OIliver Lang/Visit Berlin
OIliver Lang/Visit Berlin

Berlim: fim e recomeço

Palco dos últimos suspiros da Bauhaus, a capital alemã traz em seu urbanismo muitas marcas da escola, como os monumentais conjuntos habitacionais

Mônica Nóbrega, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2019 | 03h50

A Bauhaus deu seus últimos suspiros como escola entre 1932 e 1933. Enxotados de Dessau pelo partido nazista, o diretor Ludwig Mies van der Rohe e equipe mudaram suas salas de aula e ateliês para o espaço improvisado de um prédio industrial desativado no bairro de Steglitz. Demorou dez meses até que a pressão dos nazistas obrigasse ao seu definitivo fechamento e o exílio de seus artistas. Hoje, há só uma placa por ali, na Birkbuschstrasse, 49.

O pintor húngaro László Moholy-Nagy, por exemplo, foi para Chicago em 1937, fundou a escola Nova Bauhaus, depois rebatizada de Instituto de Design, e tornou a cidade americana o ícone arquitetônico que ela é hoje. 

O legado da Bauhaus tem papel importante no urbanismo de Berlim. Muitos dos arquitetos e artistas da escola continuaram a criar projetos para a cidade. Conjuntos habitacionais monumentais se espalham por vários bairros. Fechado até 2022 para reforma e ampliação, o Arquivo Bauhaus organizou uma série de tours para desvendar essa herança. 

Gropiusstadt, o lar de Christiane F.

Em 1958, Walter Gropius foi convocado para projetar o primeiro conjunto habitacional de grandes proporções de Berlim. A ideia era fornecer condições de vida mais dignas aos trabalhadores das periferias, em apartamentos dotados de aquecimento central, em prédios construídos em meio a cinturões verdes, espaços de comércio, serviços e lazer. A pedra fundamental foi colocada em 1962; antes, em 1961, o Muro de Berlim foi construído e “comeu” um pedaço do lote destinado ao projeto, o que reduziu espaços. Com o tempo, a Gropiusstadt ficou marcada pela criminalidade. 

A Gropiusstadt guarda uma curiosidade. Foi ali que cresceu Christiane Felscherinow, a adolescente dependente de heroína do livro que no Brasil ganhou o nome de Eu, Christiane F. Na autobiografia, Christiane descreve o apartamento de sua família: “Ali nos instalamos em um apartamento de dois cômodos e meio, no décimo primeiro andar. O meio cômodo era o quarto das crianças. Todas as coisas bonitas de que minha mãe nos falara jamais caberiam ali (...). De longe, tudo tem um ar de novo, tudo parece muito bem-cuidado, mas, quando se está dentro, entre os prédios, fede a xixi e a cocô”. 

Uma série de workshops e atividades artísticas gratuitas vai celebrar o centenário da Bauhaus na Gropiusstadt em setembro e outubro. 

O que mais ver 

Os vários passeios guiados organizados pelo Arquivo Bauhaus levam a outros endereços importantes ligados à escola em Berlim: 

Siemenstadt

No norte de Charlottenburg, Gropius, Hugo Häring e Hans Scharoun projetaram prédios destinados a trabalhadores de baixa renda da Siemens, construídos de 1929 a 1934. São patrimônios da Unesco desde 2008. Scharoun viveu ali. 

 

Hufeisensiedlung

Também patrimônio da Unesco, é chamado de “ferradura” por causa de sua forma. Projetado por Bruno Taut e Martin Wagner, fica em Neukölln e tem mais de mil apartamentos, erguidos de 1925 a 1933. Ali, um café abriga exposição, lojinha e indica tours temáticos

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