Luiz Fernando Toledo/Estadão
Luiz Fernando Toledo/Estadão

Bate-volta de Londres a Winchester, antiga capital real da Inglaterra

Com passado fascinante, cidade preserva sua história medieval e clima sereno e relaxante, ideal para um dia de passeio a partir de Londres

Nancy B. Nathan, Washington Post - Bloomberg

03 de janeiro de 2020 | 08h00

Minha pesquisa aleatória com amigos, principalmente na idade dos baby-boomers (pessoas nascidas entre 1946 e 1964), me diz que a mera menção à catedral trará à memória uma música cativante - "Winchester Cathedral, you're bringing me down..." (" Catedral de Winchester, você está me deixando para baixo ...").

Ela estava na minha mente enquanto eu viajava cerca de uma hora para o sudoeste da estação de Waterloo, em Londres. A poucas quadras do terminal, havia a Catedral de Winchester, erguendo-se sobre os telhados baixos da cidade, cercada por jardins encantadores ao longo do lento e estreito Rio Itchen.

A cidade foi a capital real da Inglaterra até William, o Conquistador, mudar para Londres depois de 1066. No caminho para a catedral, você passa por um famoso ponto de referência, uma gigantesca estátua de bronze de Alfred, o Grande, rei dos anglo-saxões do século 9, e sua espada ao alto. Junto ao rio sinuoso, há extensos restos de pedra do castelo medieval de Wolvesey e, ao lado da própria catedral, o contorno da igreja anglo-saxônica do século 6, onde ficava o fórum romano.

Um dia passado no compacto centro histórico levará você a várias lembranças fascinantes de tempos tumultuados, mas o presente de Winchester é sereno. Mesmo em uma manhã de agosto, não vi multidões nem grupos de turistas. Em outras palavras, parece a combinação perfeita para uma viagem de um dia - simultaneamente relaxante e fascinante.

Comece pela catedral

Em um país sem a menor falta de catedrais históricas, Winchester se destaca porque suas conexões reais trazem muitos tesouros e é um destino de peregrinação.

As raras paisagens incluem 1308 grandes e intrincadas esculturas em madeira de pássaros, bestas e soldados medievais, consideradas as melhores esculturas em madeira da Inglaterra, deixadas em paz quando os puritanos do século 17 destruíam imagens religiosas; ladrilhos decorados originais de 1275; e 1170 afrescos extremamente raros (normalmente não são encontrados na úmida Inglaterra), cujas cores ainda brilhantes foram descobertas sob cal na década de 1930.

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A catedral também é conhecida por esses tesouros: a Bíblia Winchester do século 12, um manuscrito incomumente grande, decorado por monges com tintas preciosas em pergaminho das peles de 250 bezerros; a fonte batismal de mármore preto de 1150, o presente do neto de Guilherme, o Conquistador, com suas esculturas contando a história de São Nicolau, inspiração para a história do Papai Noel; e tumbas que alguns especialistas consideram as mais impressionantes da Inglaterra, mesmo em comparação com os da Abadia de Westminster.

E há um tesouro moderno, uma estátua assustadora de um homem, do eminente escultor contemporâneo Antony Gormley. Está sozinha entre os arcos da vasta cripta do século 21. A cripta dramaticamente iluminada é frequentemente inundada; a água sobe ao redor do homem, que olha para as mãos em concha que, por sua vez, coletam a água.

Não perca as histórias do lugar

Mas ainda mais fascinantes são as histórias que a catedral tem para contar. Fiz um dos passeios realizados por leigos voluntários, que começam a cada hora. Bill Weeks contextualizou todas essas vistas raras e acrescentou algumas curiosidades fascinantes.

A catedral estava afundando em 1900 - afinal, foi construída em prados aquosos - e corria o risco de desabar. Durante seis anos, seis horas por dia, começando em 1906, o mergulhador de águas profundas William Walker vestiu sua roupa de mergulho e capacete para descer na escuridão total até 6 metros abaixo do chão da catedral, ao redor de seu perímetro interno, para inserir sacos de concreto. Quando ele terminou, o rei George V assistiu ao serviço de Ação de Graças Nacional em 1912. A estátua de Walker, retratada com ele em uma roupa de mergulho, fica no extremo leste da catedral.

Nas proximidades, outra história, uma que precede a de Walker em cerca de 750 anos: em 1158, as relíquias de São Swithun, bispo e santo do século 9 que foram veneradas por milhares de peregrinos que viajavam a Winchester em busca de milagres, foram transferidas para um local atrás do altar. Para permitir que os peregrinos se aproximassem dos ossos do santo, uma pequena abertura em arco, chamada “Buraco Sagrado”, foi criada no nível do chão. Camadas de marcas de mãos pretas cercam o buraco, onde milhares de peregrinos se inclinam para entrar.

Enquanto nossa turnê atravessava a extremidade leste e depois voltava para a porta principal oeste, ouvimos mais duas histórias. Primeiro, a da romancista Jane Austen. Ela morreu em 1817 em Winchester durante o tratamento médico que fez em sua casa, nas proximidades de Chawton. Seu túmulo é marcado por uma tábua de ardósia preta que fala da "benevolência de seu coração, da doçura de seu temperamento e das extraordinárias doações de sua mente”. Mas logo após sua morte, notou-se que nem uma das palavras se referia às suas realizações literárias. Uma placa de latão foi adicionada em 1872, uma “framboesa gigante” para aqueles que omitiram essas palavras do tributo na ardósia preta, disse Weeks. Em 1900, um vitral foi instalado acima dos dois marcadores.

No extremo oeste, sobre a porta principal, outra história. Em dezembro de 1642, as forças antimonarquistas de Oliver Cromwell invadiram a catedral com “faixas e mosquetes em chamas” e destruíram o imenso vitral sobre a porta oeste. As pessoas da cidade varreram os estilhaços, assim como alguns de janelas menores; em 1660, quando o Rei Carlos II foi restituído ao trono, esses fragmentos foram reunidos. O resultado é uma colagem incrivelmente contemporânea de cores e imagens, tudo em vidro medieval.

Weeks nos pediu para nos sentarmos na nave e olhar para as pedras esculpidas, chamadas ornamentos, que cobrem as juntas onde as vigas se juntam em tetos abobadados. Então ele nos pediu que considerássemos o grande feito de içar esses ornamentos, cada um pesando pelo menos uma tonelada, no século 12: “As catedrais têm o poder, quaisquer que sejam suas crenças, de nos deixar de joelhos em sinal de reverência”, disse ele. Amém.

Castelo, pub medieval e a Távola Redonda

Perto da catedral fica o Kingsgate, um dos portões medievais da cidade. Do lado de fora, nas ruas de paralelepípedos, fica a casa onde Austen permaneceu antes de sua morte, que não é aberta ao público, e o Wykeham Arms, um pub dos anos 1700, marco de Winchester e um bom local para o almoço. O pub tradicionalmente atende pais e professores do Winchester College, um colégio particular de meninos na mesma rua, que foi fundado em 1382 como uma escola para a Universidade de Oxford e está aberto para visitas guiadas.

A uma caminhada de 20 minutos de Kingsgate ou ao longo do Rio Itchen está o Hospital de St. Cross, um albergue fundado em 1136 para homens e peregrinos pobres. Sua localização ribeirinha, jardins e arquitetura são adoráveis. Durante o verão, há um salão de chá no antigo Salão dos Cem Homens. E mesmo que você não entre, há um remanescente do tempo em que os peregrinos passaram por ele a caminho da catedral. Qualquer visitante ainda pode pegar o "Wayfarer's Dole", um copo pequeno de cerveja e um pedaço de pão, simplesmente pedindo no Porter's Lodge do hospital.

Ao encerrar o seu dia em Winchester, você passará pela High Street da cidade até o Westgate do século 12 e o castelo real de 1235. O que resta do castelo é o Grande Salão, um imenso espaço vazio sob um teto de madeira em arco. Pendurado na parede principal, há uma mesa enorme, de 6 metros de diâmetro, conhecida como a Távola Redonda do Rei Arthur.

Embora o livro do século 15 que registrava a lenda arturiana fixava Winchester como o local de Camelot, essa mesa redonda foi feita em 1290 para uma celebração real. Seu design pintado parece uma enorme placa de dardos. Henrique VIII determinou esse visual, que mostra seu rosto e a figura do Rei Arthur em trajes da época de Henrique.

Enquanto eu caminhava do Salão Principal de volta à estação de trem, lembrança da Winchester Cathedral continuava tocando, com seu refrão acusatório sobre a crueldade da torre da catedral. "You stood and you watched as my baby left town..." (Você ficou de pé e viu meu bem sair da cidade ...").

Se você for

1. Onde comer

Wykeham Arms, 75 Kingsgate St.

Pub famoso logo depois da catedral, decorado com recordações. Também inclui um hotel (quartos a partir de US$ 122.). Aberto diariamente para almoço e jantar, em horários variados. Entradas de almoço a partir de US$ 13, de jantar, a partir de US$ 20.

Reitoria de Chesil, 1 Chesil St. 

Os modernos menus britânicos de almoço e jantar são servidos em uma casa de 600 anos. Aberto diariamente para almoço e jantar, com horários variados. Entradas de almoço ou jantar a partir de US$ 21.

2. O que fazer

Catedral de Winchester

A catedral gótica que dominou a história da antiga capital da Inglaterra. Catedral, cripta e tesouraria abrem de segunda a sábado, das 9h30 às 17h; domingo, das 12h30 às 15h. Fechado durante os cultos.

A biblioteca (para a Bíblia Winchester) e "Reis e escribas: o nascimento de uma nação" estão abertas de segunda a sábado, das 9h45 às 17h, e domingo, das 12h30 às 15h, de abril a outubro. Aberto de segunda a sábado, das 10h às 16h, e domingo, das 12h30 às 14h30, de novembro a março.

Visitas guiadas à catedral (60 a 90 minutos) são oferecidas de segunda a sábado, das 10h às 15h.

Entrada (incluindo tour, biblioteca e exposição "Kings and Scribes") cerca de US$ 12; idosos cerca de US$ 10; estudantes cerca de US$ 8. Entrada gratuita para visitantes menores de 16 anos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

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