Paulo Favero/Estadão
No passeio pelo desfiladeiro o inusitado encontro com um guanaco Paulo Favero/Estadão

Bem-vindo ao fim do mundo: os encantos de Torres del Paine

No extremo sul do Chile, o parque nacional oferece passeios tanto para trekkers experientes quanto para quem vai em busca de contemplação

Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 17h10

O fim do mundo é lindo. E te deixa sem fôlego. Literalmente e metaforicamente. Explorar o Parque Nacional Torres del Paine, no extremo sul do Chile, exige caminhar e um bom pique. Mas o que se vê na paisagem vale cada gota de suor. 

A exigência física é para todo tipo de pessoa, desde os mais atléticos até os mais sedentários. Claro que quanto melhor o preparo físico, maior o número de opções de passeios. O mais emblemático é a subida à base das torres, principal cartão-postal do parque. São cerca de 22 quilômetros, metade subindo, metade descendo, e leva o dia inteiro - em média, oito horas.

As três torres de granito, que foram esculpidas pelos glaciares ao longo de séculos, têm sempre uma centralidade nos passeios. Mas não se assuste: além dos diversos circuitos de caminhadas com diferentes graus de dificuldade, há outras opções para explorar os 283 mil metros quadrados do parque. Percorrer as trilhas a cavalo, de barco ou mesmo de carro são possibilidades que tornam os circuitos mais democráticos. 

As agências de Puerto Natales também oferecem passeios de ônibus, que duram o dia inteiro e param em diversos pontos dentro e fora do parque. Eles costumam buscar no hotel e trazer de volta – algumas incluem refeições e entradas, em outras o valor é pago à parte. Os preços começam em uma média de R$ 200.

Para chegar, é preciso voar da capital Santiago até Punta Arenas, e depois seguir por cerca de 300 quilômetros por uma boa estrada até o parque. Outra possibilidade é voar de Santiago para Puerto Natales, que fica a apenas 80 quilômetros do parque - mas esse trajeto só funciona durante a altíssima temporada, entre dezembro e fevereiro.

Para todos

Nas proximidades do parque existem acomodações para todos os tipos de gosto e bolso - mas já vale reforçar que não é muito barato ficar perto do parque. Existem hotéis luxuosos, com o sistema all-inclusive, até pousadas, acampamentos e refúgios no meio das trilhas (neste caso, é preciso agendar pelo sistema de reservas do parque). Algumas pessoas optam por ficar em Puerto Natales e fazer todos os dias o trajeto de carro até o parque.

 

Em uma viagem como essa, o planejamento é importante para definir a quantidade de dias que o turista pretende ficar na região. Geralmente, quatro ou cinco noites é o período ideal para os passeios principais, mas todo mundo vai embora com a sensação de querer ficar um dia a mais. 

As paisagens únicas atraem cerca de 500 mil pessoas por temporada ao parque. Para se ter uma ideia, há 20 anos o número de visitantes girava em torno de 18 mil. A maior parte do público se concentra em sete ou oito meses no ano - muitos hotéis fecham no fim de maio e só voltam a abrir em outubro. O parque, contudo, fica aberto o ano todo.

Esse aumento no número de turistas promoveu também um processo de regulamentação. Fazer fogo no parque é proibido desde o grande incêndio de 2011 e é preciso levar todo lixo produzido para fora do parque. Afinal, preservar é a prioridade - e os visitantes vêm justamente por causa do contato com a natureza. 

DICAS

* Esteja preparado para a ausência de banheiros em algumas trilhas. Muitas vezes o matinho é a única solução possível.

* No Parque Nacional não há sinal de celular. Desligue-se e conecte-se com a natureza.

* Por se tratar de uma área isolada, leve remédios de primeira necessidade.

* O clima seco em qualquer época exige boa hidratação. Tenha sempre uma garrafa d'água a tiracolo.

 

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    Roteiros até para sedentários

    Do super exigente Circuito W a programas mais 'light', há muitas formas de explorar o Parque Nacional

    Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

    06 de setembro de 2019 | 17h00

    Torres del Paine é um destino para amantes das trilhas e caminhadas. Então o primeiro desafio era saber o quanto eu aguentaria estando muitos quilos acima do peso e levando uma vida sedentária há alguns anos. No grupo de jornalistas viajantes estavam um maratonista, um fotógrafo em boa forma física e duas mulheres com pique de fazer inveja. E eu.

    Logo de cara já tinha percebido que não conseguiria fazer a trilha para a base das três Torres, que dura o dia inteiro em nível difícil. Talvez até aguentasse, pois muitas vezes é a cabeça que dita o ritmo do esforço. Mas pensei que poderia me machucar caso não tomasse cuidado. Meu alívio foi que tinha à disposição outras opções de passeios.

    Obviamente é para se lamentar não conseguir ir até a base das Torres. Meus colegas retornaram radiantes - e exaustos - da caminhada de 22 quilômetros. No entanto, nesse mesmo dia eu acabei fazendo dois passeios que me contemplaram e proporcionaram ótimos momentos.

    Devagar e sempre

    A caminhada bastante agradável foi pela Laguna Azul e Cañadón Macho. Nesse trajeto de aproximadamente 8 quilômetros, de nível baixo de dificuldade, o viajante percorre trilhas que passam por lugares de beleza ímpar. A todo momento dá vontade de tirar fotos, então cada parada para retomar o fôlego acaba sendo estratégica para ampliar o álbum da viagem.

    Benedito de Toledo Junior, arquiteto de 57 anos, teve uma inflamação nas costas e parou de se exercitar antes de ir para Torres del Paine. Sua mulher Lucila, uma veterinária de animais silvestres, de 60 anos, tinha conhecido o Atacama, no norte do Chile, e quis desta vez ir para Torres del Paine. O casal então tratou de se aventurar pelas trilhas do parque e eles foram meus companheiros na empreitada. "Minhas pernas reclamaram, mas minha autoestima está alta", comentou Toledo.

    Pinturas rupestres

    Existem outras excursões pelo parque, como uma que leva até rochas com pinturas rupestres feitas pela tribo dos Aonikenk, índios nômades que viveram na região. É chamada de Trilha dos Caçadores e tem cerca de 8 quilômetros, que podem ser percorridos com calma e sem grande esforço - exceto na subida da montanha que leva às pinturas rupestres, de onde se tem uma visão bem bonita do vale.

    E foi pelo caminho menos atlético que me aventurei por Torres del Paine, que oferece possibilidades diversas para além das grandes caminhadas em trilhas, como excursões de bicicleta, caiaque e até cavalo. A Estância Lazo recebe os turistas para uma cavalgada bucólica em um lindo bosque que culmina em um local de vista incrível. Uma outra excursão a cavalo, nas estepes de Baguales, requer uma experiência maior para a cavalgada.

    "A gente tenta se adaptar ao máximo ao turista. Por isso criamos passeios exclusivos como Cornizas e as cavalgadas, que refletem ainda mais a cultura patagônica. E todos os anos pesquisamos, nossos guias também trazem ideias, para ver o que podemos oferecer como novidade", explica Constanza Leiva Arellano, diretora de marketing da rede Tierra Hotels.

    A excursão para Cornizas, citada pela executiva, é um grande achado na Patagônia. São cerca de 3 quilômetros de caminhada para chegar ao topo de um morro em Cerro Guido (depois precisa voltar ou seguir em frente por mais alguns quilômetros). Do penhasco, o viajante tem uma vista impressionante do vale, com o maciço Paine à frente. A presença de enormes condores é constante, com seus balés nas correntes de ar.

    Ao final de cada atividade, existe um momento de relaxamento que serve também para conversar sobre o passeio: os guias costumam montar uma mesa ao lado da van para o piquenique improvisado, com bebida gelada, incluindo cerveja local, e petiscos variados. É lá que você já começa a pensar na próxima caminhada.

    Nível avançado

    Quem vai em busca de trekking pesado, no entanto, encontra no Circuito W - o mais famoso do parque - seu principal desafio. O trajeto compreende 71 quilômetros e quatro dias de caminhada, passando por paisagens lindas, mas enfrentando frio e carregando na mochila itens de acampamento e alimentação. É preciso planejamento: o parque exige reserva para pernoitar nas áreas de acampamento, e a cada temporada pode haver mudanças na logística do circuito - vale sempre consultar o site do parque.

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    Uísque com gelo de iceberg e as paisagens do Glaciar Grey

    Tour de barco coloca os turistas cara a cara com o paredão gelado

    Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

    06 de setembro de 2019 | 17h00

    Imagine imensos blocos de neve compactada sobre a terra, como grandes montanhas de gelo, que alimentam um lago com a água oriunda de seu derretimento nos meses mais quentes. É assim que se apresenta o Glaciar Grey, um dos passeios mais emblemáticos da região de Torres del Paine.

    O tour começa com uma pequena caminhada por uma trilha, que passa por uma praia até chegar ao barco.   Por causa das baixas temperaturas, os turistas preferem ficar dentro da embarcação no início da navegação. Aos poucos, a paisagem atrai as pessoas para fora – por isso, vá bem agasalhado com luvas, gorro e cachecol.

    Para esquentar, são servidas bebidas alcoólicas, principalmente uísque, que pode ser apreciado com gelo extraído do próprio glaciar. Todos os dias, uma equipe do barco retira uma pequena quantidade de gelo dos icebergs que estão boiando no lago. Pode ser puro marketing (ou a percepção alterada de quem já tomou umas a mais), mas todos dizem que o gelo deixa a bebida mais gostosa. Eu experimentei e aprovei.

    No trajeto pelo lago, passamos por vários icebergs até chegar ao glaciar.  O visual é lindo e as cores mudam bastante a cada manobra. No outono, o frio é intenso e piora com o vento polar. Em busca da melhor foto, subi ao andar superior do barco - onde fazia ainda mais frio. Uma dica dada pelos guias é colocar as mãos por dentro do colete salva-vidas, de uso obrigatório. Isso ajuda a esquentar os dedos e manter o aquecimento das mãos entre uma fotografia e outra. 

    É incrível ver como esse glaciar faz parte de uma perfeita rede hidrológica que alimenta dezenas de rios e lagos no parque, todos formados a partir da água do degelo dos glaciares, e não de nascentes, como estamos acostumados a ver no Brasil. Esses canais riscam a região e deságuam em lindos lagos de cores cujas matizes percorrem do azul ao verde.

    Aquecimento global

    Com atuais 24 quilômetros de comprimento por 6 quilômetros de largura, a geleira vem perdendo de 4 a 6 metros de seu tamanho por ano. E ela não é a única: no total, são 48 glaciares no lado sul da Patagônia e apenas dois não retrocedem dramaticamente: Pio XI, no Parque Bernardo O'Higgins, e o Perito Moreno, em El Calafate, na Argentina. Muitos culpam o aquecimento global e garantem que 98% do gelo do mundo está se retraindo. E essas enormes montanhas de gelo compactado têm uma importância em Torres del Paine.

    Depois de ver bem de perto o Glaciar Grey, o barco começa a retornar para seu porto. Quem opera o passeio é  o Turismo Lago Grey. O trajeto ida e volta na baixa temporada custa 75 mil pesos (R$ 430).

    No trajeto de volta, uma parada obrigatória, dentro do parque, é na Cachoeira do Salto Grande. A placa de sinalização logo avisa que o vento é muito forte no local e chega a passar os 100 km/h. É como se um ventilador fosse direcionado para a curta trilha, o que faz com que o passeio seja ainda mais curioso. De lá, é possível ter uma ótima vista da queda d’água e se impressionar com o som dos ventos uivantes.

     

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    Puma, de fera temida a cobiçada pelos turistas

    Há várias empresas que fazem tours para clicar o animal - estima-se que haja 90 indivíduos na região de Torres del Paine

    Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

    06 de setembro de 2019 | 17h00

    O olhar atento de Rosita ao volante da van não perde qualquer detalhe na paisagem. Mesmo com pouca luz natural, já que no outono patagônico o sol nasce por volta de 9h da manhã, ela percebe a movimentação perto de um morro. Logo avisa o guia Marco Ojeda de que tem um puma ali. Ela estaciona o veículo e, com a ajuda do binóculo, vem a confirmação de que o enorme felino das Américas está lá.

    Uma das dicas foi a presença dos chamados "trackers", rastreadores que se especializaram em seguir os pumas para depois levar turistas para fazer imagens. É um negócio, cada vez mais lucrativo, feito por fazendeiros da região. Na beira da estrada, pessoas com roupas camufladas e lentes enormes ficam na expectativa para fotografar o animal. Obviamente, nem sempre o resultado é positivo.

    Esse tipo de excursão tem gerado um debate sobre o quanto a presença dos humanos cada vez mais perto dos pumas pode causar estresse aos felinos, que na região chegam a 3 metros, da ponta do rabo até a cabeça, e podem pesar mais de 100 kg. Eles não são monitorados, mas estima-se que existam cerca de 90 na região.

    "O puma tem mais medo da gente do que a gente dele. Quando vê alguém, ele logo se afasta", explica Basilio Reinika, que coordena os guias no hotel Tierra Patagonia. Ele explica que alguns indivíduos até ganharam apelidos, como Scarface e Sarmiento. "Tem até um que não tem o rabo", diz.

    O felino não tem hábito de atacar humanos. Em vez disso, prefere se alimentar de guanacos (espécie de primo da lhama), vistos aos montes na paisagem. Quando consegue caçar um, o puma se alimenta principalmente das vísceras. Depois, satisfeito, deixa o animal morto para trás e daí aparecem condores, gaviões, raposas e até tatus.

    Até consegui fotografar o puma. Foi preciso usar um zoom exagerado para ver um pontinho amarelado, camuflado em meio às estepes. Eu sei que ele está lá, mas seria difícil para qualquer outra pessoa encontrá-lo na imagem. Desculpe, leitor. 

    Há diversas empresas especializadas no passeio, mas também é possível reservar nos próprios hotéis. Mesmo sem comprar o pacote específico de perseguição ao puma, o viajante tem a possibilidade de encontrar o animal por acaso. Só é preciso ter o olhar atento como o de Rosita.

     

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    Como ir e onde ficar na região de Torres del Paine

    Região tem hotéis luxuosos, como o Tierra Patagonia, e refúgios simples

    Paulo Favero, O Estado de S.Paulo

    06 de setembro de 2019 | 17h00

    Em uma região na qual a caminhada é o carro-chefe, nos arredores do Parque Nacional Torres del Paine, repousar numa cama quentinha faz diferença para recuperar as energias e encarar as trilhas do dia seguinte. Com quartos espaçosos, serviço cuidadoso e integração com o meio ambiente, o Tierra Patagonia tem um clima descontraído, mas sem descuidar do conforto. 

    O hotel foi projetado de modo a não agredir a natureza do entorno - mesmo visualmente. De longe, ele parece camuflado na paisagem. É um prédio horizontal, da altura de um sobrado, feito de madeira. O plástico foi abolido - os hóspedes ganham garrafas com a marca da empresa, que podem ser enchidas em bebedouros e levadas para as trilhas no parque.

    São 40 suítes espaçosas, onde os hóspedes podem se desconectar do dia a dia. Afinal, não há sinal de celular ou internet - a comunicação é feita por rádio, quando necessário. Assim, sobra tempo para curtir as piscinas interna e externa, ambas aquecidas e com vista para as Torres. Ou saborear sem interrupções as refeições incluídas no sistema all-inclusive, com um preparo cuidadoso e acompanhadas por vinho e sobremesa. É possível ainda curtir o spa com massagens (pagas à parte) ou fazer as aulas de ioga (essas, incluídas na diária). 

    Os passeios também fazem parte do pacote, com guias que recebem aulas com especialistas em glaciação, botânica, ornitologia, história e geopalentologia, além de primeiros socorros. Eles chegam um mês antes de a temporada começar e vivem numa vila própria, criada pelo hotel. "Temos 130 pessoas trabalhando aqui e tivemos de criar uma mini cidade”, conta  Constanza Leiva Arellano, diretora de marketing da rede Tierra Hotels. O pacote de quatro noites, com tudo incluído, custa a partir de US$ 9.200 o casal. Em outubro, a promoção é poder levar até duas crianças hospedadas no mesmo quarto dos pais sem custo extra. Site: tierrahotels.com/pt/.  

    Outras opções

    O site torresdelpaine.com reúne uma lista com as principais hospedagens da região, de hotéis luxuosos a hostels. Quem pretende fazer as longas caminhas dentro do parque que exigem pernoite em campings ou refúgios precisa fazer reserva. Baixe o mapa e planeje com calma as trilhas para saber quantas reservas serão necessárias para o tour. No site do Parque Nacional há todas as orientações para os trekkers. 

    Como chegar

    Os voos a Puerto Natales, cidade mais próxima a Torres del Paine, só são operados pela Latam entre dezembro e fevereiro, na altíssima temporada. No resto do ano, voe até Punta Arenas e percorra os 300 km restantes em transfer, carro alugado ou ônibus – compre em bussur.com. Se quiser esticar a viagem, há ônibus de Puerto Natales a El Calafate, do lado argentino.

     

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