Bêbado a bordo

Já dizia Churchil: 'há dois tipos de bêbados insuportáveis: os que bebem demais e os que bebem de menos'

Mr. Miles, o homem mais viajado do mundo, O Estado de S.Paulo

17 Março 2009 | 02h13

Sem enviar notícias de seu atual paradeiro, nosso grande viajante inglês apenas responde à correspondência da semana:

Mr. Miles: está muito claro que o senhor aprecia beber seu scotch e espero que o faça com moderação. Não há nada mais desagradável do que viajar, num voo longo, ao lado de um bêbado. O senhor não concorda?

William Gonzales, por e-mail

"Well, my friend: depende do bêbado, se me permite. A mim, for instance, incomoda voar ao lado de pessoas malcheirosas ou excessivamente perfumadas. Também me desagradam os passageiros desrespeitosamente espaçosos, que ocupam, sem consulta prévia, os braços das poltronas, apoiam seus joelhos sobre as vértebras do vizinho da frente and so on.

Os bêbados, in fact, estão sumindo das companhias aéreas. Houve um tempo, indeed, em que a bebida farta vertia generosamente das garrafas de aeromoças sorridentes. Nowadays, however, o máximo que se obtém na maior parte das aerovias são doses pífias, previamente engarrafadas, e olhares recriminadores quando se ousa solicitar um refil. It's disgusting, isn't it?

Ainda outro dia, em um voo entre Londres e Atlanta, a comissária teve o desplante de oferecer-me uma dose de whisky dentro de um sachê similar aos que as lanchonetes de má qualidade usam para servir mostarda e os hotéis vulgares para oferecer xampu. Trashie, que estava, as always, silenciosa aos meus pés, teve um mal súbito ao ver o desprezível whisky em saquinho. Foi preciso que eu usasse a minha velha amizade com o comandante do avião - o bom Frank Taylor - para obter, no bar da primeira classe, duas garrafinhas de single malt que tiveram o condão de trazê-la de volta aos sentidos.

Anyway, sou obrigado a concordar com sua tese no que diz respeito aos bebedores exagerados de outros tempos, quando era permitido trazer líquidos a bordo. Certa feita, viajei ao lado de um simpático otorrinolaringologista que, entretanto, após ingerir uma quantidade notável de gin and tonic, cismou que precisava examinar meus ouvidos. Tanto fez meu vizinho que fui obrigado a despejar um sonífero no seu copo, providência que, by the way, resolveu o problema.

Confesso, however, que o excesso de sobriedade também pode ser um porre. Diversas vezes me ocorreu de ter de ouvir sermões de passageiros que só bebem água, indignados, oh my God!, com a presença de Trashie na cabine. Aos olhos da lei, of course, eles têm razão. Minha raposa-das-estepes-siberianas deveria viajar no compartimento de cargas, ao lado de outros animais de porte médio. Ocorre que Trashie é uma lady - e uma viajante experimentada. Senta-se sob a minha poltrona, não emite um único ruído durante o voo e é incapaz de saciar suas necessidades antes de desembarcar em local apropriado. As comissárias que a conhecem (e pode ter certeza de que são muitas) fazem, therefore, vistas grossas para sua delicada presença. Nada disso, porém, impede que os chatos de plantão entrem em ação as soon as possible.

Enfim, fellow, é como dizia, wisely, meu caro Winston (N.da R.: Winston Churchill, estadista inglês): 'Miles, my friend, existem dois tipos de bêbados absolutamente insuportáveis. Os que bebem demais e os que bebem de menos'. Don't you agree?"

*Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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