Barbaridades e excursão

Acaba de sair o 13.º volume da coleção de passaportes encadernados do homem mais viajado do mundo. Como os outros doze, esse também foi encadernado pelo ancião de Alepo, na Síria, que finalmente foi reencontrado no interior da Geórgia por um compadre de mr. Miles. Foi ele mesmo, aliás, que nos contou sobre o fato em um e-mail carregado de orgulho. "Perdoem-me a excitação, my friends, mas já não sou tão moço, tenho minhas pequenas extravagâncias e essa é uma delas. Carimbos e vistos podem pontuar uma vida inteira, além de revelar o capricho do país que os emite. Sei que, well, é um contrassenso o fato de eu odiar burocratas e apreciar carimbos. Mas atire a primeira pedra quem só se pauta pela coerência!" Do sul da Itália, onde foi buscar os vinhos de uma reserva na pequena (e nunca revelada) vinícola que abastece parte de suas adegas, Miles respondeu aos leitores:

O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2012 | 02h08

Mr. Miles, qual foi a maior barbaridade que o senhor já viu um turista cometer durante uma viagem? Mario Caputto, São Paulo

"Mario, my friend, modestamente eu poderia escrever um compêndio sobre o tema. Viajantes sem informação ou sem educação multiplicam-se como baratas. Ainda ontem, caminhando pelas ruas de Nápoles, tive meu olhar atraído por duas moças de curvas insinuantes e pele cor de canela. Yes: elas eram cariocas. Estavam no terraço de uma pizzaria e tive ganas de me aproximar para matar saudades das tardes de luz no Arpoador, quando ajudei Antonio (N. da R.: Antonio Carlos Jobim, maestro e compositor brasileiro) a compor algumas de suas canções.

Cheguei a tirar o chapéu para apresentar-me quando percebi que as princesinhas do mar cortavam uma autêntica pizza napolitana em quadradinhos, untavam-nos com ketchup e comiam-nos com as mãos, como se fossem canapés. Disgusting, my friend.

Mas há barbaridades piores. Minha saudosa Agatha (N. da R.: Christie, a escritora) disse-me, certa vez, que, quando esteve no Egito, viu turistas arrancando lascas da pirâmide de Quéops para levá-las de lembrança. Lembro-me de seu comentário: 'Foi nesse dia que compreendi que eu poderia ter sido uma assassina tão frívola quanto muitos de meus personagens'.

O capitão Gunnar Olafsen, um dos melhores navegadores que conheço, contou-me, num bar em Oslo, que um dos passageiros do seu navio - luxuosa embarcação de cruzeiros - foi apanhado urinando da amurada do 12.º deck; outro, sabe-se lá por quê, castrou uma estátua romana do lobby principal. Como você vê, Mario, unfortunately, o homem é um ser imperfeito, ainda que fascinante.

Mas temo que a maior barbaridade que já presenciei nessas andanças tenha ocorrido no Museu Reina Sofia, em Madri. Vi dois americanos numa pequena fila diante do inigualável Guernica, de Picasso. Quando ficaram de frente para o quadro, believe me, o mais jovem regurgitou o seguinte comentário: 'Mas esse é o famoso Guernica? Em preto e branco?'. E saiu, desgostoso como se faltasse mostarda em seu hot-dog. Disgusting, isn't it?"

Nunca viajei para a Europa e não sei se vou ter outra oportunidade, porque já tenho idade avançada. O senhor acha que eu deveria me aventurar sozinha como o senhor ou é mais inteligente viajar numa excursão, dessas que visitam muitos países em poucos dias?Antonia B. Lavalle, Belo Horizonte

"Well, mrs. Lavalle, eu diria que o seu dilema é justo e recorrente. Vou aconselhá-la com base em suposições, já que pouco sei a seu respeito. Como a senhora não usa o plural, devo supor que vai viajar sozinha. E, I'm sorry to say, o próprio teor de sua questão embute certo receio do desconhecido. Ora, milady, temo que seja um pouco tarde para começar uma carreira solo.

Por principio, sou inimigo dessas viagens organizadas com agenda apertada. Olha-se muito, vê-se pouco. Não há como provar o sabor específico de cada lugar, tampouco como aspirar os aromas que as cidades possuem (yes, mrs. Lavalle, believe me: as cidades têm perfumes próprios e intransferíveis. Com o tempo e a experiência, a gente aprende a distingui-los e saboreá-los com saudades). Admito, porém, que, com a logística de boas companhias de turismo, a senhora terá menos motivos para se preocupar, menos tensão e a possibilidade de passar os olhos em lugares distintos que, pela lógica, não poderiam pertencer à mesma viagem.

Confesso que, há alguns anos, fiz um roteiro desses para acompanhar uma tia idosa que sempre me cobriu de carinho. Foi um pouco estranho, porque o guia falava leviandades e, a pedido dos demais, acabei assumindo o microfone. Depois de percorrer 14 países em 22 dias - sem, jamais, ter comido uma refeição digna do nome -, confesso que o único ensinamento que me ficou é o de que os postos de gasolina se parecem em toda a parte.

Titia, however, adorou a viagem. Mais que isso: durante a jornada, conheceu miss Gallagher - até hoje sua fiel parceira de bridge. Have a nice trip, mrs. Lavalle."

É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO.

ELE ESTEVE EM 183 PAÍSES E

16 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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