‘Beef or chicken’, eis a questão?

Quando a aeromoça aponta com aquele bendito carrinho no corredor da aeronave, minha incapacidade em tomar decisões se faz presente. Escolher o quê?

Gilberto Amendola, O Estado de S. Paulo

10 Outubro 2017 | 03h00

Hamlet fez aquele drama todo com um “ser ou não ser” só porque nunca precisou decidir entre “beef or chicken”. Quando a aeromoça aponta com aquele bendito carrinho no corredor da aeronave, minha incapacidade em tomar decisões se faz presente. Escolher o quê?

Sou do tipo que paralisa até no par ou ímpar. Sem exagero, delegaria a escolha do nome do meu filho para um desconhecido qualquer só pelo alívio de não ter de decidir. “Astrobaldo? Perfeito. Não poderia pensar em nome melhor”. Portanto, o beef e o chicken estão entre os maiores inimigos da minha saúde mental.  

Se vou de beef corro mais riscos de contrair uma desventura estomacal aguda? Se vou de chicken, condeno o meu paladar à proteína mais insossa do menu universal? Não, pior, se decido por beef, perco a chance de experimentar um extraordinário frango empanado diligentemente recheado com presunto e queijo. Calma, sério, se a opção for chicken, posso me arrepender por deixar escapar aquele picadinho de filé mignon ao molho madeira.

Eu sei, eu sei, muita gente diz que comida de avião tem sempre o mesmo gosto, que não passa de isopor aromatizado ou algo do tipo. Mas, a partir do momento em que faço uma escolha, a primeira escolha da minha viagem, é essa escolha que vai definir o sucesso ou o fracasso das minhas férias. Se eu começar escolhendo errado, posso contar com uma viagem repleta de percalços, de muita chuva e cartões de crédito que não passam. Mas, se escolher a refeição certa, ah, que maravilha! Posso encontrar o grande amor da minha vida ou pegar uma promoção de bebidas no free shop da volta. 

Rezo para a minha santa preferida, a santa Paola Carosella. Mas ela não me acode, não me traz nenhuma paz ou iluminação. 

Se ao menos fosse um voo doméstico... Se eu tivesse apenas de pegar a minha barrinha de cereais ou um saquinho de amendoim salgado... Bem, entre a barrinha e o amendoim, eu aceitaria um copo de água e dispensaria as duas opções. Mas não, infelizmente eu preciso tomar uma decisão. Fica muito feio se eu responder para a aeromoça algo como “você é quem sabe”? 

O carrinho continua se movimentando em minha direção. Tenho uma ideia genial. Vou ao banheiro! Peço licença ao senhor que está no assento ao meu lado. Ele resmunga e me avisa que o corredor está bloqueado por um outro carrinho que vem na direção oposta. Droga! Não posso fugir desse dilema. A solução é... Fingir que estou dormindo! Fecho os olhos e tento simular um ronco. Ouço vozes que repetem “beef”, “chicken”, “beef”, “chicken”...

Uma pequena turbulência me daria mais tempo para pensar. Uma chacoalhadazinha não vai machucar ninguém. Só preciso de uns minutinhos para meditar sobre o que comer. Diminuo meus batimentos cardíacos, chego ao nirvana, mas sou incapaz de tomar uma decisão gastronômica simples.

Tento avaliar quem pede o quê. Será que os mais legais estão indo de chicken ou beef? Os mais jovens estão escolhendo chicken. Mas os mais bem sucedidos optaram por beef... 

Percebo que o senhor ao meu lado já desceu a mesinha. O carrinho está chegando e... Isso! Vou pedir a opção vegetariana. Nem beef, nem chicken! Vou me fingir de vegano ou de religioso. Vou... Mas tem um problema aí. O voo é longo. Se eu não comer algo que me sustente, posso ter fome. E, se eu tiver fome, na hora de passar pela imigração posso responder alguma bobagem e ser proibido de entrar no país. Melhor escolher logo entre beef e chicken. Sim, claro, vou esperar o meu colega do lado se decidir e dar uma espiadinha. Vou ver a cara do prato antes de pedi-lo. A gente come com os olhos, já dizia a avó de alguém. 

A aeromoça está chegando, respiro fundo. Ela vai perguntar primeiro ao sujeito do meu lado. “Pasta or...”

Pasta, pasta, como assim? Veio a turbulência. O serviço é interrompido. E eu ganho mais alguns minutos para pensar nas vantagens e desvantagens de experimentar um capeletti ao sugo ralo com gosto de quase nada. 

 

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