Baptistão/AE
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Boas notícias do Chile

O homem mais viajado do mundo fala sobre sua experiência no país de Gabriela Mistral e Pablo Neruda

Mr. Miles, miles@estadao.com.br,

09 Março 2010 | 02h54

Conforme anunciado nas últimas colunas, nosso irrequieto viajante esteve mesmo em São Paulo para o lançamento do livro A Noiva da Canoa e Outros Amores Embarcados, de seu velho amigo Ronny Hein. Para decepção dos demais convivas, entretanto, mr. Miles pediu ao autor que autografasse seu exemplar 2 horas antes do evento, diante de uma dose dupla de single malt em um pequeno bar da região do Largo da Batata, que o correspondente inglês chama de "Potato Square". E diz lembrar Londres durante o bombardeio alemão na Segunda Guerra.

O motivo para a mudança de planos, que, diga-se, mais uma vez frustrou a redação deste caderno, foi dos mais elevados. Pouco antes de deixar a Grã-Bretanha, mr. Miles recebeu um e-mail proveniente do Chile, assinado pelo sempre leal companheiro Don Jaime Ibañez de J. Bean Bórquez, solicitando sua presença urgente naquele país, então recém-abalado pelo incomensurável terremoto de Concepción.

Para os que não lembram, Don Jaime é um self-made man que, de pequeno cáften em Assunção, no Paraguai, nos anos 60, fez-se magnata no país de Gabriela Mistral e Pablo Neruda, criando o grupo Laguna Verde, que atua em campos tão distintos quanto a produção de vinhos, a mineração de cobre, a comunicação empresarial e outros. Daqui em diante, é o próprio mr. Miles quem conta:

"Well, my friends: justificadamente preocupado com o destino de Jaimito (permitam-me usar o apelido pelo qual o trato), não hesitei em alterar minha programação. Como o Aeroporto de Santiago estivesse fechado, aceitei a cortesia de viajar no Gulfstream 450 que ele me pôs à disposição. Poucas horas depois, aterrissamos em seu campo de pouso particular e, thank God, encontrei my old fellow em perfeita saúde, degustando um carmenère entre os destroços de bibelôs e outros utensílios derrubados das prateleiras pelo incidente sísmico.

Em poucos minutos, o magnata de origem aymara informou que havia me convocado para inspecionar, em seu jatinho, as regiões mais visitadas do país, visto que a repercussão internacional do cataclismo era potencialmente destrutiva para o importante mercado turístico local. "Si no hay daños, Miles, quiero que lo cuentes al mundo", pediu-me o empresário, com sua poderosa voz de tenor.

Seguiram-se três dias de maratona aérea em que viajamos dos desertos do norte às geleiras patagônicas. Cabe-me, therefore, informar que, apesar da lamentável perda de vidas e dos estragos materiais em áreas próximas ao epicentro, o Chile segue tão atraente e equipado como antes. O norte do país, inclusive a festejada região do Atacama, não sofreu um dano sequer. Na Quinta Região, onde ficam Valparaíso e Viña del Mar, alguns imóveis antigos ruíram. Mas a estrutura hoteleira permanece inabalada, os congrios seguem saborosos e até ganhei alguns pesos no cassino.

Há estragos periféricos em Santiago, mas nada que afete a beleza montanhosa da cidade, onde saboreamos um surtido de ceviches no restaurante Azul Profundo, em Bellavista. Na Rota do Vinho de Colchágua, onde, I must say, exageramos na dose, só o Hotel Casa Silva e uma vinícola pequena tiveram danos, que um mutirão de limpeza resolve.

As estações de esqui sobreviveram intactas e esperam a neve e os esquiadores para a próxima temporada. Termas de Chillán, a mais próxima do epicentro, teve alguns vidros quebrados - apenas isso. Mais ao sul, nem sinal do tremor. A região dos lagos - Puerto Montt, Puerto Varas, Frutillar - segue em sua paz de embalagem de chocolate. Os cruzeiros que viajam rumo ao sul, passando pelas grandes geleiras, continuam funcionando. O mesmo ocorre com os navios que partem de Punta Arenas pelo Estreito de Magalhães. As formidáveis Torres del Paine sequer perderam um naco de neve em seu topo.

In other words - e atendendo ao pedido de um velho amigo -, conclamo-os a não excluir o Chile dos planos de férias. Estará, of course, mais barato do que nunca, less crowded e igualmente interessante. Besides, as estatísticas comprovam: tremores desta grandeza levam décadas para se repetir. Don"t you agree?"

* Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Esteve em 132 países e 7 territórios ultramarinos

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