Bem-vinda deselegância

Como sempre ocorre nesta época do ano, leitores de todas as partes do Brasil escrevem para nosso viajante britânico questionando do que vale uma vida itinerante se um homem não tem família para compartilhar o Natal. Mr. Miles agradece a "preocupação" de seus admiradores e volta a lembrar que, "além das tias, primas e primos com os quais, by the way, não compartilho uma ceia de Natal há muitas décadas em função da má performance dos cozinheiros disponíveis", sua família espalha-se generosamente pelo mundo e, eventualmente, nem compartilha da fé cristã. "Dividir uma mesa com pessoas queridas é muito melhor do que qualquer motivo para fazê-lo", assegura nosso correspondente que, neste Natal, estará junto à família Jakac, em Liubliana, na Eslovênia. Edvard Jakac, antigo mordomo de Tito, é hoje concierge de um hotel renomado e "of course, faz parte da família Miles nos Bálcãs". A seguir, ele responde à pergunta da semana: Querido mr. Miles: toda vez que viajo, opto por uma bagagem leve e prática. O resultado é que acabo ficando cada dia mais desarrumada, parecida com o personagem Agostinho, de A Grande Família. O que o senhor acha sobre isso? Valquíria Rosângela Carneiro, por e-mail "Well, my dear: não é preciso ser um observador muito arguto para descobrir que, em viagens de férias, a primeira vítima é, quase sempre, a elegância. Never mind: o uso de roupas amarfanhadas, de cores destoantes, em situações inconvenientes é característica de turistas de múltiplas nacionalidades em diversas partes do mundo. A falta, nesse caso, é quase sempre compreensível e justificável. Mais vale um viajante com poucas peças de roupa em uma bagagem praticável que um turista condenado a transportar baús de uma cidade a outra, sem o auxílio dos serviçais de outrora. Roupas contadas, usually, significam combinações esdrúxulas. Tenho visto, here and there, modelitos tão improváveis que só me resta esperar que a viagem realizada tenha sido muito mais rica e proveitosa que as fotos que dela restarão. No extremo oposto, conheço algumas amigas que viajam com tanta bagagem que, in fact, muito pouco lhes importa o lugar em que estão. A preocupação que têm de estar sempre bem na foto é, often, muito maior que o interesse em saber ?o que é este prédio todo quebrado atrás de mim??. Referindo-se, claro, ao Coliseu ou ao Partenon. Há, by the way, pessoas naturalmente elegantes, que sabem misturar a boa prática do light traveling com uma inigualável habilidade de compor a bagagem com itens precisos que, sempre que chamados ao corpo, resultarão em aparência adequada e repleta de frescor. Essas, I?m sorry to say, são uma minoria que, seguramente, passará ao largo dessas mal traçadas linhas. Nesse particular, by the way, tem razão minha boa amiga Charlotte (N. da R.: Charlotte Rampling, atriz inglesa) ao invejar as mulheres muçulmanas que, com quatro ou cinco boas burcas, podem dar a volta ao mundo sem qualquer risco de parecerem deselegantes. O mesmo, of course, se aplica a freiras, a monges tibetanos e, last, but not least, a este modesto escriba, que, adepto do terno e do bowler hat, corre o risco de aparecer antiquado. Jamais, porém, esquisito. Do you know what I mean?" * Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele já esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

Mr. Miles, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2008 | 01h01

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