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Bolo x torta, biscoito x bolacha

Diferenças e curiosidades nas comemorações de um 'cumpleaños'

Bruna Toni, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2019 | 03h40

Nunca me aconteceu de aniversariar em viagens a trabalho, mas com frequência tenho encontrado colegas de profissão ficando mais velhos ao longo delas. Aniversários de pessoas que, em geral, acabei de conhecer, mas com as quais vou compartilhar experiências em um ritmo intenso e digno de Big Brother por quatro, cinco ou sete dias. Não temos ainda intimidade, mas todos do grupo costumam se mobilizar para um bolinho-surpresa para o aniversariante após um dos jantares.

Digo bolinho se o feliz aniversário for algum falante da língua portuguesa, claro. Na semana passada, por exemplo, estávamos nas Ilhas Cayman cantando a clássica canção de parabéns em espanhol e em inglês. Era o terceiro dia de viagem e a celebração dos 39 anos da jornalista e argentina Érica. Apesar de ela compreender o português – ou o portunhol –, é questão democrática felicitar a pessoa na língua dela ou ao menos naquela em que todo mundo se entende.

Mas se o “parabéns a você” não teve discussão na hora das traduções, o mesmo não houve com a palavra “bolo”. Érica aceitou bem o fato de a parte brasileira do grupo lhe oferecer dois deliciosos pedaços do doce – e ela os comeu sem qualquer problema. Foi incapaz de entender, porém, qual o motivo de chamarmos aquela mistura de farinha com ovo e outros ingredientes mais de “bolo”. 

“És torta”, disse a colega dela, também argentina. “E se for salgada, é o quê?”, perguntei. “Torto”. Claro que caí na gargalhada, como elas. E é claro também que este início de conversa se estendeu a outras tantas palavras que temos de diferente no português e no espanhol e que soam engraçadas a quem não domina um dos idiomas.

Como não tinha explicações na hora, só pude responder às colegas argentinas que “bolo era bolo e torta era torta, da doce e da salgada”. E fui além: “bolacha é bolacha, biscoito é biscoito”. “Mirem muchachas, vocês encontrarão alguns brasileiros, particularmente do Rio de Janeiro, dizendo “biscoito”, mas é bolacha”, ensinei. Não me julguem os leitores cariocas, fiz apenas meu papel de paulistana defensora das bolachas.

O pão é a origem

Rivalidades linguísticas à parte, a dúvida de Érica me provocou a ir atrás da etimologia da palavra bolo. Segundo o doutor em Filosofia Gabriel Perissé, autor de livros sobre a linguagem, ela deriva do latim bulla, que seria a bolha de ar que surge na superfície da água. Esfera por esfera, por que não chamar a massa redondinha como bola de bolo? 

A origem do bolo é o pão. Conta-se que já no Egito Antigo alguns pães eram adoçados com xaropes de frutas. Gregos e romanos, por sua vez, aprimoraram a receita e, muitas vezes, a ofereceram aos deuses, com velas e como símbolo da lua cheia (eis uma explicação para o formato redondo clássico). Neste momento, a massa doce deixa de ser pão e passa a ser denominada bolo, algo ainda simples.

Já no século 16, Catarina de Médici e Henrique II da França se casam com direito ao primeiro bolo de andar de que se tem notícia.

 No Brasil, a produção de bolos começa com a chegada dos portugueses. Mas, na falta de ingredientes europeus como a farinha de trigo, os novos moradores do País encontraram substituições à la Bela Gil: seguiram os indígenas e começaram a utilizar farinha de milho, farinha de tapioca e, claro, mandioca. Ideia genial que deu origem a iguarias como o bolo Souza Leão e o bolo-de-rolo, ambos nascidos em Pernambuco e hoje patrimônios imateriais do Brasil. Em tempo: bolacha seria o bolo doce em tamanho reduzido. Ou seja, cariocas...

Tanto quanto cantar parabéns na língua do aniversariante, vale a tentativa de oferecer um bolo típico do lugar onde estamos. E isso, nas Ilhas Cayman, não foi difícil. Seu principal doce, produto de exportação e “o melhor souvenir que você pode levar”, me disseram, é um bolo. Feito de rum, bebida tradicional nas ilhas caribenhas. Torta ou bolo, o importante é que foi um feliz cumpleaños

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