Adriana Moreira/Estadão
Adriana Moreira/Estadão

Belém, para degustar e instigar o paladar

Acostume-se a passar o tempo todo com água na boca. Dos pratos mais simples aos mais sofisticados, a gastronomia da capital cativa com criatividade e temperos únicos

Adriana Moreira, O Estado de S. Paulo

10 Fevereiro 2015 | 03h00

Jambu, tucupi, maniçoba. Tucunaré, pirarucu, filhote. Açaí e cupuaçu, talvez; e taperebá? Se você conhece todas as palavras (e sabores) citadas acima, provavelmente já esteve em Belém. Com ingredientes únicos, que se combinam graças a mãos habilidosas de chefs reconhecidos, como Thiago Castanho, do premiado Remanso do Bosque, a capital paraense vem se firmando como um destino gastronômico por excelência.

A principal dica para quem vai debutar na cidade é: não tenha medo de provar. As misturas não são uma unanimidade – o jambu adormece a boca e pode causar estranheza no começo, mas como imaginar um belo tacacá sem a folha típica da Amazônia? Chocolate e cupuaçu parecem feitos um para o outro e o suco de taperebá (cajá) é viciante. 

O açaí, por sua vez, é bem diferente do vendido por aqui. No Pará, serve-se a fruta batida para acompanhar peixe frito, com farinha de tapioca. Uma delícia.

A chuva cai todas as tardes, o calor é constante e a segurança, um problema em pontos turísticos como o Mercado Ver-o-Peso. Ainda assim, não deixe de visitá-lo: apenas preste atenção na bolsa e no celular, principalmente quando estiver fotografando. Prefira ir pela manhã, quando está tudo fresquinho.

VER-O-PESO

Retrato da diversidade

Carmelita dos Passos Rocha, 45 anos de Ver-o-Peso, é uma enciclopédia das frutas paraenses. “Jambo-rosa, camu-camu, bacuri, uxi, ingá-chinela”, dispara, enquanto mostra uma a uma. Nem todas as barracas do histórico mercado, fundado no século 17 na Baía do Guajará, exibe tamanha variedade.

Variedade essa que resume o tom do Ver-o-Peso, considerado a maior feira livre da América Latina, onde mais de 3 mil pessoas trabalham diariamente. São muitos mercados em um só, que vende peixes, carnes, garrafadas, ervas para temperar e para feitiços, farinhas dos mais diversos tipos, grãos, castanhas e até tucupi (líquido extraído da raiz da mandioca brava e usado em muitos pratos da cozinha local). Sem falar das boieiras, que vendem “a boia” – o almoço. Peixe frito com açaí faz sucesso ali. 

Tal variedade atrai também os chefs de Belém, que têm suas barracas favoritas. “Adoro vir aqui. Antes as pessoas não gostavam de ir ao mercado, mas não há lugar melhor para encontrar produtos frescos”, diz Daniela Martins, que comanda o restaurante Lá em Casa, especializado em pratos regionais. É ali que ela escolhe os peixes, os temperos e as frutas que vai servir aos clientes mais tarde, logo ao lado, na Estação das Docas.

Além das frutas de Carmelita, outra parada fundamental é na barraca de Beth Cheirosinha, cujas garrafas guardam misturas para todos os males, sejam eles de saúde, dinheiro ou amor. Produzida e desinibida, ela mostra com orgulho as fotos com as celebridades que já passaram por sua barraca.

TACACÁ

Delícia de fim de tarde

Tacacá em Belém é uma coisa pessoal. Há quem prefira o caldo que leva tucupi, jambu e camarões secos com mais ou menos goma de mandioca. O do Colégio Nazaré (Avenida Nazaré, altura do 902) está sempre na lista dos melhores da cidade. Dona Maria, que deu fama ao ponto ao longo de 45 anos, morreu em 2014, mas deixou a receita ao filho, Bito, que continua a servir a iguaria.

Apesar do calor constante da cidade, o tacacá servido quente na cuia cai bem e é uma delícia. É comida de fim de tarde, para aplacar a fome antes do jantar – as barracas abrem às 17 horas. Outros dois famosos na capital são o da Elaine (Rua Ferreira Pena, 422, Umarizal) e do Renato (Avenida Duque de Caxias).

CACHAÇA

Jambu e outras misturas

O bar Meu Garoto ficou famoso por misturar jambu à cachaça (R$ 4 a dose), uma criação de seu proprietário, Leodoro Porto, que fez outras dezenas de misturas. Há ainda rótulos do Brasil todo e, para acompanhar as bebidas, serve-se caldinho de legumes com carne – mas há outros petiscos no cardápio. O clima é de boteco – acotovele-se para um lugar no balcão ou beba em pé mesmo, como boa parte dos clientes faz. Fica na Rua Senador Manoel Barata, 928.

AÇAÍ

Coma com peixe

A fruta é tão importante em Belém que existe até uma “bolsa do açaí”: o preço da fruta, vendida a partir das 4 horas da manhã no Mercado Ver-o-Peso, varia de acordo com a produtividade do dia. E está sempre presente na mesa paraense. 

Você até pode encontrar alguma versão com banana e granola, mas acredite: o sabor é diferente do que se está acostumando no Sul e Sudeste do País. Como sobremesa, mistura-se o açaí batido a açúcar, gelo e farinha d’água. Há também sorvetes. 
O mais comum, contudo, é comer como acompanhamento de peixe frito, tal qual um purê, acompanhado de farinha de tapioca. O Point do Açaí (pointdoacai.net) é o local mais tradicional para provar a mistura – eles também fornecem para outros restaurantes da cidade. A refeição, com filhote frito ou grelhado, arroz, farinha e vinagrete, vem bem servida e custa R$ 42,90. Há duas unidades: próximo ao Mangal das Garças, na Rua Veiga Cabral, e Bulevar, em frente à Estação das Docas.

ESTAÇÃO DAS DOCAS

Agito com vista

Bem ao lado do Ver-o-Peso, a Estação das Docas deu novo fôlego à região no ano 2000. Depois de restaurados, os galpões do século 19 se transformaram em um polo turístico de 32 mil metros quadrados. Ao todo, são três armazéns, por onde se espalham restaurantes, lojas e um burburinho ao entardecer. Diariamente, há apresentações musicais nos palcos deslizantes – antigos transportadores de carga, que ficam suspensos sobre o público. Para ver a programação: estacaodasdocas.com.br.
Dá para sentar no restaurante Lá em Casa, observando a Baía de Guajará, saboreando delícias como filhote (peixe) com arroz de jambu ou pirarucu com redução de tucupi (pratos a partir de R$ 50); provar a cerveja artesanal Amazon Beer (são sete tipos de chope, com ingredientes regionais); levar para casa lembrancinhas, como os chocolates recheados de castanha-do-pará e cupuaçu (dos deuses); e se jogar nos sabores regionais da tradicional sorveteria Cairu (há ainda outras nove unidades). Entre as 60 variedades, tapioca, açaí, carimbó, taperebá e o onipresente cupuaçu. A bola, bem servida, custa R$ 4.

HAMBÚRGUER

Além do x-salada

O x-salada tradicional está no cardápio. Mas as estrelas locais levam ingredientes típicos, como jambu e maniçoba (parece uma feijoada, mas com folhas de mandioca no lugar do feijão), em duas hamburguerias da cidade. Na Circus, o jambúrguer, com folha de jambu refogada no alho, além de castanha-do-pará e queijo Marajó, deu fama à casa – a versão com hambúrguer de 160 gramas custa R$ 22,90. A casa conta com duas unidades, nos bairros Umarizal e Nazaré. Mais: circushamburgueria.com.br.
Outra lanchonete que colocou no pão os sabores da mesa paraense foi a The Nine (Rua Diogo Móia, 1.114). O cardápio da casa está sempre em transformação – há nove opções e o “dez da vez”, uma criação especial. Entre as opções, Amazônia em Chamas (hambúrguer de pimenta com queijo Marajó), Delírio Amazônico (hambúrguer de maniçoba e queijo Marajó), Selvagem (com queijo Marajó, jambu e molho arubá, feito de tucupi; foto) e Patupi (no pão francês, leva lascas de pato no tucupi e folha de jambu). Preço médio: R$ 20.

PREMIADO

Remanso regional 

Sete restaurantes brasileiros figuram na lista dos 50 Melhores da América Latina de 2014, apenas um deles fora do eixo Rio-São Paulo: o Remanso do Bosque, dos irmãos Thiago e Felipe Castanho, que ficou na 34ª colocação. Aberta em 2011, a casa abusa da criatividade nos pratos, sem deixar de usar ingredientes locais. 
Quando visitei o local, o menu degustação de 13 pratos incluiu delícias como a manga com farinha (similar a um ceviche) e pirarucu defumado com banana-da-terra e urucum. O restaurante, atualmente, passa por uma reformulação no serviço e não está servindo o menu degustação. Mas serve o filhote assado, com salada de feijão-manteguinha e macaxeira (R$ 120, para dois) e a inesquecível sobremesa de musse de chocolate de Combu com doce de cupuaçu (R$ 17). Travessa Perebebui, 2.350; 91-3347-2829).
A família Castanho tem outra casa, o Remanso do Peixe (Travessa Barão do Triunfo, 2.590, casa 64), com menu mais tradicional. Foi ali que os irmãos deram os primeiros passos na cozinha, ao lado do pai. Entre as especialidades, a moqueca Seu Chicão, com peixe cozido no molho de tucupi espessado com jambu (R$ 130, para dois). 

Festival propõe imersão nos sabores locais

Realizado sempre em maio, o Festival Ver-o-Peso da Cozinha Paraense foi idealizado pelo chef Paulo Martins, um conhecido valorizador dos ingredientes da Amazônia, que comandava o restaurante Lá em Casa. Depois de sua morte, em 2010, sua mulher e as filhas deram continuação ao seu trabalho, cuidando não apenas dos sabores do restaurante fundado em 1972, mas também de projetos paralelos. O principal deles é justamente o festival (hoje realizado pelo Instituto Paulo Martins), cujo objetivo é colocar chefs de todo o País em contato com a culinária local.
No ano passado, Alex Atala (D.O.M) e Henrique Fogaça (Sal Gastronomia e jurado do Masterchef Brasil) compuseram o time de convidados. Na programação, há palestras e jantares especiais – a festa termina com o Chefs na Praça, com petiscos gourmet a preços acessíveis. Em 2015, o evento ocorre de 27 a 31 de maio. Acompanhe: veropesodacozinhaparaense.com.br.

Mais conteúdo sobre:
BelémPará

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.