato principal, lombo de bacalhau com couve portuguesa e batatas foi devorado mais por vontade do que por fome, na companhia do tinto Dona Maria Grande Reserva 2011. Para encerrar, ainda foi apresentada uma mesa com quantidade exagerada de doces portugueses, frutas e queijos regionais. 

Antes de se despedir, Isabel mostrou o jardim nos fundos do terreno. Caminha-se entre palmeiras de mais de um século e árvores frutíferas para chegar a um gazebo com bancos e, por último, ao antigo tanque que armazenava água para a rega – agora usado como piscina. A visita guiada com almoço custa 140 euros por pessoa: donamaria.pt.

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