Samia Mazzucco
Samia Mazzucco

Barcelona: da guerra com o turismo à saudade dos visitantes

Uma das mais visitadas da Espanha, cidade viveu verão atípico, com atrações turísticas esvaziadas. Agora, a ameaça de uma nova onda de coronavírus acende alerta entre moradores

Samia Mazzucco, Especial para o Estado

19 de outubro de 2020 | 05h00

Sexta-feira, 21 de agosto, 15h, calor de 30 graus no verão ibérico, alta estação turística. Uma cena inimaginável em tempos pré-pandêmicos se desenrola em Barcelona: a Praça da Catalunha lotada... de pombos. A exceção é uma mulher que aproveita o vento que refresca a tarde abafada enquanto pedala livremente em círculos pelo local, o que faz as aves voarem à medida que a bicicleta avança pelo chão de pedras lisas brancas e vermelhas. Essa mulher impactada pelo inédito vazio de pessoas, no caso, era eu. 

Este vazio que presenciei na principal praça da cidade, antes constantemente povoada por turistas do mundo todo, ainda se faz presente em outros principais pontos turísticos, como a Rambla e o Bairro Gótico, que sofrem com o fechamento de estabelecimentos sem o volume de estrangeiros, que deixaram de visitar a cidade por causa da pandemia do novo coronavírus. As filas nas atrações, os turistas com sacolas de compras e os dias agitados com o vai e vem de gente sumiram. 

“Sente-se falta dos estrangeiros. Vivíamos de turismo, da vida social, sempre houve muita vida aqui. Barcelona está irreconhecível, nunca vi a cidade assim na minha vida. É pior que um pesadelo”, resume a catalã Bárbara González, que nasceu e sempre viveu na cidade, atualmente moradora do central bairro Eixample, antigamente frequentado por hordas diárias de turistas

Para agravar o panorama, a chegada do frio trouxe a já esperada segunda onda da pandemia e medidas mais duras para conter o vírus foram adotadas nesta semana na cidade. Universidades voltaram às aulas online e o home office está sendo fortemente recomendado. Academias, teatros e cinemas seguem abertos, mas com 50% da capacidade. A cereja do bolo atingiu justamente um dos setores mais afetados com a paralisação do turismo.

Desde a meia-noite de sexta-feira bares e restaurantes só podem abrir para entregas a domicílio ou comida para levar. O que se viu no dia anterior foi uma corrida de despedida aos bares e preocupação com a possibilidade de um novo confinamento total. Já durante o dia de sexta, com a população sem ter aonde ir para confraternizar e há muito sem turistas, a cidade voltou a estar visivelmente mais deserta. 

Turismo local no novo normal

Nessa nova realidade, cabe aos moradores tentar povoar os espaços da cidade. Iniciativas para incentivar o público local a movimentar de alguma forma pontos turísticos às moscas surgem em vários deles. E se for de graça, melhor.

A Basílica da Sagrada Família, por exemplo, desde julho iniciou o projeto Hora Barcelona, que segue ativo até o mês de dezembro. No início de cada mês, o site oficial oferece gratuitamente aos moradores ingressos para todos os fins de semana do mês seguinte. Basta preencher um formulário no site, comprovar que mora na cidade e pronto. O incentivo para conhecer a obra-prima de Gaudí e economizar os 26 euros da entrada em tempos de crise econômica vem dando resultado. A cada mês, os ingressos acabam horas depois de serem colocados à disposição. 

O projeto se soma a outro da Basílica, que já existia antes da pandemia, chamado Portas Abertas. Também voltado à população local, este distribui entradas gratuitas por meio de um sorteio todos os anos, no mês de setembro. Desta vez foram sorteados 12 mil ingressos para serem usados durante três dias. E claro, a comunicação com o público deixa claro todas as medidas de prevenção à covid-19 tomadas pelo local, como o número reduzido de pessoas dentro do ambiente ao mesmo tempo. 

González é uma das moradoras da cidade que está aproveitando a oportunidade. “Não conheço a Sagrada Família e agora consegui os ingressos grátis para ir em outubro. Tenho mais vontade de conhecer agora porque com menos gente é bom para ir com a câmera e fazer fotos”, explica. Além da basílica, ela conta que está atenta às programações para conhecer outros pontos marcantes da cidade. 

Katia Valera é outra catalã que comemora os ingressos que conseguiu. Natural de Tarragona, uma cidade vizinha, e moradora de Barcelona há seis anos, ela também visita a basílica em outubro. “Fui há dois anos pagando e é caríssimo! Lembro que fiquei agoniada porque era verão e não cabia nem mais uma alma lá dentro de tão cheio”, relembra ela, ressaltando que agora tem mais vontade de passear por bairros turísticos por estarem mais vazios. 

Além da basílica, ela programa um fim de semana turístico pela cidade em outubro, com as temperaturas mais amenas. “Quero fazer um walking tour principalmente pelo centro, pelo Gótico, rever a parte judia do bairro. Crescemos aqui, mas a história acaba se esquecendo. É bom voltar para relembrar e reviver outra vez”, diz. 

Outra obra símbolo de Gaudí, a Casa Batló incentivou a ida de moradores assim que reabriu. Em julho e agosto, promoveu sorteios que davam ingressos grátis, bastava se inscrever no site para concorrer. Já a partir do mês de outubro o projeto Noites Mágicas, que inclui visita ao local e show de artistas majoritariamente catalães, oferece descontos de 10 euros no ingresso não só para moradores da cidade, mas de toda Espanha, de olho no turismo interno. Aqui também a preocupação com as medidas de prevenção à covid-19 fez o local implementar novos protocolos e até novos espaços ao ar livre. 

Programações em locais abertos para manter o distanciamento e minimizar os riscos de contaminação, aliás, foram tendência durante todo o verão e devem se manter mesmo com a chegada do frio. “Minha ideia é seguir aproveitando a cidade, mas obviamente respeitando as medidas de segurança. Gostaria de ir ao Parque Güell e também fazer a trilha do (parque) Tibidabo até lá em cima. Sem turistas, com certeza será mais tranquilo”, diz o espanhol Alberto Rodilla, morador do bairro de Les Corts. 

Novos hábitos

A redescoberta da cidade pelos moradores vem acontecendo não só em visitas a pontos turísticos, mas na própria escolha de onde viver. Antes raramente considerados, os bairros turísticos entraram no radar porque agora, além da calmaria, têm ofertas de bons apartamentos que, sem o fluxo de aluguel de temporada, passaram a oferecer contratos fixos. A mexicana Fernanda Méndez, moradora da cidade há um ano, mudou-se no meio da pandemia do Eixample para o Gótico, o mais turístico dos bairros turísticos. 

“Quando cheguei estava tudo deserto, morto, em silêncio. Caminhava-se pelas ruas e não havia nada. E o Gótico já é frio, é de pedra, é gótico (risos). Acredito que as pessoas é que fazem ele ser mais caloroso”, conta a jovem, que presenciou a reabertura gradual do bairro e o novo dia a dia após o confinamento. “Foi emocionante ver como as cortinas e as portas que víamos fechadas, e não sabíamos o que havia por trás, foram se abrindo e aí descobríamos uma cafeteria, uma loja”, relembra, destacando a mudança no perfil dos clientes antes estrangeiros e agora locais. 

O que também se transformou foram os hábitos de locomoção entre os moradores, seja para turistar ou trabalhar. Com um extenso corredor de ciclovias de mais de 200 quilômetros e vasta malha de metrô, trem e ônibus, na saída do confinamento houve um incentivo ainda maior do poder público para que as pessoas evitassem até mesmo o transporte coletivo, priorizando o transporte individual em bicicletas e a boa e velha caminhada, aproveitando a geografia majoritariamente plana, principalmente na área central. 

Se durante os meses mais duros de confinamento o Bicing - serviço público de aluguel de bicicletas - chegou a ser paralisado, entre os meses de maio e julho ganhou 20 mil novas assinaturas, 77% mais do que o mesmo período do ano anterior. Com mensalidades anuais de 35 ou 50 euros, a depender da tarifa que se paga em cada trajeto, o serviço vem crescendo exponencialmente e em julho bateu o recorde de viagens: 1.3 milhão, maior até mesmo do que o mesmo mês do ano passado. Caminho exatamente inverso ao que acontece com o transporte coletivo, esvaziado pela falta de visitantes e por parte da população ainda em home office, que mantém uma média de lotação de 50% do que costumava ter antes da pandemia.

'Tourist go home'

Muito provavelmente, os adeptos da campanha contra o turismo massificado que espalhavam pelos muros da cidade a mensagem “Tourist go home” (Turistas, vão para casa) nunca imaginaram que seu pedido seria atendido tão rápido e de forma tão brutal. A pandemia que encarcerou a cidade no dia 15 de março mandou os turistas para onde esse grupo queria que eles nunca tivessem saído e não há sinal no horizonte de que as massas retornem tão cedo. 

Sem a vacina, o governo ainda encontra dificuldades em traçar uma meta concreta de quando, como, e se, o imenso impacto na economia será revertido, uma vez que 12% do PIB espanhol provinha de atividades turísticas. Em 2019 a Espanha recebeu 83.7 milhões de visitantes, segundo dados do Ministério de Indústria, Comércio e Turismo, quase o dobro de sua população. 

Com 1.6 milhão de moradores, Barcelona abocanhou 12 milhões desses visitantes, que gastaram em média 195 euros por dia, de acordo com dados divulgados pela Prefeitura no início deste ano. Os números tinham sido recordes e a expectativa era de que seguissem esse fluxo crescente. Seis meses depois, o sentimento que paira por toda a cidade é o mesmo da catalã González, que se pergunta: “Quando vai se recuperar tudo isso?”. 

Mudanças sutis na rotina

Além da visível falta de movimento pelas ruas, há pequenas mudanças que são percebidas em acontecimentos sutis que faziam parte do dia a dia. Uma das mais marcantes é a nova dinâmica dos ônibus que fazem a rota entre a Praça da Catalunha e o aeroporto. Antes da pandemia, as filas eram quilométricas e ininterruptas entre 5h e meia-noite, sete dias por semana. Dois veículos, um para cada terminal, partiam lotados de dez em dez minutos. Agora, há um ônibus, que atende ambos os terminais, a cada 15 minutos. A cena mais comum é uma calçada sem uma alma viva à espera da condução e uma vendedora de bilhetes sem ter o que fazer.

Outra mudança significativa é não ouvir mais pelas ruas da cidade diversas línguas. Agora os ouvidos captam apenas espanhol, catalão e inglês, este último devido à tradição da cidade em acolher trabalhadores estrangeiros. Porém, as línguas faladas pelos principais grupos de turistas que frequentavam a cidade, como alemão, francês, português e chinês, viraram raridade. 

Até as vitrines sofreram o impacto dos idiomas. Se antes elas ostentavam anúncios em inglês para atrair os visitantes, desde a reabertura o que mais se vê são mensagens em catalão, sejam em lojas de franquias internacionais ou comércio local. Vale tudo para atrair a atenção do cliente local. 

Um verão sem turistas

Durante as fases de desconfinamento, após a saída da quarentena total em maio, a cidade parecia querer ensaiar um retorno aos tempos agitados com parques e praias lotados à medida que o calor aumentava com a chegada do verão. Pura ilusão. A lotação era apenas de moradores ávidos por liberdade. 

As praias, aliás, foram cercadas e tiveram controle de acesso durante toda a alta temporada. As mais frequentadas pelos locais, como Bogatell e Mar Bella, costumavam ter filas para entrar e acessos bloqueados quando atingiam uma alta densidade. Já a mundialmente conhecida praia da Barceloneta, mesmo com o controle de acesso, não costumava atingir a lotação máxima.

“A única coisa boa é que a água do mar está mais limpa este ano, só isso. Parece que vivemos um verão isolado. Acho bem triste”, resume a jovem russa Yana Vibes, moradora do bairro Poblenou, enquanto curte um sábado de sol na praia de Bogatell. 

Assim como Vibes, é comum em conversas os moradores classificarem este verão principalmente como “triste”. A alta temporada era a esperança de que 2020 não fosse um ano completamente perdido para o setor turístico no país. Mas já em julho os repiques de casos de covid-19 voltaram, muito antes das previsões do outono, o que fez com que, por medo, as pessoas cancelassem mesmo viagens internas e que outros países europeus impusessem quarentena a quem visitasse a Espanha. A Inglaterra, de onde mais chegaram visitantes em 2019, foi um dos primeiros a impor a restrições, sendo seguida por grande parte de países europeus como Suíça e Bélgica

Porém, o maior baque da alta temporada, sem dúvida, foi sentido no mês de agosto, o período de maior calor e no qual tradicionalmente as pessoas viajam de férias na Europa. Como em tantas outras grandes metrópoles, a população deixa a cidade, que apesar disso costumava ficar ainda mais lotada com o alto fluxo de visitantes. Este ano, com a evasão em massa ainda mais incentivada por campanhas do governo de turismo interno, e sem os estrangeiros, Barcelona se transformou em uma cidade-fantasma. 

O esvaziamento foi tamanho que mesmo o comércio local, que não depende tanto de turistas, foi afetado. Um exemplo é o restaurante de comida brasileira e portuguesa Bistrô 42, no bairro da Barceloneta, que fechou as portas por 15 dias durante a alta temporada pela primeira vez em seus dez anos de existência. Mesmo localizado em um bairro turístico, sua clientela é majoritariamente de estrangeiros que vivem na cidade, mas nem assim foi possível manter o funcionamento. 

“Mesmo quem está empregado está saindo menos. Desde a reabertura, o faturamento tem ficado em média em 50% do que era antes da pandemia. Agosto era o mês que mais faturávamos, este ano foi o pior, não chegando nem a 25% do ano passado”, conta André Saavedra, dono do estabelecimento que tem outro sócio português. Com a queda brusca de faturamento, o restaurante, que tinha sete funcionários, agora tem três. 

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