Bruna Toni/Estadão
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Barcelona no verão: um roteiro de quatro dias entre Gaudí e praias

Cidade da Espanha abre temporada de verão agitada pela política e a busca por sustentabilidade no turismo – e cheia de atrativos, dos traços de Gaudí ao clima de balada das praias

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 05h00

BARCELONA - Irritado, Merlí Bergeron esbraveja contra seu iminente despejo. “É isto que tem essa cidade. Lugares para os turistas, mas não para seus habitantes”, diz à Mossos D’Esquadra, a polícia catalã. Conformado em ter de voltar a morar no apartamento da mãe, o professor de Filosofia sessentão pega as malas e, ao lado do filho adolescente, segue a pé. Desempregado, não tem dinheiro para pagar o táxi em Barcelona.

Bergeron é o rabugento, cômico e cativante personagem-título da série Merlí, produzida pela TV da Catalunha e exibida pela Netflix. O diálogo entre o professor – vivido pelo ator Francesc Orella – e o policial, logo no primeiro episódio, tem tom cômico, mas expressa um drama real vivido hoje pela população da cidade: a “turistificação”. 

Desde 1992, quando Barcelona recebeu os Jogos Olímpicos e passou por um processo de reurbanização de áreas como a portuária – anos depois, em 2016, o mesmo ocorreu com a cidade do Rio de Janeiro –, o número de turistas só cresceu. Em 2017, dos 82 milhões de estrangeiros que desembarcaram na Espanha, 19 milhões tinham como principal destino a Catalunha, 5% a mais do que no ano anterior. 

Há motivos de sobra para tanto apelo turístico. A cidade no norte da Espanha tem praias badaladas, que ficam especialmente concorridas agora que começa a alta temporada do verão europeu ( leia sobre elas aqui). É a casa de um dos principais clubes de futebol da atualidade – o Barça de Messi, Philippe Coutinho e Paulinho. Sua longa história está preservada e se entrelaça à de artistas como Joan Miró e o arquiteto Antoni Gaudí, responsável por vários dos seus principais monumentos e cujas obras guiaram parte da minha visita. 

Na primeira quinzena de abril, primavera no Hemisfério Norte, o clima em Barcelona variava dos dias de sol aos de chuva fina. Em ambas as situações, usei transporte público, eficiente e com Wi-Fi gratuito até nos pontos de ônibus – o passe para 72 horas custa 15 euros. Mas a localização da hospedagem permitiu explorar boa parte da cidade a pé: o hotel Mandarin Oriental, em funcionamento desde 2009 na avenida Paseo de Gracia, está perto da Praça da Catalunha, das Ramblas e das casas projetadas por Gaudí. Praias como a Barceloneta estão a 20 minutos de ônibus. 

 

AMOR E DISCÓRDIA

O Mandarin Oriental está entre as opções de hospedagem que ainda permitem ao turista ficar pelo centro. Para conter a onda de supervalorização imobiliária na região, o governo local adotou medidas como congelar as concessões de licenças para novos hotéis e vem tentando combater os aluguéis de temporada ilegais, incluindo aqueles anunciados na plataforma digital mundial Airbnb. 

A principal reclamação de moradores é que o turismo de massa encarece os aluguéis e obriga os locais a mudarem para áreas mais distantes do centro, que são mais baratas. Não é um dilema exclusivo de Barcelona: outras cidades europeias, como Veneza e Berlim, estão diante do impasse de equilibrar o bem-estar de seus habitantes e a renda proporcionada pelo turismo, fundamental para a economia local. Entre a “turistificação” e a “turismofobia”, o desafio é encontrar alternativas sustentáveis.

O mau humor de Merlí com a situação não chegou até mim. É verdade que os espanhóis soam mais diretos e pouco pacientes. Nada que parecesse ser um problema pessoal comigo, turista. O que realmente chegou a mim de maneira surpreendentemente intensa foi outra questão, mais antiga e mal resolvida na Catalunha: a luta pela independência do resto da Espanha.

Ruas pintadas, bandeiras nas sacadas, roupas, faixas e gritos de “ llibertat” durante uma partida de futebol pela Champions League a que assisti no estádio Camp Nou foram símbolos e palavras de ordem do movimento separatista que fizeram parte da paisagem durante os quatro dias da minha visita. 

Ouça os gritos de 'llibertat' no jogo Barcelona x Roma

Apesar de não ser nada recente, o desejo de se tornar uma nação independente, justificado por questões culturais e econômicas, vem se intensificando na Catalunha desde o referendo de outubro do ano passado, quando 2 milhões de catalães (de um total de 5 milhões) foram às urnas para votar a separação da Espanha. 

O “sim” ganhou com 90% dos votos. De Madri, o governo espanhol não legitimou a votação e a repressão foi violenta. Carles Puigdemont, ex-líder do governo Generalitat – apesar de fazer parte da Espanha, a Catalunha tem certa autonomia desde o fim da ditadura franquista, em 1975 – chegou a declarar a independência da região. Recebeu como resposta a intervenção de Madri e, sem negociação, foi preso na Alemanha em abril, junto com outros nomes separatistas. Por isso os gritos de “liberdade” no estádio.

Em maio, Puigdemont foi solto, mas segue na Alemanha. Quim Torra acaba de assumir o governo catalão com a promessa de tornar a Catalunha uma república independente. Ou seja, o conflito está longe de acabar.

O turista, por sua vez, não precisa tomar partido nesse conflito interno – que, vale ressaltar, divide os próprios moradores. Segui o roteiro dos principais pontos turísticos tentando absorver um pouco das muitas facetas dessa Barcelona em polvorosa, contudo. Em meio ao turbilhão, a cidade parece ainda mais viva.

Ir agora, com tantas questões em aberto, é ter a chance de vivenciar tradições à flor da pele em meio a um clima jovem e descolado. Mesmo a rabugice de um velho professor crítico à realidade que o cerca como Merlí se rende ao encanto jovem de Barcelona – e essa me parece ser sua melhor tradução.

Em tempo: quando contei a um catalão que vi a série no Brasil, ele se surpreendeu. “Até que enfim alguma coisa da Catalunha para o mundo!”, disse, contente, o garçom do hotel onde me hospedei. Disse em castelhano, para que eu pudesse entender.

SAIBA MAIS 

Como ir: o voo direto SP-Barcelona-SP custa a partir de R$ 4.723,88 na latam.com. Com conexão em Madri, sai desde R$ 4.256,65 na iberia.com e desde R$ 3.975,44 na aireuropa.com. Consulta feita com datas em agosto.

Sites:  barcelonaturisme.com e spain.info.

*A REPÓRTER VIAJOU COM APOIO DE  MANDARIN ORIENTAL E ROYAL CARIBBEAN.

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Casas ou obras de arte?

Construções são belas representantes do modernismo que invadiu Barcelona no início do século 20

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

BATLLÓ

Nada é óbvio ca Casa Batlló, erguida em 1877 por Emílio Sala Cortés e reformada por Gaudí nos primeiros anos do século 20. E, ao mesmo tempo, tudo faz demasiadamente sentido nela. Beleza e funcionalidade andam de mãos dadas neste que é um dos ícones da arquitetura modernista gaudiniana no Paseo de Gracia, principal avenida de Barcelona – o outro é a Casa Milà, ou La Pedrera.

Com um guia que, além de áudio, mostra imagens 360 graus dos cômodos, fui percorrendo, boquiaberta, o caminho até o topo. Era abril e já havia muita gente disputando espaço neste caminho. Como gosto de olhar cada detalhe, minha visita levou mais do que a uma hora prevista. Mas valeu a pena: foi como viajar pela natureza fantástica que só se encontra nos livros. E em Gaudí.

A escadaria logo na entrada, por exemplo. O corrimão é semelhante à ossada de um réptil. Na sala principal, o teto parece um redemoinho – o áudio me conta sobre a ideia de imitar o movimento das ondas do mar. Esqueça portas quadradas: elas são sempre curvadas e vazadas com vidros coloridos que aguardam a incidência da luz para brincarem de arco-íris internos. E as paredes parecem ser a pele descamada da família do réptil lá do início.

 

Cada detalhe da casa, uma construção tipicamente burguesa do início do século 20, foi pensado por Gaudí para agradar aos gostos e às necessidades de seu dono à época, o industrial D. José Batlló y Casanovas. Materiais reciclados, azulejos, ferro forjado, ornamentos de pedra, madeira e muitos vitrais foram usados para fazer do espaço um lugar funcional na vida prática e um retrato da natureza marinha na vida imaginária.

E, se a ampla janela da sala mostra o Paseo de Gracia, a vista para o pátio interno é curiosa: num degradê de azulejos azuis, Gaudí conseguiu equilibrar a chegada de luz aos ambientes internos do topo à base. Quer uma vista mais espetacular? Aguarde até alcançar o terraço da construção, para ver a cidade e a parte traseira do telhado do dragão, aquele bem colorido no alto da fachada.

 

MILÀ, OU LA PEDRERA

Dois projetos modernistas num só dia? Quem for à Batlló e à Milà vai perceber que, além de diferentes arquitetonicamente, têm propostas distintas. Gaudí foi responsável por toda construção de La Pedrera, encomendada pelo casal Pere Milà e Roser Segimon em 1905.

Ao longo dos anos, diversas pessoas e comércios ocuparam seus espaços, incluindo o Partido Socialista Unificado da Catalunha 

(PSUC) na Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Foi só em 1987 que uma parte dela, o terraço, foi aberta ao público e que a restauração para fazer do espaço um centro cultural e turístico (aberto em 1996) teve início.

As curvas estão já na fachada, bem mais extensa do que a da Batlló. Como o próprio nome denuncia, é feita de pedras. Suas sacadas, de ferro, parecem uma simples cortina escondendo os costumes da vida burguesa.

 

Há menos colorido na Pedrera do que na Batlló. Mas as bases de sustentação e objetos como as maçanetas são ainda mais trabalhadas. Cada pedaço de pedra, concreto ou ferro é uma escultura. E há exemplos de peças desenhadas por Gaudí: cadeiras que acompanham a dinâmica dos braços humanos e bancos que se voltam levemente para dentro, em posição para uma conversa.

Na parte interna, é possível conhecer a disposição de um dos apartamentos, e os cômodos reproduzem o dia a dia da elite do início dos 1900, com mobiliário e trajes. No sótão, uma exposição aborda as técnicas de Gaudí e a história de cada uma delas.

O terraço, onde a maioria das pessoas gasta a maior parte da visita, é ainda mais interessante do que o da Casa Batlló. Ali, a bela vista só se soma a um cenário muito mais rico: chaminés retorcidas; torres revestidas com pedaços de cerâmica ou material reciclado; escadas construídas dentro de espaços curvos. Repare em um dos arcos dos cantos: ele enquadra a Sagrada Família ao fundo.

DICA: compre ingressos online e com hora marcada, principalmente no verão. E na internet há descontos. O ingresso para a Batlló custa desde 24,50 euros e para a La Pedrera desde 22 euros.

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Parque Güell e Sagrada família: símbolos da cidade

Obras de Antoni Gaudí estão um pouco mais distantes do centro da cidade, mas são indispensáveis na programação

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

PARQUE GÜELL

“Vá ao Parque Güell, tenho certeza que você vai gostar”, disse meu marido antes de eu embarcar para a Espanha. É verdade que há quem entenda melhor sobre nossos gostos. Mas, assim que dei alguns passos por seus jardins, fiquei me perguntando se alguém poderia não se sentir encantado nesse Patrimônio da Humanidade.

 

Sua história é bem anterior a 1984, quando ganhou o título da Unesco, e se mistura com o projeto de modernização da cidade, levado a cabo a partir do fim do século 19. Assim, o Parque Güell começa a ganhar vida em 1900. 

A ideia de Eusebi Güell não vingou, apesar do projeto inovador gaudiniano, com contornos arquitetônicos coloridos, sistema hídrico inteligente e respeito à natureza. O plano do industrial era fazer do parque um condomínio de casas. As vendas, porém, não deslancharam e, após sua morte, em 1918, o local foi doado à cidade e aberto como parque em 1926. 

Não se paga nada para entrar, mas a área onde estão as principais atrações, a zona monumental, exige ingresso ( desde 7,50 euros). Na entrada principal, há uma lanchonete e duas construções curiosas. A da torre mais alta, que era a recepção aos visitantes, abriga livraria e lojinha de souvenirs. Já a das abóbadas foi a casa do porteiro e é parte do Museu de História de Barcelona.

Além das curvas inusitadas, as duas são revestidas com cerâmicas partidas, a partir de materiais demolidos. A técnica se chama trencadís e é vista em outras partes do parque, como a Escadaria Monumental (ali estão a salamandra e a serpente sobre o escudo da Catalunha) e o Teatro Grego, principal cartão-postal do local. Seus bancos ondulados, apesar de gaudinianos, são obra de Josep Maria Jujol. Com vista para o mar, o espaço é sustentado por 86 colunas dóricas da Sala Hipostilada.

NÃO PERCA.  Dentro do Parque Güell, a casa onde Gaudí viveu 20 anos é um museu. A mobília foi desenhada e produzida por ele. O sobrado rosado tem entrada pela parte alta do parque (ingresso: 5,50 euros - dá para comprar combinado com o ingresso da Sagrada Família também).

 

SAGRADA FAMÍLIA

A Sagrada Família. Um lugar que começou a ser construído em 1882 e só será concluído em 2026, no centenário de morte de Gaudí. P atrimônio da Humanidade – em 2005, a fachada do Nascimento (de Jesus) e a cripta se juntaram a obras de Gaudí já na lista da Unesco –, o templo atrai muitos visitantes ( ingresso desde 15 euros).

Significados não faltam ali. Do projeto inicial, neogótico e de autoria de Francisco de Paula del Villar y Lozano, a Sagrada Família se transformou em um monumento completamente inovador, fruto do projeto posterior de Gaudí, que assume a construção em 1883 e se dedica a ela até o fim da vida – seus restos mortais estão depositados na cripta. Sob o comando de outros arquitetos, ela nunca deixou de crescer desde então, nem quando, em 1936, algumas partes acabaram incendiadas durante a guerra civil. Hoje, 70% do que pretendia Gaudí está concluído.

 

Repare nas três fachadas super ornamentadas, com personagens de traços geométricos singulares. Cada uma representa as passagens da vida de Jesus: nascimento; paixão, morte e renascimento; e glória presente e futura. O quarto lado está sendo feito e será composto por quatro edifícios em forma de cúpula.

Fico tentando entender cada explicação que o audioguia me traz. E de fato me sinto num bosque de árvores que alcançam o céu quando entro, enfim, no templo. Essa era mesmo a intenção de Gaudí: transformar o ambiente interno da Sagrada Família em um lugar que se assemelhasse à natureza (algo recorrente em suas obras), sem deixar de lado elementos tradicionais que explicassem o evangelho e a igreja.

Estão lá o altar e a figura de Cristo e de Maria. Só de outra forma. Jesus, por exemplo, vem pendurado no centro do altar semicircular. Os vitrais coloridos das igrejas também estão presentes. Mas as claraboias garantem um jogo de luzes incisivas nas laterais do templo, cuja planta é uma cruz latina.

 

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Bairro Gótico e La Boquería: o burburinho do centro

Na caminhada pela Cidade Velha, encontro com Las Ramblas, La Boquería e Bairro Gótico

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

LA RAMBLA E SEU MERCADO

O vaivém de pessoas para um lado e para o outro; as barracas no centro vendendo jornais e flores; o comércio de todo tipo entre os passantes: essa é La Rambla, extenso caminho de pedestres – aos veículos são reservadas apenas ruazinhas estreitas nas laterais. 

A principal parada na Rambla foi no mercado central. Estava com um grupo de jornalistas, passeando sem compromisso (e muita fome), quando vi uma placa indicando seguir em frente para alcançar La Boquería. Ou seja, com esse nome, só poderia ser o paraíso. Em qual outro lugar poderia existir cone com fatias de jamón ibérico cru a 2 euros?

 

Nos esbaldamos nos cones – alguns deles com um queijinho junto – e na paella do restaurante ao lado (pedimos duas para cinco pessoas e, somado um copo de cerveja para cada um, deu 20 euros por pessoa). Gostei tanto que voltei, sozinha, em outro dia, antes da partida. Repeti o presunto cru, passei por pimentas, frutas, doces e salames, e decidi almoçar frutos do mar em uma delas. 

 

 

VIELAS DO BAIRRO GÓTICO

Depois do almoço, seguimos pela Rambla até ruazinhas apertadas, de muros rústicos e altos, cujos tons amarronzados só eram quebrados pelas linhas que o cortavam no alto de um lado ao outro: estavam repletas de roupas coloridas penduradas, à espera de sol suficiente para secá-las.

Há quem tenha achado o Bairro Gótico, localizado na chamada Cidade Velha, a área mais antiga de Barcelona, decadente. O que senti andando por aqueles becos, porém, foi um provincianismo burlesco, algo que beirava o cinematográfico. E me encantei com as paredes meio maltratadas, com a anarquia de janelas floridas, varais e passarelas, responsáveis por conectar um prédio ao outro.

 

 

Antes mesmo de as construções góticas do período medieval serem erguidas, o Império Romano fez ali sua história. Fundada entre os séculos 15 e 10 a.C., Barcino, como era chamada, ainda preserva ruínas de construções romanas, como o pedaço da grande muralha de 100 mil metros quadrados que cercava a cidade entre os séculos 3 e 19 e que pode ser visto na Praça Nova, onde fica a Catedral de Barcelona. 

A Praça do Rei é uma das mais movimentadas. É cercada de construções, com comércio, restaurantes e até hostel. Fica ali o Museu de História de Barcelona (ingressos desde 7 euros), com vestígios arqueológicos da época romana entre seus 35,2 mil objetos. Outras duas praças são imprescindíveis: a Praça de Sant Jaime, sede do governo local, foi também o centro do poder romano; e a Praça Sant Iu, onde está o Museu Frederic Marès (4,20 euros), com esculturas da Antiguidade ao século 20.

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Em Montjuic, traços de Miró e legado olímpico

Região onde está o Parque Olímpico de Barcelona também reserva museus, entre eles a Fundação Joan Miró

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

O que faz com que a gente se aproxime de uma obra de arte com maior interesse? O que as outras pessoas enxergam ou sentem quando estão diante de uma que eu também estou? Essas perguntas passaram pela minha cabeça enquanto eu observava os grupos de crianças e adolescentes que visitavam a Fundação Joan Miró naquela manhã.

O barulho, inevitável, me fez pensar que havia escolhido o dia e o horário errados. Depois achei graça. Como se aquelas crianças em frente a obras de arte, opinando livremente sobre elas, fossem mais que observadoras: compunham um espaço artístico que dialoga com seus visitantes. Liberdade de imaginação e de circulação: assim é o espaço cultural criado pelo espanhol Joan Miró na região do Parque de Montjuic, a 30 minutos de ônibus do Paseo de Gracia. 

Barcelonense de 1883, Miró rompeu os muros da Catalunha e espalhou sua arte – pinturas, litografias, esculturas, trabalhos com cerâmica e material têxtil – por todo o mundo ao longo de seus cem anos de vida. Passou por Paris, Mont Roig, Nova York, Japão e Mallorca. Conheceu Picasso, Breton, Hemingway. Circulou por movimentos artísticos, produzindo materiais com propostas variadas, como se vê na ampla coleção da fundação criada em 1972. 

 

Os traços exatos de Retrato de Una Niña (1919) parecem nem pertencer ao mesmo autor dos traços (aparentemente) anárquicos de El Guante Blanco (1925) ou de El Oro del Azur (1967), apesar do jogo de cores, sempre intensas, prevalecer em ambos – e na maioria de suas obras. Mesmo quando elas expressam críticas sociais e políticas, como Hombre y Mujer Frente a un Montón de Excrementos (1935), duro olhar sobre a Guerra Civil Espanhola e suas consequências, e Mayo 1968 (1973), espécie de ode ao movimento revolucionário da juventude que foi às ruas em Paris há 50 anos. 

As esculturas têm espaço de destaque nas salas e também nas áreas externas, onde mais um grupo de crianças se espalha para reproduzir o que estão enxergando. Eu diria para elas, se me pedissem opinião, o quanto são curiosas aquelas em que Miró ressignifica objetos do cotidiano e como me impressionou ver a tapeçaria Tapiz de la Fundación (1979), uma enorme tapeçaria de diferentes texturas pendurada em uma das paredes.

A Fundação Joan Miró só fecha às segundas-feiras – ingressos desde 12 euros (com audioguia, 17 euros).

 

LEGADO OLÍMPICO

​O espírito criativo surrealista de Miró também inspirou o logo mais famoso da história dos Jogos Olímpicos. O artista Josep Maria Trias lançou mão de três pinceladas – uma azul, uma amarela e uma vermelha – para retratar um atleta saltando sobre o título Barcelona e os anéis olímpicos em 1992, quando a cidade recebeu a competição. Foi o suficiente para eternizar o logotipo.

 

E é justamente no Parque Montjuic, onde está a Fundação Joan Miró, que a Olimpíada de 1992 foi realizada. Barcelona, assim como o Rio, remodelou sua área portuária para o evento e fez de Montjuic um agradável ponto turístico, cujo legado olímpico ainda pode ser visitado – há ali uma torre de telecomunicações projetada pelo espanhol Santiago Calatrava.

De graça, por exemplo, dá para acessar o Estádio Olímpico Lluís Companys, construído para a Exposição Internacional de 1929, primeiro grande evento mundial em Barcelona, e posteriormente reformado para receber os Jogos. Quem gosta do tema pode visitar ainda o Museu Olímpico e de Esporte Joan Antoni Samaranch (desde 5,80 euros)

Entre arte e esporte, porém, há muito verde. Tanto que Montjuic é considerado o “pulmão” de Barcelona. Há ainda outras construções que fazem parte da história local. Se tiver tempo e quiser ver tudo, dedique um dia inteiro à região. Assim dá para ir ao Castelo de Muntjuic, dentro da fortaleza que, desde o século 17, foi alvo de bombardeios e invasões (5 euros); o Jardim Botânico; a Fonte Mágica e o Palácio Nacional, construídos para a Exposição de 1929; os mirantes e trilhas do parque; e outros museus, como o de Arqueologia e o de Etnografia. 

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Pés na areia para curtir o agito da Catalunha

Na região de Barcelona, na Espanha, desfrute das comodidades de praias urbanas, com espreguiçadeiras, drinques e comidinhas

Thiago Lasco, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

SITGES - É bom ir logo avisando: apesar de ter uma orla de 5 quilômetros banhada pelo Mar Mediterrâneo, Barcelona não é o que um brasileiro chamaria de “destino de praia”. No quesito beleza natural à beira-mar, a capital catalã está longe de ser uma Maceió. A larga faixa de areia é meio poeirenta, a cor do mar não é tão convidativa e faltam coqueiros para emoldurar o cenário.

O que não quer dizer que pegar uma prainha não seja uma ótima pedida para desacelerar, em uma cidade que oferece tantos estímulos ao turista. Basta ir com as expectativas ajustadas. O legal aqui é aproveitar as comodidades de uma praia urbana: instalar-se em uma espreguiçadeira, pedir drinques e comidinhas, poder contar com um banheiro limpo. E ver gente, claro: no verão europeu, as areias de Barcelona fervem. 

A orla aproveitável começa logo após o porto e se estende para o norte, com uma sucessão de trechos com nomes diferentes: Sant Sebastià, La Barceloneta, Nova Icària, Bogatell, Mar Bella, Nova Mar Bella, Llevant. Os limites entre uma praia e a seguinte não são muito claros, já que a paisagem é a mesma - o que muda é a fauna local.

Sant Sebastià e Barceloneta são mais urbanas, como uma Copacabana. Nova Icària, Nova Mar Bella e Llevant são tranquilas e de pegada familiar. Os trechos mais agitados estão no miolo formado por Bogatell (fala-se “bugatêi”) e Mar Bella, com trechos de frequência LGBT e outros em que o nudismo dá o tom, com naturalidade.

Minha sugestão é tomar o metrô até a estação Poblenou (linha 4) e ir caminhando pela rua Bilbao até a orla (são quatro quarteirões grandes; use o GPS do celular para não errar a passarela e andar mais que o necessário). Você estará em Mar Bella. Olhando para o mar, vire à direita e vá voltando em direção ao porto, até achar um trecho para chamar de seu. Na dúvida, um bom critério é escolher o “chiringuito” (bar de praia) que lhe parecer mais simpático e se instalar nas imediações.

E não precisa acordar cedo e sair correndo para aproveitar o dia: no verão, o sol só se põe após as 21 horas e a praia só vai começar a engrenar lá pelas 14 ou 15 horas. Chegue mais tarde para aproveitar a ferveção - ou vá cedinho, se a ideia é passar longe do agito. Na hora da fome, recorra a um chiringuito ou restaurante (os frutos do mar do Las Sardinitas, em Nova Icària, andam disputados) ou, se seu paladar for mais exigente, aproveite a excelente oferta de gastronomia do Born, ali perto, ao lado do Parc de la Ciutadella

SITGES

Uma ótima sugestão para variar o cenário sem alugar um carro é ir a Sitges. O balneário fica 35 quilômetros ao sul de Barcelona, com acesso fácil de trem. A viagem leva 45 minutos e o bilhete de ida e volta custa ¤ 8,40 (dá para embarcar nas estações Sants, Passeig de Gràcia ou Estació de França). 

Sitges é compacta e fácil de ser explorada a pé. A estação de trem fica em pleno centro histórico, com ruelas cheias de lojas, cafés e butiques que abrem de domingo a domingo. O lugar tem um certo charme mediterrâneo - mas a atmosfera é menos sofisticada e mais despretensiosa que a de Ibiza, por exemplo. 

Na orla, diversos restaurantes servem tapas, paellas e fideuàs (mas espere pagar o dobro do que cobraria uma casa similar em Barcelona, sem vista para o mar). No alto de uma pequena colina, a Igreja de São Bartolomeu e Santa Tecla, construída no século 17, serve de ponto de referência e símbolo de Sitges.

Algumas praias são faixas de areia clara que percorrem o passeio marítimo, enquanto outras se formam em pequenas enseadas cercadas por rochas. As mais próximas ao centrinho, como La Ribera e La Fragata, ficam quase impraticáveis em agosto, no pico da alta estação. 

A frequência mistura famílias, grupos de amigos e também muitos gays - especialmente em Platja dels Balmins e Bassa Rodona, as preferidas desse público, que tem em Sitges um de seus principais destinos de praia em toda a Europa.

 

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Onde ficamos: Mandarin Oriental

Hotel de luxo inaugurado em 2009 tem ótima gastronomia e localização - ele foi o ponto de partida da nossa viagem

Bruna Toni, O Estado de S. Paulo

03 Julho 2018 | 04h30

 

É bastante comum: fazer check-in em hotéis pela manhã quase nunca inclui poder desfrutar do café daquele dia. Por isso, eu já pensava onde ia tomá-lo, quando veio a grata sugestão do recepcionista do hotel Mandarin Oriental, onde passei os últimos três dias de uma longa viagem à Europa: apreciar o café da manhã oferecido pela casa enquanto meu quarto era liberado. Tem como começar melhor uma estada?

Inaugurado em 2009 em Barcelona, a rede de luxo acertou em cheio em três dos elementos que fazem a diferença na hora da escolha da hospedagem para quem busca o melhor dos mundos: tem boa localização, espaços amplos e bem decorados e refinada gastronomia. Inclua na lista amenities Bulgari; um spa com tratamentos holísticos, medicina chinesa e banhos aromáticos (não-hóspedes podem agendar horário também); e funcionários extremamente atenciosos.

Para começar, sua localização, na importante avenida Paseo de Gracia, ditou o ritmo da minha viagem. Dois minutos, eu estava na Casa Batlló. Em quatro, La Pedrera. Em cinco, na Praça da Catalunha. Em menos de 20 minutos, chegava no mercado La Boquería. E até o deslocamento do aeroporto até o centro (e vice-versa) foi facilitado: na avenida está um dos pontos finais do Aerobús, que faz o trajeto todos os dias, em diferentes horários (5,90 euros).

 

O bom gosto, por sua vez, está nos 120 quartos do hotel, assinados pela designer espanhola Patrícia Urquiola. De inspiração oriental, sua decoração mescla objetos contemporâneos e confortáveis. Entre as 14 categorias de quartos e suítes, me hospedei na Studio Suite - e a  vontade de passar horas dentro dele foi grande, não posso negar.

Se tivesse feito isso, porém, perderia a chance de desfrutar a mesa de frios - sim, presunto cru à vontade -, pães, doces e pratos quentes de seu farto café da manhã, no restaurante Blanc, o mesmo onde almocei um menu degustação de primavera cujos sabores deliciosos ainda preenchem meu imaginário - confira o cardápio aqui.

Além do Blanc, o hotel conta com o Moments, com cardápio baseado na cozinha catalã e assinado por Carme Ruscalleda, a única chef mulher com sete estrelas Michelin no currículo. Há também o Bunker’s Bar, com tapas, coquetéis e decoração que incorporou antigas peças do antigo dono do prédio, o Banco Hispano Americano. Todos estão abertos a não-hóspedes também, e as reservas podem ser feitas no site do hotel ou pelo telefone 0800 891 3578 (com atendimento em português de segunda a sexta-feira).

As diárias ao longo do ano começam em torno de  425 euros, sem taxas. 

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