João Pedro Marnoto/NYT
João Pedro Marnoto/NYT

'Blitze' em albergues de luxo de quatro metrópoles

Estabelecimentos investem em design e serviços para mudar a imagem de territórios das mochilas, beliches e banheiro coletivos. Será que conseguem?

SETH SHERWOOD, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2013 | 02h13

Momentos antes de descer para a degustação de vinhos no bar do lobby, enxaguei do cabelo o xampu com extrato de chá verde, peguei a toalha em cima da cama queen size e, com uma xícara de café expresso na mão, fui me acomodar numa poltrona Philippe Starck. A tela plana de uma TV tremeluzia na saleta da minha suíte, mas eu estava mais interessado na paisagem que via pelas portas de vidro da varanda: os telhados alaranjados de Lisboa e a luminosidade suave do pôr do sol.

Será que eu realmente estava em um albergue?

Difícil acreditar que as instalações individuais espaçosas e o casarão do século 19, antiga residência de embaixador, de fato se enquadrassem numa categoria de hospedagem cujo nome faz pensar em mochila, beliche e banheiro coletivo. Mas era isso mesmo: "Albergue & Suítes" era o que estava escrito em um cartão de visitas, logo abaixo do nome do estabelecimento criado há dois anos, o Independente (theindependente.pt).

Os albergues europeus experimentam um renascimento de luxo. Jacuzzi na cobertura do Bunk, em Istambul; sala de cinema no Design Hostel Goli & Bosi, na croata Split; um elegante nightclub no One80º, em Berlim: as novas instalações tentam elevar o padrão de um modelo que há pouco tempo era o equivalente, em termos de hospedagem, aos ônibus rodoviários.

"Temos de redefinir o conceito de albergue", diz Carl Michel, presidente executivo do Generator Hostels, um grupo do Reino Unido que afirma ter por missão "combater a mitologia dos albergues com estabelecimentos sofisticados e contemporâneos, operando em locais centrais e seguros e praticando preços acessíveis".

O Generator exemplifica o boom de albergues de primeira linha. Com um aplicativo para iPhone e um designer de grife como Anwar Mekhayech (cujo currículo inclui clientes como o Soho House), nos últimos anos o grupo abriu albergues que são um luxo só em Copenhague, Dublin, Veneza e Hamburgo. Barcelona e Berlim ganharão os seus ainda este ano.

Outras empresas do ramo estão se expandindo. O elemento catalisador desse processo foi a crise econômica europeia, que fez cair os preços dos imóveis e deixou terrenos vagos em áreas centrais, e também fez surgir um novo tipo de turista: os mochileiros da terceira idade.

Ao longo de uma semana agitada, avaliei albergues de luxo em Paris, Lisboa, Barcelona e Berlim. A intenção era viajar incógnito. Será que essas novas hospedarias funcionam como alternativas sofisticadas, confortáveis e acessíveis aos hotéis?

/ TRADUÇÃO DE ALEXANDRE HUBNER E TEREZINHA MARTINO          

Apê de solteiro, em Paris, com estilo

Eu passava sem pressa pelas mercearias asiáticas e açougues halal do bairro de Belleville, em Paris, quando uma monumental obra de arte urbana na lateral de um edifício surgiu à frente. “Il faut se mefier des mots” (“É preciso desconfiar das palavras”), dizia o letreiro. Sem dúvida, pensei, encarando aquilo como advertência. Meu destino, um albergue inaugurado um ano antes, alguns metros adiante naquele mesmo quarteirão, tinha um nome particularmente arrogante: Loft.

Enquanto saía à procura do meu quarto por um corredor de paredes revestidas com estampa de couro de vaca de gosto duvidoso, corri os olhos pelo efusivo folheto de apresentação do lugar: “o novo e extraordinário albergue de luxo Loft é a referência para os melhores albergues de alta classe de Paris”.

Meu quartinho coletivo (diária de 29,90 euros ou R$ 84; theloft-paris.com) tinha o estilo clean e sofisticado de um apê de jovem solteiro: assoalho de taco escuro, cadeiras pretas de plástico trançado, papel de parede criando a ilusão de um revestimento almofadado. Uma porta de cor fúcsia dava para um banheiro todo em preto e branco. Só

uma coisa destoava e cortava o clima: em vez de uma cama, dois beliches.

O apê de solteiro recebeu os solteiros que faltavam com a chegada de três universitários australianos, meus barulhentos companheiros de quarto: Simon, atarracado e boa gente; Dushan, magro, forte e sarcástico; e Kai, um cara meio reservado, com traços asiáticos e um par de headphones na cabeça. De repente, eu, aos 43 anos, me sentia de volta aos tempos da faculdade. Não demorou para que os três começassem a contar histórias escabrosas sobre os albergues em que já haviam se hospedado.

Mais tarde, no café do lobby, em estilo industrial dos anos 1920, jovens hóspedes curtiam o fim de tarde bebendo cerveja e conversando em vários idiomas, tentando se fazer ouvir apesar do speed metal da trilha sonora. Atravessei a rua em busca de um prato de comida tailandesa no Krung Thep, e, à meia-noite, subia no meu beliche. O travesseiro tinha uma cor amarelada e no cobertor havia uma profusão de fios de cabelo preto.  

Tudo diferente: Barcelona em silêncio

Em Barcelona, albergues inovadores surgem em meio às obras de Gaudí e aos bares de tapas. O Sant Jordi Gracia (santjordihostels.com; desde 37 euros ou R$ 105), nas palavras de seus proprietários, é um “albergue de luxo para os cosmopolitas antenados e para quem gosta de

pedalar”. A ele se soma o Sant Jordi Sagrada Familia (desde

27 euros ou R$ 76), da mesma rede, que se gaba de ser “o primeiro albergue com tema skatista de Barcelona”.

Meu albergue, o Violeta Boutique (violetaboutique.com), escondia-se em um edifício do século 19, perto da Avinguda del Portal de l’Angel, inaugurado no ano passado. O misto de verde-água e cinza suave das paredes do meu quarto (75 euros ou R$ 213) estabelecia um contraste agradável com o laranja do banheiro individual. A varanda envidraçada com poltronas almofadadas era o lugar ideal para desfrutar de meu brinde de boas-vindas: uma garrafa de cava. Mas o silêncio era total. “Tentamos fazer com que o Violeta Boutique fosse completamente diferente de um albergue tradicional”, informa o site do estabelecimento. Conseguiram – mas ao custo de eliminar todas as características de um albergue, inclusive as positivas: eventos em grupo, espaços

públicos animados.

 

Os melhores de Lisboa

Criado em 2005 por quatro artistas, o Lisbon Lounge foi o primeiro albergue de Lisboa. Em pouco tempo surgiram outros estabelecimentos semelhantes, como o Lisbon Poets' Hostel e o Travellers House. Todos os anos, Portugal conquista um punhado de Hoscars – prêmios internacionais concedidos pelo site Hostelworld.com.

Nos calçadões da Baixa, o centro de Lisboa, encontrei o simpático casarão do século 18 que abriga o Lisbon Lounge (lisbonloungehostel.com). No interior luminoso e arejado do albergue entendi o motivo de ele provocar tanto entusiasmo. Uma decoração impecável e sofisticadamente kitsch envolvia a sala de convivência de pé-direito duplo, onde uma cabeça de alce de papelão espreitava sofás brancos e mesinhas circulares feitas com cilindros de lavadoras de roupa. Meu quarto individual (48 euros ou R$ 136) era um espaço branco, minimalista, com uma cadeira de plástico transparente e uma estante de metal, sem banheiro privativo.

Na noite seguinte me mudei para o Independente. Ao subir a escadaria de pedra do lugar, tinha a sensação de estar me dirigindo a uma espécie de paraíso dos albergues. É bem verdade que eu havia desembolsado 80 euros (R$ 227). Mas já tivera a experiência de pagar o dobro e receber metade do serviço em hotéis convencionais.

 

Berlim com design, festa e relax

"Nossa happy hour começa em meia hora”, avisou a recepcionista inglesa ao entregar a chave eletrônica do meu quarto no One80, em Berlim. No lobby, um folheto anunciava os temas das festas programadas na boate do albergue, enquanto uma música da banda Guns N’Roses reverberava pelo saguão cinzento.

Eu devia ter bebido alguma coisa antes de ver meu quarto (32 euros ou R$ 90; one80hostels.com). Praticamente nu, havia ali uma pia, um espelho, duas cadeiras em forma de cubo, quadros kitsch e um beliche – a cama superior estava com os lençóis amarrotados. Não havia toalhas (você pode alugá-las por 2 euros). No piso inferior ficam os banheiros e chuveiros comunitários.

Mas o fato é que dois proseccos restauram uma pessoa. Mergulhado numa poltrona de plástico no lobby, observei o menu de bebidas, cujo conselho para evitar ressacas era: "Continue bêbado". Como conciliar a consternação com beliche e banheiros com minha boa avaliação daquele lobby tão social?

No último dia cheguei ao Plus Berlin (plushostels.com). Relaxando na sauna depois de uma longa semana, minha fé foi restaurada. Ao que parece, a cadeia italiana Plus Hostels acredita em desintoxicação. Quase todos os seus albergues têm piscina, sauna ou academia. No de Berlim, inaugurado há três anos numa antiga escola de design, um outro ingrediente reforçou essa combinação restauradora: arte. Luminárias decoradas com imagens de telas de Gustav Klimt, fotos digitais de cidades italianas clássicas inseridas no futuro.

Antes de retornar ao meu quarto, com duas camas de solteiro confortáveis e banheiro privativo 

(32 euros ou R$ 90), fui ao estúdio de arte do hostel. Ocorreu-me que um único fator enaltece alguns albergues, que se tornam experiências excepcionais. Aqui e em Lisboa havia algo mais, que faltava aos de Lisboa e Barcelona: alma. Alma e camas de verdade, não beliches.

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